Blog dos Livros
A condição feminina
Primeiros anos do século XX. Uma vila de pescadores na ilha de Iojima, na antiga província de Satsuma, ao sul do Japão, onde as grandes tartarugas marinhas nadavam tranquilamente junto às ama – as mulheres que mergulhavam no mar para apanhar algas e mariscos. É desse cenário que Ichi Aoi, uma jovem de 15 anos, é arrancada para um bordel de alto prestígio no distrito de prazeres de Kumamoto, em Kyushu. Vendida pelos próprios pais -prática comum entre famílias que não viam outra saída para escapar da pobreza extrema-, ela é lançada em um mundo cujas regras desconhece.
E assim esta ficção histórica de Kiyoko Murata, autora vencedora do Prêmio Akutagawa, nos leva para dentro da casa de prazeres Shinonome, onde Ichi passa a ser iniciada para sua vida como cortesã, aprendendo pouco a pouco como funcionam as dinâmicas de poder de um universo regido por sexo e dinheiro.
Por meio de uma escrita sensível e tocante, Murata desfia as múltiplas camadas da condição feminina em uma sociedade que naturalizava a exploração sexual de meninas adolescentes. Esta não é, no entanto, uma narrativa que descamba para o melodrama; pelo contrário, o leitor torna-se encantado pela inocência e pela força de Ichi, seus percalços e sua rebeldia, e pelas sagazes e complexas personagens femininas que a cercam.
Kiyoko Murata não faz deste romance um manifesto. Mas também está longe de abandonar a crítica social. É no emaranhado de opressão e sobrevivência que surge a figura de Tetsuko, a professora da Escola das Mulheres de Ofício, que tenta, a seu modo, com sua determinação silenciosa, desafiar a estrutura machista do distrito dos prazeres, ensinando às prostitutas que a instrução é a única chave para manter, mesmo dentro daquele cosmo, um fio de autonomia. E são essas lições -e a união que nasce entre as trabalhadoras- que levarão as mulheres do bordel a um ato de ousadia e resistência.
Há obras que encontram beleza justamente onde a vida parecer mais cruel. O livro “Mulher de prazer” é, acima de tudo, uma celebração sobre a capacidade humana de preservar a dignidade, criar vínculos e transformar a dor em força.
Nascida em 1945 em Yahata, província de Fukuoka, Kiyoko Murata já foi agraciada com diversos prêmios ao longo de sua carreira. “Mulher de prazer” conquistou o Prêmio Yomiuri. Em reconhecimento à sua contribuição para a literatura, Murata foi condecorada com a Medalha da Fita Púrpura e com a Ordem do Sol Nascente. Em 2017, foi eleita membro da Academia de Artes do Japão.
Trecho:
“Se as garotas que foram vendidas tivessem permanecido no interior, provavelmente passariam o resto de suas vidas sem escrever. Sem se preocupar em encontrar palavras que descrevessem as flores que observavam. Flores seriam flores. Pássaros, apenas pássaros. Árvores, apenas árvores. Uma existência a qual não seria necessário acrescentar mais palavras. Um mundo de certa forma sem erros, mas também sem sutilezas, sabor e profundidade.”
(Página 156)
Até 30 de novembro estão abertas inscrições para o 1º. Bula Prêmio de Microconto, nova categoria dos Bula Prêmios Literários, iniciativa da Revista Bula. O concurso vai distribuir R$ 40 mil entre 15 textos vencedores. O tema é livre e os microcontos devem ter entre 300 e 3 mil caracteres.
TORTO ARADO EM QUADRINHOS
O livro “Torto arado,” de Itamar Vieira Júnior, um dos maiores sucessos editoriais brasileiros dos últimos anos, ganhará uma adaptação em quadrinhos pela Editora Todavia, com lançamento previsto para novembro. Publicado originalmente em 2019, o romance já vendeu mais de um milhão de exemplares e foi o vencedor dos prêmios Jabuti e Oceanos.
Leituras:
“Dos diversos instrumentos do homem, o mais assombroso é, sem dúvida, o livro. Os outros são extensões do seu corpo. O microscópio e o telescópio são extensões de sua vista; o telefone é extensão da voz; ainda temos o arado e a espada, extensões do braço. Mas o livro é outra coisa: o livro é uma extensão da memória e da imaginação.”
-Jorge Luis Borges (24 de agosto de 1899/14 de junho de 1986), escritor, poeta, tradutor, crítico literário e ensaísta argentino, considerado um dos maiores escritores do século XX.
Destaques:
UM FRACASSO ASSIM TÃO BRANDO

Autor: Bruno Nogueira
Coletânea de contos deste autor, alguns curtos, outros mais extensos, em que apresenta histórias que estão no limite entre o real e o ficcional. Bruno Nogueira nasceu em Lagoa da Prata (MG), em 1988, e cresceu em Uberaba. É escritor, tradutor e doutorando em estudos literários pela UFPR. É autor também da coletânea de contos “A síndrome do impostor” e do romance “Grito distante.”
Editora Orlando. 140 páginas.
O NOME DISSO É VIDA

Autora: Leila Ferreira
Para escrever este livro, a autora percorreu nove países e conversou com 22 pessoas de diferentes áreas, trajetórias e perspectivas sobre desafios e possibilidades de viver nos tempos atuais. A autora compartilha histórias e reflexões que nasceram dessas conversas e que atravessam temas cada vez mais presentes no cotidiano: felicidade, depressão, ansiedade, redes sociais, excesso de estímulos, fé, finitude e, sobretudo, a importância das relações humanas. Formada em Letras e Jornalismo, com mestrado em Comunicação pela Universidade de Londres, Leila Ferreira foi repórter da Rede Globo, colaboradora de vários jornais e revistas e apresentou o programa Leila Entrevista, por onde passaram mais de 1.600 entrevistados. É autora de seis livros.
Instituto Unimed BH. 156 páginas.
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(As obras mencionadas no Blog dos Livros podem ser encontradas na Revistaria e Livraria Nascente, localizada na Rua Saldanha Marinho, 1423, Cachoeira do Sul)
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