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“Outra Mamãe”: pesadelo familiar

08/10/2026 14:45 - por Jorge Ghiorzi jghiorzi@gmail.com

A premissa de “Outra Mamãe” (Other Mommy) parte de uma questão profundamente perturbadora: e se a figura em quem mais confiamos no mundo fosse gradualmente substituída por algo incomparavelmente mais sinistro? Dirigido por Rob Savage e baseado no best-seller de Josh Malerman, o filme reúne todos os ingredientes necessários para um pesadelo sobrenatural de alto nível, incluindo a presença magnética de Jessica Chastain no elenco. Contudo, a experiência final fica aquém das expectativas, revelando-se um filme de terror que se distancia em demasia do potencial prenunciado por seu material de origem.

Na trama, acompanhamos a pequena Bela, interpretada por Arabella Olivia Clark, uma criança de oito anos cuja rotina familiar, já fragilizada por tensões domésticas, é abalada pelo surgimento de uma entidade misteriosa. O “ser” adota uma aparência quase idêntica à de sua mãe, apresentando-se inicialmente como uma figura reconfortante ou companheira de brincadeiras. Gradualmente, a "outra mãe" revela uma intenção obsessiva e invasiva, forçando os pais a enfrentar uma presença que se recusa a abandonar a garota, alimentando-se das brechas emocionais daquele lar.

Em termos estéticos e técnicos, o longa satisfaz com eficiência. O realizador demonstra habilidade ao trabalha a sensação de claustrofobia do espaço doméstico e explorar a vulnerabilidade inerente à imaginação infantil, transformando cantos escuros e armários em elementos de constante apreensão. O que carece à obra, no entanto, é o estabelecimento de fundações dramáticas fortes o suficiente para sustentar o medo que pretende provocar.

A sequência de abertura é inegavelmente apavorante. Ela estabelece um clima de constante incerteza e instaura a expectativa de um crescendo de tensão claustrofóbica. Infelizmente, o padrão estabelecido no primeiro ato não encontra eco nas etapas seguintes. Algo se perde na transição do horror sugestivo para a manifestação concreta, deixando no espectador uma incômoda sensação de frustração.

É verdade que explicações exaustivas não são obrigatórias no cinema de gênero, pois o terror muitas vezes se alimenta da ambiguidade e do insondável, uma vez que o desconhecido é o verdadeiro motor do medo. O problema de “Outra Mamãe” não está na ausência de respostas didáticas, mas na fragilidade de sua própria mitologia interna. O filme flerta com temas densos como o trauma infantil, a duplicação maternal e o colapso familiar, porém recusa-se a aprofundar as regras da entidade ou a carga psicológica que a origina. Sem um subtexto sólido ou uma coerência simbólica que amarre a ameaça à dinâmica da família, o mistério perde a força e se esvazia.

À medida que caminha para o clímax, a narrativa abandona a atmosfera sutil para se tornar excessivamente barulhenta e extravagante. Em vez de uma escalada genuína de pavor, o público testemunha um acúmulo de sobressaltos (jump scares) e efeitos mecânicos que beiram o caricato.

Ao final, “Outra Mamãe” revela-se uma obra que parece muito mais assustadora do que realmente é. Embora disponha dos clichês habituais, como movimento brusco, ruído amplificado e choque superficial, o início promissor não se traduz em uma entrega satisfatória. Resta a sensação de um exercício de estilo genérico que desperdiça seu elenco e seu material base, resultando em um filme marcado pela irrelevância e pela decepção.

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