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Marcas da superenchente ainda ferem Cachoeira do Sul
A confirmação de um El Niño extremo ainda este ano resgata memória de quem sofreu com o clima na cidade e a insegurança dos problemas estruturais que ainda rondam os cachoeirenses
Dois anos após a maior enchente da história de Cachoeira do Sul e que também assolou o Rio Grande do Sul, moradores ainda convivem com medo da chuva, perdas acumuladas e estruturas destruídas. A tragédia de maio, junho e julho de 2024 deixou marcas que seguem presentes tanto no cotidiano das famílias atingidas quanto em diferentes regiões do município.
Para piorar, a Agência de Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos acaba de confirmar a chegada de um super El Niño com previsão de meteorologistas de ser um dos mais fortes desse tipo desde 1950. 63% são as chances deste novo El Niño atingir seu ápice entre novembro de 2026 e janeiro de 2027. A Organização Meteorológica Mundia), vinculada à Organização das Nações Unidas, já havia emitido um alerta para a probabilidade de um El Niño muito forte em 2026.
Em 2024, o Rio Jacuí – que tem o nível normal em 18 metros – atingiu 29,55 metros, o maior nível de sua história em Cachoeira, provocando alagamentos históricos em diversos pontos da cidade. Conforme o superintendente da Defesa Civil da época, Edson das Neves Júnior, localidades como Ferreira, Porteira Sete, Cristo Rei e Amorim estiveram entre as mais afetadas de Cachoeira.
Mesmo assim, passados 24 meses do período crítico, a sensação de insegurança ainda acompanha muitos moradores dessas localidades. Um deles é Jorge Colbeich, de 67 anos, morador da localidade da Água Morna, no distrito de Ferreira. Pescador aposentado, ele vive há cerca de 14 anos em um pequeno sítio ao lado da esposa. Apesar de ter enfrentado outras enchentes ao longo da vida em Cachoeira, afirma que nenhuma se comparou a de 2024.
Na ocasião, ele perdeu praticamente tudo o que havia dentro de casa, incluindo a criação de 136 galinhas no sítio. Sem conseguir permanecer no imóvel, precisou deixar a propriedade às pressas e buscar abrigo na casa da filha. Mesmo dois anos depois, ele conta que o medo continua presente sempre que a chuva aumenta. “Infelizmente nada mudou, continua tudo igual. A única novidade foi que consegui fazer uma peça na minha casa, quatro metros acima do chão, para colocar coisas de maior valor caso precise novamente”, relata o aposentado.
TENTATIVA DE VENDA

Colbeich construiu um sobrado para abrigar seus móveis em caso de enchente
O aposentado Jorge Colbeich afirma que já tentou vender o sítio, mas os interessados desistem ao descobrir que o imóvel fica em Ferreira - região frequentemente atingida pelas cheias. Ele também buscou alternativas por meio do Programa Nacional de Crédito Fundiário (Terra Brasil), voltado a agricultores familiares sem-terra ou com pouca área rural, mas não conseguiu avançar no processo.
Apesar das dificuldades, Colbeich mantém o apego à vida no interior e diz que não gostaria de deixar o local onde construiu sua história. “Gosto de morar para fora, criar galinhas, criar porco, mas nem isso podemos mais porque não há tranquilidade. Com a enchente podemos perder tudo. Para a cidade, vou ser sincero: caso me dessem alguma casinha em troca da nossa, eu não gostaria. O que temos aqui é um sonho construído tijolo por tijolo, feito por mim e minha esposa. Então é difícil deixar tudo isso. Preferimos ficar e ver o que vai acontecer”, desabafa o aposentado.
PEDIDO POR DESASSOREAMENTO
Diante do risco constante de novas enchentes, Colbeich acredita que o desassoreamento do Rio Jacuí e da sanga localizada nos fundos da residência poderia ajudar a reduzir os impactos das cheias. Segundo ele, a limpeza dos cursos d’água seria importante para diminuir a elevação do nível de água na região.
“Sou leigo e não sei a quem recorrer para que alguém faça isso. É incrível dizer, mas há um tempo fui em algumas partes aqui da região (no rio) e encontrei geladeira, fogão, cadeira e mesa dentro da água. Não sei qual órgão deveria fazer esse trabalho, mas acho que alguém precisava vir aqui olhar. Se limpassem, seria um baita benefício e ajudaria muito, porque aqui (Ferreira) somos cerca de 700 pessoas, nem todos pegam enchente, mas a maioria são pessoas de idade”, relata Colbeich.
Ele também cobra maior atenção do poder público em relação às comunidades atingidas pelas enchentes. “Não posso afirmar que o desassoreamento resolveria, mas iria amenizar, como disse sou leigo. Não procuro político porque acredito que eles deveriam olhar para o povo e não ao contrário, eles tem que procurar benefício para o povo. Todos veem o que está acontecendo”, afirma Jorge.
Interior ainda espera pela ajuda

