Missão de vida
História contada pela advogada Michele Santos à Revista Linda ganhou repercussão
Ganhou repercussão comunitária a entrevista concedida pela advogada Michele Santos à Revista Linda, publicada na edição de setembro. Mãe de Mateus, 25, e Maria Clara, 9, Michele revelou desafios e injustiças sofridas em seus 43 anos de vida.
Aos 18 anos, Michele tornou-se mãe de Mateus, que nasceu com diagnóstico da síndrome de Down, e logo passou a enfrentar diretamente as barreiras de acesso à saúde, à educação, à inclusão e aos direitos que garantem dignidade e cidadania.
“A deficiência do meu filho não era o maior obstáculo: as barreiras mais difíceis estavam na falta de oportunidades e no preconceito ainda presente na família e na sociedade, muitas vezes provocado pela falta de informação e de conhecimento sobre o assunto”, relembra ela, hoje uma das mais reconhecidas ativistas pelos direitos dos PCDs em Cachoeira e região.
DOWN E AUTISMO
“Em vez de concentrar minhas energias nas limitações impostas pelo diagnóstico, passei a enxergar as capacidades e habilidades de Mateus. Nem sempre foi um percurso leve ou fácil, mas sempre acreditei”, acrescenta. Com dedicação e persistência, buscou abrir caminhos, garantir ao filho as oportunidades necessárias e inspirar outras pessoas a seguir em frente. Além de integrar a Associação de Familiares e Amigos do Down, também ajudou na estruturação de entidades pró-autismo.
Trauma na busca por direitos
Na gestação da segunda filha, Maria Clara, Michele, em 2016, enfrentou um novo desafio. Ela foi demitida da Câmara de Vereadores de Cachoeira do Sul sem o pagamento de seus direitos, mesmo estando amparada pela estabilidade garantida às gestantes pela Constituição.
A batalha judicial que se seguiu ao longo daqueles anos foi um novo exemplo comunitário de que nenhuma mulher deveria precisar escolher entre a maternidade e o respeito aos seus direitos. “Ao vencer o processo judicial e ter reconhecidos integralmente meus direitos referentes à licença-maternidade e à estabilidade de gestante, compreendi, mais uma vez, que a defesa da dignidade começa quando alguém decide não aceitar a injustiça como algo normal.”
Quatro perguntas para
Michele Santos, advogada e ativista dos direitos PCDs
Você enfrentou desafios difíceis na condição de mulher. Como vê este cenário?
“Entendi que acolher e orientar é abrir caminhos para que outras pessoas tenham acesso aos seus direitos, à dignidade e às mesmas oportunidades. Não consigo ser indiferente ao sofrimento dessas mulheres. Essa luta já faz parte de quem eu sou. E confesso que foi preciso viver essa realidade para compreender o quanto essas famílias precisam ser acolhidas e priorizadas. Muitas delas não conhecem sequer os seus direitos mais básicos”
Como foi o desenvolvimento pessoal de Mateus?
“O preconceito, a exclusão e o bullying deixaram marcas profundas no Mateus. Ainda assim, ele respondeu da forma mais inspiradora possível: seguiu em frente e encontrou na música, sua grande paixão desde a infância, um caminho para desenvolver sua autonomia, fortalecer sua autoestima e reencontrar a alegria após enfrentar períodos difíceis de isolamento, apatia, ansiedade e depressão”
Pode-se afirmar que a maternidade deixou grandes lições para sua vida...
“Sim. As duas experiências moldaram a mulher e a profissional que sou hoje. Mateus despertou a missão de lutar pela inclusão e pelos direitos das pessoas com deficiência. Maria Clara reforçou minha convicção de que a dignidade é algo inegociável. Foi dessa soma de vivências que nasceu uma atuação profissional e comunitária comprometida também com o fortalecimento das políticas públicas, a ampliação do acesso a serviços especializados e a construção de uma realidade mais justa e humana”
Como é sua atuação comunitária hoje?
“Ao buscar direitos e oportunidades para meu filho, conheci outras famílias, outras realidades e percebi que também podia ajudar quem enfrentava desafios parecidos. Participo da Associação dos Familiares e Amigos do Down de Cachoeira do Sul, da Associação Municipal dos Autistas, do Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa com Deficiência e da Comissão dos Direitos da Pessoa com Deficiência da OAB. Tudo começou pelos meus filhos, mas, no caminho, conheci muitas famílias que também passaram a fazer parte da minha história”
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