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A Ilha Esquecida: amigas para sempre
O estilo consolidado pela Pixar dominou o mercado da animação digital por praticamente duas décadas, criando um padrão estético realista e tridimensional que parecia inquestionável. No entanto, o cenário recente da indústria começou a apontar para novos caminhos. Cada vez mais, diversas produções preferem resgatar a textura do estilo 2D e o charme do traço artesanal, bem próximo do modelo clássico de desenho feito à mão.
Essa virada visual ganhou força com o formato inspirado nos quadrinhos de “Homem-Aranha no Aranhaverso”, em 2018. Um novo exemplo dessa tendência é o recente “A Ilha Esquecida”, produzido pela DreamWorks. Além de adotar essa mesma sofisticação técnica, o longa rivaliza com a aventura animada do Homem-Aranha ao também entregar uma ação contagiante e um ritmo intenso.
A trama de “A Ilha Esquecida” se passa nas Filipinas durante os anos 90 e acompanha as amigas de infância Jo e Raissa, duas jovens que atravessam a fase desconfortável da transição para a vida adulta. A história aborda aquele momento em que amadurecer passa a significar o distanciamento inevitável das velhas amizades. Raissa prepara as malas para ir estudar nos Estados Unidos, enquanto os planos de Jo continuam sem uma direção definida. O carinho entre as duas permanece intacto, mas o desequilíbrio entre os rumos que suas vidas tomam gera uma tensão que nenhuma das duas tem coragem de verbalizar.

O rumo dessa despedida muda totalmente quando os contos populares transmitidos pela falecida avó de Jo provam ser muito mais reais do que pareciam. Um portal misterioso transporta a dupla para Nakali, uma ilha escondida e habitada por seres fascinantes da mitologia filipina. Assim, o que seria uma última noite de conversas transforma-se em uma jornada maluca e perigosa para tentar encontrar o caminho de volta para casa.
O roteiro do filme se destaca por ser verdadeiramente engraçado em várias passagens, mas o elemento que consolida o filme como uma boa comédia é a harmonia perfeita entre o texto e a agilidade da animação. A animação é um espetáculo colorido, dinâmico e propositalmente caótico. Ela esbanja criatividade na composição dos cenários, no ritmo das piadas e no carisma imediato de seus personagens, inclusive os secundários.
Em um momento em que boa parte das produções voltadas para o público infantil e familiar aposta na segurança de franquias consagradas e marcas conhecidas, como “Toy Story”, “Shrek” e “Moana”, esta nova produção da DreamWorks surge como uma grata surpresa. O projeto se diferencia justamente pela originalidade de sua premissa e pela forma afetuosa e humana com que aborda suas protagonistas.

Por trás do ritmo frenético e dos monstros mitológicos, a narrativa esconde uma observação sensível sobre afetos. Em essência, a animação mostra que o afastamento natural de uma amizade não deve ser tratado como uma traição. As trajetórias mudam e as pessoas tomam caminhos opostos, mas as memórias compartilhadas permanecem. “A Ilha Esquecida” é uma aventura maravilhosamente estranha, culturalmente rica e emocionante, deixando uma mensagem otimista de que o encerramento de uma etapa não torna o legado do que foi vivido menos real ou menos importante.
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