Ponte do Bosque está há dois anos sem conserto
Os reflexos da superenchente também permanecem visíveis na infraestrutura do interior. Estruturas como a Ponte do Iruí, Ponte do Rincão dos Bravos e Ponte do Bosque, seguem sem solução definitiva. A Ponte do Bosque completou dois anos sem reconstrução. Segundo o agricultor Volmir Santos de Moraes, morador próximo à estrutura, mais de 100 moradores são afetados diariamente pela falta da passagem. Ele afirma que os problemas atingem diretamente o escoamento de safras, o transporte escolar e o deslocamento de moradores até postos de saúde próximos. Antes da queda da ponte, alguns trajetos podiam ser feitos em cerca de um quilômetro. Hoje, a distância chega a 10 quilômetros por rotas alternativas.
Além disso, a falta da ponte também afeta pessoas em situação de vulnerabilidade. “Temos uma amiga com câncer que para ir no posto de saúde seria perto com a ponte, mas agora ela precisa fazer toda uma volta para poder conseguir atendimento”, lamenta o agricultor. Na educação, apesar do transporte escolar continuar funcionando, famílias relatam dificuldades diárias. Segundo Moraes, alunos da Escola Aldo Porto precisam caminhar até pontos acessíveis ao ônibus, enquanto estudantes do Colégio Conceição, enfrentam interrupções no transporte em dias de chuva.
O agricultor afirma que a comunidade recebeu promessas de que a ponte seria reconstruída até o final do ano passado, mas nenhum novo prazo foi informado desde então. “Peço que não lembrem de nós apenas em época de eleição. Moramos aqui e precisamos de nossos direitos de ir e vir, ter o direito de escoar nossas safras e nossos filhos irem para escola com segurança”, afirma o agricultor.
Famílias ainda vivem em abrigo

Ângela (ao centro) com outras duas moradoras do abrigo
Além das dificuldades estruturais, famílias atingidas pelas enchentes continuam vivendo em situação provisória. Atualmente, seis famílias atingidas por enchentes permanecem no abrigo da Prefeitura Municipal, localizado na Rua 15 de Novembro. Entre elas está Ângela Maria Gomes, 45 anos, que vive no local com os filhos de 22 e 23 anos. Antes da superenchente, a família morava na Rua São Felipe, no Bairro Cristo Rei.
Ela afirma que está na lista de famílias que devem ser beneficiadas pelo programa Compra Assistida, mas ainda aguarda o benefício de sua nova casa. Segundo relata, a antiga residência chegou a ser demolida em razão do encaminhamento ao programa habitacional. “Cada dia que passa parece não ter fim. É um pesadelo (o abrigo) sem privacidade para nada. Toda vez que o rio sobre, parece que nossa esperança fica cada vez mais distante”, afirma Ângela. A ex-moradora do Cristo Rei relata que a demora trouxe desgaste emocional à família “Apenas gostaria da minha casa que falaram que tenho direito”, desabafa Ângela.
ATENÇÃO
Segundo o Atlas da Defesa Civil divulgado neste ano, Cachoeira do Sul é a terceira cidade gaúcha com maior prejuízo econômico causado por desastres climáticos entre 1991 e 2024. O município acumula perdas estimadas em R$ 1,7 bilhão, afetando principalmente o setor agropecuário, principal força economica local. Em um recorte dos últimos 10 anos, Cachoeira foi a cidade gaúcha com mais registros de desastres climáticos no estado, 32 ocorrências ao todo.
Amorim ainda convive com o medo

