Blog dos Espíritos
A coragem de recomeçar
A Lei de Progresso e a justiça divina
Há momentos na vida em que somos convidados a parar, olhar para trás e reconhecer que alguns caminhos não nos conduziram para onde esperávamos. Uma escolha equivocada, uma oportunidade perdida, uma relação que chegou ao fim, uma dificuldade prolongada ou simplesmente a percepção de que poderíamos ter agido de outra maneira podem despertar em nós sentimentos de arrependimento, tristeza e insegurança. Nessas circunstâncias, é comum acreditar que os erros do passado definem aquilo que somos e que determinadas experiências nos impedem de seguir adiante. A Doutrina Espírita, porém, oferece-nos uma perspectiva muito mais ampla e consoladora: somos Espíritos imortais, em constante processo de aprendizado e nenhum momento da nossa trajetória precisa representar o fim da caminhada.
Recomeçar faz parte da própria Lei de Progresso. Em “O Livro dos Espíritos”, Allan Kardec apresenta o progresso como uma lei natural à qual todos os Espíritos estão submetidos. Ninguém permanece eternamente estacionado, porque a evolução é o destino de todos os seres. Isso significa que nossas imperfeições atuais não representam aquilo que seremos para sempre. Somos seres em construção, e justamente por isso recebemos da Providência Divina inúmeras oportunidades para aprender e avançar.
Essa compreensão modifica profundamente nossa relação com os próprios erros. Reconhecer uma falha é necessário, porque a consciência amadurece quando assume responsabilidade por seus atos, mas reconhecer um erro não significa condenar-se indefinidamente. O arrependimento pode ser um importante ponto de partida quando nos conduz à reparação e à mudança. O que não podemos permitir é que a lembrança do passado se transforme em uma prisão capaz de impedir nosso crescimento. Se erramos, temos o dever de aprender com o erro, se prejudicamos alguém, devemos procurar reparar, se desperdiçamos uma oportunidade, podemos valorizar melhor a próxima.
Jesus nos convida à renovação
O Evangelho de Jesus é uma das maiores expressões dessa confiança na capacidade de renovação do ser humano. Ao longo de sua passagem pela Terra, o Cristo jamais reduziu uma pessoa aos seus erros ou à posição que ocupava na sociedade. Seu olhar alcançava aquilo que cada indivíduo poderia se tornar. O encontro com Zaqueu, por exemplo, demonstra que uma mudança verdadeira pode nascer quando alguém percebe a necessidade de transformar a própria conduta. Zaqueu não apagou o passado, mas tomou uma nova decisão diante dele. A partir daquele momento, suas atitudes poderiam construir uma história diferente. O passado permaneceu como experiência, mas deixou de ser uma sentença.
A mesma mensagem está presente na parábola do filho pródigo. O filho se afasta, equivoca-se e, depois de reconhecer sua situação, decide retornar. O pai o recebe com alegria, demonstrando que o amor não fecha as portas para aquele que deseja voltar ao caminho. Jesus não estava ensinando que os erros não possuem consequências, mas revelando a grandeza da misericórdia e a importância de oferecer oportunidades de renovação.
À luz do Espiritismo, essa possibilidade de retorno ganha uma dimensão ainda mais profunda através da reencarnação. Em “O Evangelho segundo o Espiritismo”, Kardec apresenta a pluralidade das existências como expressão da justiça e da misericórdia de Deus. Se uma única existência fosse suficiente para que todos alcançassem a perfeição, as diferenças tão profundas encontradas entre as criaturas seriam difíceis de compreender diante da justiça divina. A reencarnação, ao contrário, permite compreender que cada Espírito possui uma longa trajetória de desenvolvimento e que Deus oferece tantas oportunidades quantas forem necessárias para que Seus filhos aprendam e progridam.
Recomeçamos através de novas escolhas
A Doutrina Espírita também nos ajuda a compreender que a transformação moral não acontece de maneira imediata. Em “O Livro dos Espíritos”, ao tratar das más inclinações, Kardec recebe dos Espíritos superiores uma resposta que demonstra a importância da vontade e do esforço pessoal. Vencer uma imperfeição exige perseverança, porque muitos hábitos foram construídos ao longo do tempo e não desaparecem simplesmente porque decidimos abandoná-los. A reforma íntima é um processo gradual, no qual cada pequena conquista possui valor.
Nesse processo, precisamos também aprender a ter paciência conosco. A paciência não significa acomodação diante das próprias imperfeições, mas compreensão de que toda transformação verdadeira necessita de tempo. Não podemos exigir de nós mesmos, em poucos dias, aquilo que talvez tenha levado anos para ser construído. O importante é manter a direção, reconhecer os pequenos progressos e não abandonar o esforço quando surgirem recaídas. A queda ocasional não invalida o caminho percorrido; ela apenas nos recorda que ainda temos algo a aprender.
A coragem de recomeçar está profundamente relacionada ao exercício do livre-arbítrio. Não escolhemos todas as circunstâncias que encontramos ao longo da existência, mas temos responsabilidade diante da maneira como respondemos a elas. Podemos permanecer indefinidamente presos ao que aconteceu ou transformar a experiência em aprendizado. Podemos alimentar o ressentimento ou buscar compreender. Podemos permitir que uma decepção destrua nossa esperança ou utilizá-la para amadurecer nossos sentimentos. O acontecimento pode não estar sob nosso controle, mas as escolhas que fazemos a partir dele pertencem ao campo da nossa responsabilidade.
Recomeçar também pode significar voltar a cuidar de aspectos da própria vida que foram esquecidos. Pode ser retomar um propósito, reconstruir uma relação, procurar o conhecimento que abandonamos, voltar a servir, fortalecer a espiritualidade ou simplesmente recuperar a esperança. Algumas vezes, o recomeço será percebido por todos, em outras, acontecerá silenciosamente dentro da consciência, sem que ninguém ao redor perceba. Não importa. Deus conhece os esforços que fazemos no íntimo e conhece também as lutas que ainda não conseguimos expressar.
Talvez a pergunta mais importante diante de um passado difícil não seja "por que eu fiz isso?", mas "o que posso fazer a partir de agora?". A primeira pergunta pode nos levar repetidamente ao que não pode mais ser modificado, a segunda nos conduz ao presente, que é justamente o lugar onde nossas escolhas podem produzir transformação. O passado deve ser consultado como professor, não carregado como sentença. Ele pode nos ensinar onde precisamos melhorar, mas não precisa determinar para onde iremos.
Por isso, quando o desânimo nos fizer acreditar que já fomos longe demais para voltar, podemos recordar que Deus não estabelece um limite para a capacidade de transformação de Seus filhos. Quando o passado pesar, podemos transformá-lo em experiência. Quando reconhecermos um erro, podemos procurar repará-lo. Quando uma porta se fechar, podemos buscar o aprendizado daquela experiência e continuar nossa caminhada. E quando tivermos medo de começar novamente, podemos lembrar que nenhum grande caminho precisa ser percorrido de uma só vez. Muitas vezes, a transformação começa simplesmente com a decisão de dar o próximo passo na direção daquilo que fomos destinados a ser: Espíritos cada vez mais conscientes, livres e capazes de amar.
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