Blog da Poesia
Eliane Potiguara

Eliane Lima dos Santos. Ou Eliane Potiguara. Nasceu em 1950. É escritora, contadora de histórias, professora e poeta. Formada em Letras e Educação pela UFRJ com extensão em Educação e Meio Ambiente pela UFOP. Publicou 7 livros. Sua obra mais destacada é Metade cara, metade máscara, de 2018. Ativista e empreendedora social, participou da elaboração da declaração universal dos povos indígenas da ONU. Sua poesia peculiar caracteriza-se pelo forte apelo social e pelo cunho histórico/cultural. Descreve com um lirismo abafado as relações humanas, o racismo, a migração, ancestralidade. Expoente fundamental da literatura, seus versos imbricam intrinsecamente, de modo sui generis no corpo e na voz da mulher indígena. Poesia da resistência, da intuição, do resgate e do reencontro.
A coisa mais bonita que temos dentro de nós mesmos é a dignidade. Mesmo se ela está maltratada. Mas não há dor ou tristeza que o vento ou o mar não apaguem...Bonito é florir no meio dos ensinamentos impostos pelo poder. Bonito é florir no meio do ódio, da inveja, da mentira ou do lixo da sociedade. Bonito é sorrir ou amar quando uma cachoeira de lágrimas nos cobre a alma! Bonito é poder dizer sim e avançar. Bonito é construir e abrir as portas a partir do nada. Bonito é renascer todos os dias. Um futuro digno espera os povos indígenas de todo o mundo... O importante é prosseguir. É comer caranguejo com farinha, peixe seco com beiju e mandioca...Pedimos que nossos espíritos se elevem ao mais sagrado da sabedoria humana e receba a irradiação do amor, da paz e do conhecimento à todas as nossas cabeças indígenas e de outras etnias e povos, transformando todo pensamento discordante, conflituoso em pensamento de paz, que construa a unidade entre todos os seres do planeta Terra.
Eliane potiguara
PANKARARU
Sabem, meus filhos...
Nós somos marginais das famílias
Somos marginais das cidades
Marginais das palhoças...
E da história ?
Não somos daqui
Nem de acolá...
Estamos sempre ENTRE
Entre este ou aquele
Entre isto ou aquilo !
Até onde aguentaremos, meus filhos ?...
Eliane Potiguara

AGONIA DOS PATAXÓS
Às vezes
Me olho no espelho
E me vejo tão distante
Tão fora de contexto !
Parece que não sou daqui
Parece que não sou desse tempo.
Eliane Potiguara

Porta do mercado
Uma onça, um macaco
Um tucano e várias cestas...
A Índia e três indiozinhos
Vendem a madeira entalhada
A cultura massacrada
Orgulho de Tupã...
Na porta do mercado
Aceita esmolas
Quem era dona da Nação
Troca a honra por pedaço de pão...
E nós seguimos indiferentes
Com nossa benevolência de Cristão
Aculturando quem é pagão!
Mara Garin
Madeeeeiraa!
Ecoa no infinito...
Foooooogo!
Ecoa na floresta...
Sooooocooorro!
Ecoa silencioso
No coração
Do nativo deste chão!
Leonardo Leão
Índio
Índio
Tu foste explorado
Tu foste roubado
Tu foste violentado
Sofreste preconceitos
Por parte dos brancos ditos "civilizados"
E agora o que sobrou de ti
Sentados na calçada
Sendo excluídos da sociedade
Que passa e faz de conta que não te vê
Expondo teus artesanatos para ganhar um sustento
Pedindo esmolas e migalhas
Para uma sociedade
que ainda te maltrata.
Camila Rosa Matos
Amor Eletro Doméstico
Arno e Walita
Acenderam o fogão da paixão
Batedeira mais forte o coração
Aquecedor de beijos
Congelador de lágrimas
Secador um do outro
Cafeteira pro sabor
Chuveiro pra espantar o calor
Segredos de liquidificador
Lava roupas sujas
Guarda roupas limpas
Tevê na visão do quarto
Respiraram ar condicionado
Desligaram iluminador
Acordaram sem despertar dor.
César Roos
Na minha rua
Primeiro, naquele tempo que não volta
na minha rua o vizinho tocava violino
nas noites de verão,
na noite ainda quente tinha uma rua
os vagalumes tinham uma noite
que com o calor tinha um violino,
ainda existem as noites
o verão vem e passa
ninguém mais toca violino,
estamos agora em 2020, e
até tenho vergonha de falar,
porque não sou um violino, mas
na minha rua tem um nazista.
Bagual Silvestris
Encontrou algum erro? Informe aqui
