Blog dos Espíritos

Pelo amor ou pela dor

15/06/2026 08:38 - por Ricardo Aguiar presidencia.ume.cachoeiradosul@fergs.org.br

A lei do progresso
Há uma expressão amplamente difundida no movimento espírita que afirma que o ser humano aprende “pelo amor ou pela dor”. Embora essa frase, em sua forma literal, não seja encontrada nas obras da Codificação, ela traduz, em linguagem simples, uma profunda realidade das leis divinas estudadas por Allan Kardec. Em essência, somos chamados ao progresso incessante e a forma como respondemos aos convites da vida determinará se avançaremos pela compreensão voluntária do bem ou pelas lições que decorrem das consequências de nossos próprios equívocos.

A Doutrina Espírita nos apresenta um Deus soberanamente justo e bom, que não castiga seus filhos, nem lhes impõe sofrimentos arbitrários. Em “O Livro dos Espíritos”, na questão 115, os Espíritos Superiores ensinam: “Deus criou todos os Espíritos simples e ignorantes; deu-lhes a cada um determinada missão, com o fim de esclarecê-los e de fazê-los chegar progressivamente à perfeição, pelo conhecimento da verdade e para aproximá-los de si”. Nessa afirmação encontramos a chave para compreender a finalidade da existência. Não fomos criados para o sofrimento, mas para a felicidade. A dor não constitui objetivo da vida, é, muitas vezes, consequência natural do afastamento das leis divinas e, em outras ocasiões, instrumento de aprimoramento e crescimento moral.

Ao estudar a lei de progresso, Kardec pergunta, na questão 776 de “O Livro dos Espíritos”: “Será contrário à lei da Natureza o progresso moral?”. E os Espíritos respondem: “O progresso moral é consequência do progresso intelectual, mas nem sempre o segue imediatamente”. Essa observação revela uma das maiores dificuldades da humanidade. O desenvolvimento da inteligência nem sempre é acompanhado pelo crescimento dos sentimentos. O homem aprende a dominar as forças da natureza, constrói civilizações, amplia os horizontes da ciência, mas continua enfrentando, em si mesmo, velhos conflitos decorrentes do orgulho, do egoísmo e da vaidade. Quando a inteligência não se deixa iluminar pelo amor, surgem as dores decorrentes das próprias escolhas.

Causas das nossas dores e aflições
Em “O Evangelho segundo o Espiritismo”, capítulo V, “Bem-aventurados os aflitos”, encontramos um dos mais belos esclarecimentos sobre a finalidade das provações: “As vicissitudes da vida têm duas fontes bem diferentes, ou, para melhor dizer, duas causas bem diversas que importa distinguir. Umas têm sua causa na vida presente; outras, fora desta vida”.

Ao analisar as causas dos sofrimentos, Kardec demonstra que muitos dos males que nos afligem resultam de nossos próprios atos. Quantas dores poderiam ser evitadas se cultivássemos a prudência, a humildade, a paciência e a fraternidade? Quantos dissabores nascem da intolerância, da ambição desmedida, do orgulho ferido ou da incapacidade de perdoar?

Em outra passagem do mesmo capítulo, encontramos uma observação de grande profundidade: “O homem é, assim, em grande número de casos, o artífice dos seus próprios infortúnios”. Essa afirmação, longe de representar uma condenação, constitui um convite à responsabilidade. Se somos, muitas vezes, os autores de nossas dificuldades, também possuímos os recursos necessários para modificar nosso destino por meio da renovação íntima.

A pedagogia divina, contudo, jamais se baseia na punição. Em “O Céu e o Inferno”, Kardec demonstra que o sofrimento é consequência natural das imperfeições e que as penas não são eternas. Todo padecimento possui finalidade educativa e cessa quando a causa que lhe deu origem desaparece. A misericórdia divina acompanha incessantemente o espírito em sua marcha ascensional. É por essa razão que a dor, embora amarga, frequentemente se converte em bênção. Quantos corações endurecidos reencontraram a sensibilidade após as lágrimas? Quantas criaturas, antes dominadas pela ilusão do mundo, despertaram para os valores eternos diante das experiências difíceis? Quantas vezes a enfermidade, a perda, a decepção ou a solidão tornaram-se oportunidades de reflexão e crescimento?

O amor, mandamento maior que Jesus ensinou
Entretanto, se a dor educa, o amor liberta. Jesus não convidou a humanidade ao sofrimento, mas ao amor. Toda a sua mensagem resume-se na vivência da fraternidade, da misericórdia e da caridade. Em “O Evangelho segundo o Espiritismo”, capítulo XV, encontramos a máxima que sintetiza a essência da Doutrina Espírita: “Fora da caridade não há salvação”. Aprender pelo amor significa antecipar-se às experiências dolorosas por meio da adesão consciente às leis divinas. Significa desenvolver espontaneamente a indulgência antes que a intolerância nos imponha amargas consequências. Significa exercitar o perdão antes que o ressentimento se transforme em sofrimento. Significa cultivar a humildade antes que o orgulho ferido nos conduza às decepções inevitáveis.

Quando o indivíduo desperta para os valores espirituais, deixa de necessitar de muitas das experiências dolorosas que antes lhe eram indispensáveis. Sob esse aspecto, a expressão “pelo amor ou pela dor” adquire um significado mais profundo. Não se trata de uma escolha imposta por Deus, mas de uma consequência natural do modo como nos relacionamos com as leis da vida. O amor representa a sintonia com essas leis; a dor surge quando insistimos em contrariá-las. A Providência Divina, contudo, jamais desiste de seus filhos.

Mesmo quando nos desviamos, a misericórdia do Pai transforma nossos tropeços em lições, nossas lágrimas em aprendizado e nossos fracassos em novos pontos de partida. Não estamos condenados ao sofrimento, nem destinados às lágrimas. Somos espíritos imortais em marcha para a perfeição. A dor pode ser uma professora severa, mas o amor é sempre o grande mestre. Quanto mais cedo compreendermos as lições do Evangelho e as incorporarmos em nossas atitudes diárias, menos necessitaremos das advertências do sofrimento. Afinal, o objetivo da vida não é sofrer para aprender, mas aprender a amar. Porque, em última análise, toda a evolução do espírito é uma longa caminhada de retorno ao amor, a lei maior da vida e o destino glorioso de todos os filhos de Deus.

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