Blog dos Espíritos

O bem e o mal sofrer

22/06/2026 09:19 - por Ricardo Aguiar presidencia.ume.cachoeiradosul@fergs.org.br

Causas do sofrer
Dentre os ensinamentos do Cristo, poucos são tão profundos e consoladores quanto aqueles relacionados ao sofrimento humano. Afinal, quem de nós jamais experimentou a dor, a decepção, a enfermidade, as perdas ou os desafios que parecem ultrapassar nossas forças? Diante dessas experiências inevitáveis da existência, surge uma pergunta que acompanha a humanidade desde os tempos mais remotos: por que sofremos? A Doutrina Espírita, codificada por Allan Kardec, não elimina a dor da experiência humana, mas oferece elementos para compreendê-la sob uma perspectiva mais ampla, em que a vida corporal representa apenas um capítulo da existência do espírito imortal.

Em “O Evangelho segundo o Espiritismo”, no capítulo V, intitulado "Bem-aventurados os aflitos", encontramos uma das mais belas reflexões sobre o tema. Kardec esclarece que as aflições possuem origens distintas: “As vicissitudes da vida têm duas fontes bem diferentes, ou, para melhor dizer, duas causas bem diversas que importa distinguir. Umas têm sua causa na vida presente; outras, fora desta vida”. Essa observação nos convida a abandonar a ideia de um sofrimento aleatório ou de um destino regido pelo acaso. À luz da imortalidade da alma e da pluralidade das existências, as dores da vida passam a ser compreendidas dentro de um contexto maior, subordinadas às sábias leis de justiça e misericórdia estabelecidas por Deus.

Contudo, se o sofrimento faz parte da experiência humana, nem toda dor é igual. Há o mal sofrer e o bem sofrer. Kardec dedica um capítulo inteiro a essa distinção em “O Evangelho segundo o Espiritismo”, no item 18 do capítulo V, sob o título "O mal e o bem sofrer". Ali, os Espíritos esclarecem: “Quando o Cristo disse: ‘Bem-aventurados os aflitos, porque serão consolados’, não se referia de modo absoluto aos que sofrem, visto que todos os que estão na Terra sofrem, quer ocupem um trono, quer jazam sobre a palha; mas, ai de mim! poucos sofrem bem”. Essa afirmação merece profunda reflexão. O sofrimento, por si só, não é fator de elevação espiritual. A dor não santifica automaticamente ninguém. O que realmente importa é a maneira como reagimos diante das provas e dificuldades.

Uma questão de escolha
O mal sofrer caracteriza-se pela revolta, pela inconformação, pela rebeldia diante das circunstâncias da vida. É a atitude daquele que se fecha em si mesmo, alimenta o ressentimento, a desesperança e a amargura. Sofre, mas não aprende. Chora, mas não se transforma. Experimenta a prova, porém permanece prisioneiro do orgulho e da incompreensão. No mesmo capítulo, Kardec apresenta as características daqueles que sofrem mal: “No homem, a calma e a resignação hauridas da maneira de considerar a vida terrestre e da fé no futuro dão ao espírito uma serenidade que é a melhor preservação contra a loucura e o suicídio”. Quando falta a confiança em Deus e a compreensão da finalidade da existência, a dor tende a ser encarada como injustiça, gerando revolta e desespero.

Por outro lado, o bem sofrer não significa resignação passiva, conformismo ou ausência de lágrimas. Sofrer bem não é gostar da dor nem procurar o sofrimento. Significa vivenciar as provas com confiança, esperança e disposição para extrair delas ensinamentos valiosos. O Espírito de um anjo guardião, em mensagem inserida por Kardec em “O Evangelho segundo o Espiritismo”, ensina: “A felicidade futura é a consequência inevitável da elevação do espírito; mas nem todos podem elevar-se senão à custa de provas”. O sofrimento, então, deixa de ser visto como castigo e passa a ser compreendido como oportunidade de crescimento.

Em “O Livro dos Espíritos”, questão 258, os Espíritos explicam que muitas vezes é o próprio espírito quem escolhe, antes de reencarnar, determinadas provas que considera necessárias ao seu progresso. Isso não significa predestinação absoluta, mas demonstra que existe uma finalidade educativa nas experiências da vida. Sob esse aspecto, as dores da existência podem converter-se em verdadeiras escolas para a alma. Quantas vezes a enfermidade nos ensina a valorizar a saúde? As perdas materiais despertam em nós valores mais elevados? Quantas vezes as decepções nos conduzem ao autoconhecimento ou a solidão nos aproxima de Deus?

A resignação de Jesus nos ensina
Não são raros os testemunhos de pessoas que, após atravessarem grandes tribulações, reconhecem ter encontrado nelas oportunidades de amadurecimento que dificilmente teriam adquirido em períodos de tranquilidade. Emmanuel, na obra “Pão Nosso”, observa: “Toda dificuldade é um recurso divino de educação”. Não porque Deus deseje o sofrimento dos seus filhos, mas porque Sua infinita sabedoria transforma até mesmo os nossos tropeços em instrumentos de aprendizado.

Entretanto, o maior exemplo do bem sofrer continua sendo Jesus. Traído, abandonado, incompreendido e submetido às mais severas humilhações, o Mestre não permitiu que a dor se transformasse em ódio. Não revidou a violência com violência, nem a ingratidão com ressentimento. Ao contrário, do alto da cruz pronunciou uma das mais sublimes lições de amor da humanidade: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”. Naquele instante supremo, Jesus demonstrava que o sofrimento pode ser vivido sem que a alma se deixe contaminar pela revolta e pelo desespero.

Talvez seja essa a grande diferença entre o mal sofrer e o bem sofrer: enquanto um endurece o coração, o outro o aperfeiçoa, enquanto um alimenta a revolta, o outro fortalece a fé; enquanto um nos afasta de Deus, o outro nos aproxima de Sua infinita misericórdia. Em “O Evangelho segundo o Espiritismo”, encontramos uma advertência que permanece atual: “Os que sofrem e não se revoltam já deram um grande passo”. Não se trata de eliminar as lágrimas ou ignorar a dor, pois o sofrimento faz parte da condição humana. Trata-se de aprender a atravessar as tempestades da vida sem perder a esperança, a confiança e a capacidade de amar. 

Afinal, se as provas são inevitáveis na Terra, a maneira como as enfrentamos permanece sendo uma escolha. E talvez resida aí uma das mais belas lições do Espiritismo: não podemos impedir que certas dores nos visitem, mas podemos decidir se elas nos tornarão mais amargos ou mais humanos; mais revoltados ou mais compassivos; mais distantes ou mais próximos de Deus. Porque, no final das contas, não é o tamanho da cruz que revela a grandeza do espírito, mas a forma como ele aprende a carregá-la. E aqueles que aprendem a sofrer bem descobrem, pouco a pouco, que mesmo as noites mais escuras são apenas caminhos pelos quais a Providência Divina conduz Seus filhos em direção à luz.

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