Blog dos Espíritos
Convocados ao amor e ao aperfeiçoamento moral
O amor em primeiro lugar
“Espíritas! amai-vos, eis o primeiro ensinamento; instruí-vos, eis o segundo”. Nessa frase breve e luminosa do Espírito de Verdade, de “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, cap. VI, está condensado todo um programa de transformação espiritual para aqueles que desejam trilhar conscientemente o caminho da evolução. Não se trata de mera recomendação, mas de verdadeiro roteiro de ascensão da alma, pois amar e instruir-se representam os dois grandes eixos do progresso humano: o aperfeiçoamento do coração e o esclarecimento da inteligência.
Todavia, ao observarmos a ordem em que a orientação foi apresentada, percebemos algo profundamente significativo: o amor vem primeiro, e não é por acaso. Antes de instruir a mente, é preciso educar o coração. Antes de conhecer profundamente as leis divinas, é necessário aprender a senti-las na intimidade da alma. Antes de compreender os mecanismos da reencarnação, da mediunidade ou da justiça divina, é indispensável aprender a conviver fraternalmente com o semelhante. Porque ninguém se ilumina verdadeiramente enquanto não aprende a amar.
Amor e caridade
Na concepção espírita, amar o próximo não significa nutrir mera simpatia afetiva por aqueles com quem naturalmente nos afeiçoamos. Amar, em seu sentido evangélico, é muito mais elevado e desafiador. É compreender, acolher e respeitar. É suportar com paciência as imperfeições alheias como desejamos que suportem as nossas. Enxergar, em cada criatura, um Espírito imortal em processo de crescimento, muitas vezes ferido, confuso, endurecido pela dor, marcado por experiências difíceis de outras existências e ainda em luta consigo mesmo.
Quando entendemos isso, passamos a olhar o próximo de forma diferente, pois deixamos de exigir perfeição daqueles que, assim como nós, ainda estão em processo de aprendizagem. Compreendemos, então, uma das mais belas expressões da caridade: entender que cada qual está trilhando seu caminho no seu próprio tempo. No ensinamento de Jesus e na interpretação espírita, a verdadeira caridade transcende a esmola e alcança a atitude interior. Allan Kardec pergunta aos Espíritos Superiores qual o verdadeiro sentido da caridade, e recebe a resposta memorável “Benevolência para com todos, indulgência para as imperfeições dos outros, perdão das ofensas” (O Livro dos Espíritos, questão 886). E essa definição nos mostra que caridade não é apenas o que damos com as mãos. É, sobretudo, o que oferecemos com o coração.
Uma das formas mais elevadas de amar é saber esperar o amadurecimento do outro. Quantas vezes sofremos porque desejamos que os que nos cercam pensem como nós, reajam como nós, compreendam como nós, evoluam no ritmo que consideramos ideal? Mas cada Espírito possui sua história. Cada alma traz consigo séculos de experiências, conquistas, quedas, dores e aprendizados que desconhecemos. Nem todos estão no mesmo degrau evolutivo ou despertaram para as mesmas verdades.
Ter paciência com o semelhante é reconhecer a pedagogia divina em ação. É compreender que Deus não impõe crescimento por força, pois a evolução é processo gradual. Como ensina Emmanuel: “Cada criatura avança no caminho da vida segundo o grau de entendimento que já conseguiu atingir”. Assim também deve ser nossa postura diante dos nossos semelhantes. Na vivência espírita, amar o próximo é reconhecer-se igualmente aprendiz. É perceber que todos estamos na mesma escola evolutiva, apenas em lições diferentes. Uns precisam aprender a ter mais humildade, já outros precisam exercitar a paciência, há aqueles que lutam pelo desapego, alguns também precisam aprender a perdoar. Mas todos nós estamos nesse mundo em constante evolução.
Instruí-vos, o segundo ensinamento
Se o amor é o primeiro ensinamento, a instrução vem para qualificá-lo, pois o estudo da Doutrina Espírita nos ajuda a compreende por que sofremos, por que as pessoas são diferentes, por que enfrentamos relações difíceis, por que certos vínculos são desafiadores, por que precisamos aprender a perdoar. O conhecimento das leis de causa e efeito, da reencarnação e da pluralidade das existências dilata nossa capacidade de amar, pois compreendemos que muitos conflitos atuais são reencontros necessários e que muitas dores são reajustes educativos. Os desafetos de hoje podem ter sido afetos feridos de ontem, e o perdão sincero de agora pode representar libertação para séculos.
Muitos desejam conhecer profundamente a Doutrina Espírita, mas poucos se dedicam à própria transformação moral. É necessário que recordemos: não basta conhecer o Espiritismo intelectualmente, nem citar Allan Kardec ou somente frequentar a casa espírita. O verdadeiro espírita reconhece-se pela transformação moral e pelos esforços que faz para domar suas más inclinações, como nos ensina “O Evangelho Segundo o Espiritismo”. De nada vale vasto conhecimento doutrinário sem ternura no trato. Ou a farta eloquência espírita sem humildade no coração. Nem falar de evolução sem aprender a amar quem pensa diferente, quem erra, quem fere, quem ainda não compreende.
Quando somos pacientes com alguém difícil, escolhemos compreender em vez de condenar e perdoar ao invés de revidar, respeitando o tempo espiritual de cada criatura, estamos cooperando com Deus, auxiliando na educação das almas e sendo instrumentos da misericórdia divina na Terra. Amar o próximo é reconhecer que ninguém floresce antes do tempo, nem amadurece e evolui sob crítica constante. Toda alma precisa de oportunidade, compreensão e amor. Cada Espírito está em sua própria jornada, despertando no momento que lhe é possível, caminhando em seu próprio passo para Deus.
Assim, o chamado do Cristo reforçado no Espiritismo ecoa mais atual do que nunca: amar mais e estudar melhor. Porque se o amor educa o coração, o conhecimento liberta da ignorância. E somente a união de ambos conduz o Espírito à sua plenitude.
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