Marina Pedroso e Darlan Pedroso: avó e neto ainda temem a enchente

Casa de dona Marina e Darlan ficou embaixo da água em 2024
Outra região fortemente atingida pelas cheias de 2024 foi a área próxima à Ponte do Amorim. Moradora da localidade há mais de 50 anos, a aposentada Marina Carvalho Pedroso, de 75 anos, vive com o neto, Darlan Pedroso, de 33 anos, em uma travessa da Rua Orlando da Cunha Carlos.
A família perdeu praticamente tudo durante a superenchente e, desde então, tenta reconstruir a rotina. Mesmo assim o medo permanece constante. Darlan afirma que após as últimas enchentes, a região próxima a Ponte do Alto do Amorim que já foi cheia de vida, foi ficando cada vez mais vazia pela insegurança. “Cada vez que chove a gente fica apreensivo. Muitas famílias acabaram indo embora”, relata.
Segundo dona Marina, eles ainda permanecem no local por questões financeiras. Ela chegou a buscar alternativas como o Compra Assistida, mas desistiu após dificuldades burocráticas. Mesmo tendo recuperado parte do que perdeu há dois anos, evita comprar móveis ou eletrodomésticos por medo de enfrentar outra enchente.
Darlan conta que após a superenchente, a casa da avó passou por uma vistoria da Defesa Civil. Segundo ele, a família foi informada de que não se enquadrava nos critérios para receber uma nova moradia por viver em uma área considerada inadequada para ocupação (área verde e de risco próximo a sanga).
Além disso, rachaduras existentes na residência teriam sido classificadas como problemas anteriores à enchente, sem relação direta com os danos causados pela inundação. Diante das dificuldades burocráticas, a família desistiu do processo habitacional.
Eles relatam que ainda convivem com o medo de novas enchentes e defendem a realização de novos trabalhos de desassoreamento no Arroio Amorim. Segundo os moradores, embora parte do curso d’água tenha recebido intervenção da Prefeitura no ano passado, ainda há muito a ser feito. Mesmo após a superenchente de 2024, eles afirmam que a água que passa sob a Ponte do Amorim voltou a invadir a residência da família em episódios de chuva, ainda que em proporções menores do que as registradas durante a tragédia.
Cristo Rei ainda vive sob o medo das enchentes

Entulhos de casas destruídas permanecem
Tradicionalmente uma das regiões mais atingidas pelas cheias em Cachoeira do Sul, o Bairro Cristo Rei ainda carrega as marcas profundas da tragédia de 2024. No início de abril deste ano, a Prefeitura demoliu quatro casas pertencentes a famílias atingidas pelas enchentes. Em áreas próximas ao rio Jacuí, ainda existem imóveis abandonados por moradores que conseguiram novas residências por meio do Compra Assistida.
Segundo moradores que preferiram não se identificar - por estarem aguardando suas casas - um dos principais problemas enfrentados no bairro é a insegurança causada pelos imóveis desocupados. Eles contam que algumas residências teriam se tornado ponto de uso de drogas. Além disso, as famílias reclamam da presença de entulhos deixados após demolições, situação que estaria favorecendo o aparecimento de ratos e cobras. “Esses dias minha irmã matou duas cruzeiras”, relatou uma moradora.
Outro ponto destacado pela comunidade é que parte das famílias contempladas pelo programa Compra Assistida conseguiu adquirir uma nova casa, mas permaneceu vivendo no bairro. Já outras ainda aguardam serem chamadas pelo programa habitacional, seguem morando na região e convivendo com o medo de uma nova enchente.
Importante
O El Niño é um fenômeno climático natural que ocorre em intervalos irregulares, geralmente a cada 2 a 7 anos. Ele é caracterizado pelo aquecimento maior ou igual a 0,5ºC das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. Esse aquecimento altera a circulação dos ventos e a distribuição de calor e umidade ao redor do globo, impactando os padrões de clima em diversas partes do mundo.
O PANORAMA HOJE
DESASTRE
Segundo o relatório da Defesa Civil, a superenchente deixou 147 famílias desabrigadas e 921 famílias desalojadas. Pelo menos 20 pontes sofreram danos.
RESIDENCIAS
Segundo a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social, 88 famílias atingidas pela enchente de 2024 em Cachoeira do Sul foram contempladas com o Programa Compra Assistida, do Governo Federal. 66 já receberam os imóveis e 22 ainda aguardam a entrega. De acordo com informações do Ministério das Cidades, todas as 22 famílias restantes deverão ser beneficiadas.
ABRIGO
Atualmente, seis famílias permanecem no abrigo municipal. Destas, apenas uma foi contemplada pelo programa Compra Assistida. Os custos para manutenção das famílias no abrigo são da Prefeitura (são fornecidos alimentos, além da casa, água, luz), um servidor fica na casa durante à noite para algum tipo de assistência que for necessária.
PONTES
A Prefeitura já homologou as empresas que farão as reconstruções da Ponte do Botucaraí, na divisa com Candelária, Rincão dos Bravos e Bosque. Todas elas aguardam pareceres técnicos do governo federal para terem liberação do recurso. A ponte do Iruí está em fase preliminar à concessão da ordem de início.
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Superenchente
Daniel Falkenberg em 16/06/2026 às 12h01Parabéns ao Kauã pela excelente matéria! Bem planejada, bem escrita, bem exemplificada, bem ilustrada! Acho que o JP poderia explorar um pouco mais reportagens deste tipo, que mostrassem maior quantidade de fotos/ilustrações, que provavelmente têm menor custo por não precisarem impressão colorida. Valeu, KAUÃ!
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