Blog da Arquiteta

Vai reformar? Veja como reduzir transtornos antes mesmo de a obra começar

15/09/2026 08:35 - por Luiza Pereira Ribeiro luizapereira.arq@gmail.com

Os maiores problemas de uma obra nem sempre começam quando a primeira parede é quebrada. Muitas vezes, atrasos, retrabalhos e gastos extras são consequência de decisões que não foram planejadas com antecedência.

Reformar pode ser uma experiência empolgante, mas também exige organização. Afinal, enquanto paredes mudam de lugar, pisos são retirados e novos materiais chegam, a vida continua acontecendo dentro daquele espaço.

E muitos dos transtornos associados a uma reforma não surgem necessariamente durante a execução. Eles podem começar muito antes, quando o projeto ainda está sendo definido e decisões importantes são deixadas para depois.

Para entender melhor como o planejamento pode influenciar o andamento de uma obra, conversamos com Bárbara Kemp, CEO da Kemp Projetos de Arquitetura e Gerenciamento de Obras, que atua especialmente no gerenciamento de obras corporativas.

A experiência em projetos que precisam conciliar execução, prazos, equipes e funcionamento das operações mostra uma questão que também pode ser aplicada às reformas residenciais: quanto mais preparado estiver o processo antes do início da obra, maior tende a ser a previsibilidade durante a execução.

A partir desses apontamentos, reunimos cinco cuidados que podem ajudar quem está planejando uma reforma a reduzir problemas e tornar o processo mais organizado.

1. Não comece a obra antes de definir o que será feito

Um dos maiores erros é começar a execução enquanto decisões importantes ainda estão em aberto.

É fácil entender por que isso acontece. O cliente quer ver a transformação acontecendo e, depois de tanto tempo planejando, surge a sensação de que finalmente é hora de começar.

Mas uma obra não é apenas uma sequência de serviços. As etapas estão conectadas.

A definição de um revestimento pode interferir na paginação. A paginação pode influenciar medidas. As medidas podem determinar a marcenaria. A marcenaria pode exigir pontos elétricos em posições específicas.

Quando essas decisões acontecem fora de ordem, aumenta a possibilidade de retrabalho.

Como explica Bárbara, “quanto mais decisões ficam para o período da obra, maiores são as chances de retrabalho, atrasos e aumento de custos.”

Por isso, antes de começar, é importante ter clareza sobre o escopo da reforma, os ambientes envolvidos, as principais soluções do projeto e a sequência em que os serviços serão realizados.

Não significa que absolutamente tudo precise estar definido nos mínimos detalhes meses antes. Mas as decisões que interferem diretamente na execução precisam chegar à equipe no momento certo.

2. Pense em como a casa continuará funcionando

Uma reforma acontece dentro de uma casa que, na maioria das vezes, continua sendo utilizada.

Esse detalhe muda completamente a maneira como a obra deve ser planejada.

Se a cozinha será demolida, onde a família fará as refeições? Se o único banheiro da residência será reformado, por quanto tempo ele ficará indisponível? Se o quarto será transformado, onde ficarão os móveis e objetos?

São questões simples, mas que podem fazer uma grande diferença na experiência dos moradores.

Uma das práticas destacadas pela especialista é identificar previamente aquilo que não pode parar.

Em uma empresa, isso pode significar preservar áreas essenciais para o funcionamento da operação. Em uma residência, pode significar manter um banheiro em funcionamento, dividir a reforma por ambientes ou estabelecer uma ordem de execução que minimize os impactos na rotina.

O planejamento, portanto, não deve considerar apenas o que será construído.

Também precisa considerar como as pessoas vão viver enquanto isso acontece.

3. Planeje a logística — não apenas o projeto

Quando pensamos em uma reforma, é comum concentrarmos toda a atenção na planta, nos materiais e no resultado estético.

Mas existe uma parte da obra que acontece nos bastidores: a logística.

Materiais precisam chegar, ser conferidos e armazenados. Ferramentas precisam estar disponíveis. Equipes precisam circular. Entulho precisa ser retirado. Ambientes prontos precisam ser protegidos.

Em um apartamento, ainda é necessário considerar regras do condomínio, horários permitidos para entrada de materiais, utilização do elevador e descarte de resíduos.

