Nomadland (2021)

O grande vencedor do Globo de Ouro de Melhor Filme de 2021, Nomadland, é uma história baseada em um livro que conta a história real de uma mulher que vive em uma van. Parece simples, mas não é! A história começa bem antes da contada no filme. Em 1859, no estado de Nevada, nos Estados unidos, um veio de minério foi descoberto. Com a novidade se espalhando, centenas de moradores do leste americano largaram suas vidas miseráveis e partiram para Nevada em busca de uma vida melhor, alguns anos após o fim da conhecida Corrida do Ouro (1848-1855).

Por conta dessa descoberta, centenas de cidades feitas de barracos improvisados foram nascendo ao longo do deserto. Com o fim da Corrida do Ouro, em 1923 uma empresa resolveu apostar na extração de pedra gesso (gipsita). A cidade Empire foi inaugurada ao redor da mina, e tudo nela pertencia aos donos da empresa, desde o posto de gasolina, empresa de correio e o aeroporto. A empresa se tornou a mina que ficou mais tempo ativa, enquanto as outras foram fechando ao longo da 2º Guerra Mundial.

Em 2008, o colapso financeiro e a pouca procura pela gipsita afetou economicamente a cidade de Empire e em 2011 eles fecharam as portas e a cidade. Os 95 moradores (que nos anos 1960 chegaram a 750 habitantes), tiveram seis meses para deixar suas casas, e em julho de 2011, o código postal da cidade foi cancela e Empire se tornou mais uma das muitas cidades fantasmas de Nevada.

O Filme
Mas porque eu contei toda aquela história antes? Porque é em Empire, que Fern, a personagem de Nomadland, vivia com seu marido antes de ter que deixar tudo para trás e ir viver em sua van.

Fern é interpretada (eu diria ‘incorporada’) pela vencedora do Oscar, Frances McDormand, que precisou fazer meses de treino pré-filme. No começo do filme, ela está com sua van estacionada na Amazon, que com o programa CamperForce, dá trabalho temporário para nômades, como são chamadas as pessoas que não tem endereço e vivem na estrada. Depois disso, ela fica o filme todo percorrendo diversos estacionamento de trailers e fazendo amizades temporárias com outros nômades, trabalhos diversos (onde a atriz trabalhou de verdade).

Nesse vai e vem, Fern acaba descobrindo o valor da família, da perda, e que o preço que se paga pela liberdade de viver nas mais belas paisagens sobre quatro rodas, é a solidão. Traumatizada pela morte do marido, ela carrega o peso de seu luto onde vai. É como se diz: não importa o lugar que você vai, aquilo que te deixa triste vai na bagagem. Não importa quantos mil quilômetros Fern percorre diariamente, ela não consegue fugir da saudade do marido, do sentimento de fracasso de ter tido um lar perfeito e de repente ser jogada na rua, pois as casas pertenciam a empresa, e sem empresa, as casas eram ilegais, deveriam ser abandonadas.

Drama e documentário
Apesar de lento e mostrar somente uma mulher conhecendo estranhos, que assim como ela fogem de alguma coisa, o filme nos mostra o lado difícil de morar na estrada. Todo jovem já disse uma vez na vida: “Como gostaria de largar tudo e sair por aí, sem destino”, pois aqui temos o lado obscuro desse sonho, inclusive o de alguns jovens mostrados no filme.

O elenco é pouco, já que a maioria das pessoas que Fern conversa, são nômades reais, e não atores. Muitos nem sabiam que ela era atriz, o que dá um ar ainda mais triste e realista ao filme. Frances ficou cinco meses dirigindo a van, batizada de Vanguarda, e decorada com pertences da própria atriz, que nas primeiras semanas dormia na van, mas depois desistiu pois estava se sentindo esgotada. Muitos nômades têm casa, família e dinheiro, mas por motivos diversos, preferem fingir que tudo é passado e que agora é só viver dirigindo. Seja para esquecer o filho que se matou, seja por estar com uma doença terminal, ou por não se dar bem com os pais, todos eles buscam na estrada, nas comunidade e parcerias, uma nova razão de viver. Festas, jantares e feiras são comuns nesses estacionamentos de trailers em diversos pontos do deserto, onde a terra é pública.

Finalizando
Nomadland em alguns momentos pode ser comparado com Na Natureza Selvagem (Into The Wild, 2007), que conta a história real de Christopher McCandless, jovem de família rica que largou tudo para morar em um ônibus abandonado no deserto do Alasca, com pouco suprimento e comida, onde acabou morrendo aos 24 anos por ingerir algumas sementes envenenadas e cujo corpo foi encontrado no ônibus, em decomposição, duas semanas após sua morte. A diferença é que em Nomadland, a solidão acontecia mesmo tendo vários colegas estacionados ao redor, o que possibilita a troca de produtos, socorro se alguém ficar doente, ou ajuda se algum deles precisar de um novo pneu.

O filme é lento, mas não ruim! Se assiste Frances caminhando por dois minutos, ou um minuto inteiro filmando apenas seu rosto, e mesmo assim você gosta do filme, pois fica conhecendo um pouco mais desse povo pouco explorado no cinema. Dois minutos de caminhada em Nomadland é diferente do que nos outros filmes. São passos pesados, de uma mulher carregando uma dor interna, mas sorrindo e ajudando aos outros. Uma verdadeira obra que vai virar clássico por mostrar de forma tão nua o quanto não damos valor ao que temos sob nosso teto, e ao teto em si. Se seu sonho ainda é abandonar sua casa e fugir, veja o filme primeiro, e garanto que vai ver sua vida de outra maneira! Espero que goste como eu gostei.

O filme está programado (se a pandemia deixar), para chegar aos cinemas em abril desse ano. Senão, provavelmente irá direto para streaming.

Se gostou e quiser bater papo sobre o filme, entre no meu grupo Cine Clube Patrick no Facebook (https://www.facebook.com/groups/477604296748930), ou na página O Mundo Anda Muito Louco (https://www.facebook.com/patrickprade666). Fique à vontade, pois farei uma postagem sobre o filme. Até semana que vem e bons filmes!

Trailer legendado: https://youtu.be/ZV6sRMxt2JU  

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