Por isso, é importante pensar antecipadamente em perguntas que muitas vezes só aparecem quando o problema já aconteceu.

Onde esse material ficará? Por onde ele entrará? Quando precisará estar disponível? Como será retirado o entulho?

A organização desses fluxos contribui para evitar desperdícios, interrupções e conflitos durante a execução.

Como destaca a especialista, uma obra precisa ter sua logística pensada antes para que a equipe consiga trabalhar com eficiência durante a execução.

4. Quem utiliza o espaço precisa participar das decisões

Um projeto pode estar tecnicamente muito bem resolvido e, ainda assim, não atender completamente às necessidades de quem irá utilizá-lo.

Isso acontece porque existem aspectos da rotina que só aparecem quando conversamos com quem vive naquele espaço.

O morador sabe que falta uma tomada ao lado da cama. Sabe que o armário da cozinha nunca comporta todos os utensílios. Sabe que determinada porta atrapalha a circulação ou que determinado ambiente precisa estar disponível em um horário específico.

Essas informações são fundamentais.

Em obras corporativas, ouvir os usuários do espaço ajuda a identificar horários críticos, fluxos de circulação e áreas que não podem ser interrompidas. Em uma residência, o princípio é semelhante: entender a rotina ajuda o projeto a responder às necessidades reais de quem vai morar ali.

Por isso, participar do projeto não significa apenas escolher a cor da parede.

Significa explicar como você vive.

5. Na hora de contratar, não escolha apenas pelo menor preço

Depois de planejar a reforma, chega uma das decisões mais importantes: escolher quem irá executá-la.

E é justamente nesse momento que o preço costuma ganhar protagonismo.

Comparar orçamentos é importante, mas olhar apenas para o valor final pode esconder diferenças significativas entre as propostas.

O que está incluído em cada orçamento? Quem será responsável pela execução? Qual é a experiência da equipe? Como funciona o acompanhamento? Existe um cronograma? Quem compra os materiais? Como serão tratados os serviços que eventualmente precisarem ser acrescentados?

Uma proposta mais barata pode simplesmente estar considerando um escopo diferente.

Além disso, uma equipe experiente e organizada tende a ter maior capacidade de antecipar problemas e lidar com situações inesperadas.

Isso não significa que o orçamento mais alto seja necessariamente o melhor.

Significa que preço precisa ser analisado junto com escopo, experiência, organização e capacidade de execução.

Planejamento não elimina imprevistos

Existe uma expectativa comum de que uma obra bem planejada deveria acontecer exatamente como previsto.

Não é bem assim.

Mesmo com projeto, cronograma e uma equipe experiente, algumas situações só aparecem quando a intervenção começa. Uma parede pode revelar uma instalação antiga. Um material pode atrasar. Uma medida pode precisar ser ajustada.

O planejamento não existe para eliminar completamente os imprevistos.

Ele existe para reduzir o espaço que o improviso ocupa na obra.

Quando as decisões principais já estão tomadas, os materiais foram planejados, a logística foi organizada e as responsabilidades estão claras, fica muito mais fácil reagir quando algo inesperado acontece.

Uma reforma tranquila começa antes da obra

A principal lição é que a obra começa muito antes da chegada da equipe.

Começa no levantamento do imóvel, na conversa com os moradores, nas decisões de projeto, na escolha dos materiais, na elaboração do orçamento e na definição de quem será responsável pela execução.

É nessa fase que ainda existe liberdade para mudar uma ideia sem precisar quebrar uma parede.

Por isso, se você está pensando em reformar, não tenha pressa de começar a obra.

Tenha pressa de planejá-la bem.

Vai reformar? Comece pelo projeto.

Um projeto de arquitetura não serve apenas para mostrar como sua casa ficará depois da reforma. Ele é uma ferramenta para organizar decisões, prever necessidades, compatibilizar soluções e orientar a execução.

É no projeto que muitas dúvidas podem ser resolvidas antes de chegarem ao canteiro de obras.

Se você está planejando uma reforma, posso ajudar a transformar suas ideias em um projeto pensado para a sua rotina, para o seu espaço e para uma execução mais organizada.

Porque uma boa reforma não começa com a demolição.

Começa com planejamento.

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