Blog dos Livros

O luto gestacional

28/08/2026 08:55 - por Mildo Fenner mildofenner@hotmail.com

Um menino tenta compreender a morte da irmã

A  perda de um bebê durante a  gestação ainda é cercada por silêncio e dificuldade de acolhimento. Embora o Brasil tenha dado um passo importante  com a sanção da lei 15.139/2025, que instituiu a Política Nacional de Humanização  do Luto Materno e Parental, famílias que enfrentam perdas gestacionais, óbitos fetais e neonatais ainda relatam a  falta de referências  para falar sobre o tema,  especialmente com as crianças.

É justamente nesse contexto  que “Ela passou rapidinho  para deixar um beijinho” (Editora Quelônio), da jornalista e escritora Jules de Faria,  propõe uma conversa sensível sobre perda, memória e continuidade da vida a partir do olhar de um menino que tenta  compreender a morte da irmã antes mesmo de conhecê-la.

O livro nasceu de uma necessidade: oferecer uma linguagem acessível  para abordar uma experiência que ainda costuma ser  vivida em silêncio. Em  vez de narrar o sofrimento dos pais, Jules de Faria escolhe acompanhar  um menino de cinco anos que aguardava ansiosamente pela chegada da irmã. 

Quando descobre que ela morreu ainda na gestação, ele tenta compreender porque todos  estão tristes,  por que cada pessoa sente a perda de um jeito e como é possível continuar  vivendo sem esquecer quem partiu. A narrativa se desenvolve por meio do diálogo entre pais e filho, sem respostas prontas, mas abrindo espaço para que sentimentos como tristeza, saudade e confusão possam ser compartilhados.

Ao longo da narrativa, o menino aprende que existem os chamados “bebês  breves,”  expressão usada para se referir  aos bebês que morreram durante a gestação ou logo após o nascimento. A obra mostra que falar sobre eles, preservar suas lembranças e reconhecer seu lugar  na história da família  pode ser uma forma  de atravessar o luto sem apagar a existência de quem passou “rapidinho.” Em uma das passagens, a criança descobre que as famílias também podem criar memórias bonitas depois da despedida,  encontrando no afeto uma maneira de manter viva essa presença.

Embora seja uma obra voltada ao público infantil, o livro também dialoga com mães,  pais, familiares, educadores e profissionais da saúde que convivem  com o desafio de acolher uma perda gestacional. Para Jules, o silêncio em torno desse tipo de luto  não afeta apenas quem perdeu o bebê, mas também quem deseja oferecer  apoio e não sabe como agir. 

A motivação da autora para escrever veio da dificuldade de encontrar outras histórias sobre perda gestacional quando viveu a morte da filha Lila. Depois da morte da filha, Jules  deixou a rotina intensa  que mantinha em São Paulo, reorganizou  sua vida e  passou a construir  um cotidiano mais próximo da família e  da natureza.  

Sem oferecer respostas definitivas sobre a morte, “Ela passou rapidinho para deixar um beijinho” propõe  uma reflexão sobre o direito de viver o luto sem invisibilizar  quem partiu. Ao transformar uma experiência íntima em literatura, Jules de Faria amplia uma conversa ainda pouco presente na sociedade e convida leitores  de diferentes idades a compreender que a memória, o afeto e a possibilidade de nomear os “bebês breves” também  fazem parte da continuidade da vida.

Jornalista, escritora e consultora criativa, Jules  fundou a ONG Think Olga, onde liderou por sete anos e criou campanhas como “Chega de Fiu Fiu”  e “Primeiro Assédio.” Em 2015, foi reconhecida pela “Clinton Foundation” e pela “Cosmopolitan”  como uma das oito mulheres mais inspiradoras do mundo. É autora também de “Talvez não seja o meu ano,” “Meu corpo não é seu,” “Independência ou  morte!”  e “Meu avô japonês.”

Trecho:

“Quando eu perdi a Lila, esbarrei num silêncio enorme.  Não tinha nenhuma referência  próxima de alguém que tivesse passado por uma perda gestacional. Muita mulher é orientada  a não contar a gravidez antes dos três meses, e quando a perda acontece, atravessa sozinha. Além da tristeza, vem culpa, vergonha, isolamento. Escrevi o livro que eu queria ter encontrado na época.”

(Trecho de apresentação da autora)

INSCRIÇÕES À FEIRA DE POA

A 72ª. Feira do Livro de Porto Alegre, que ocorrerá de 30 de outubro a 15 de novembro, vai abrir no mês de setembro as inscrições para as sessões de autógrafos de autores independentes,  que neste ano terão  regras específicas para obras que se utilizarem de Inteligência Artificial (IA). Para participar e disponibilizar  livros para venda,  será cobrada taxa de R$ 150,00 por título,  para cobertura dos custos de organização. 

CONCURSO DA ARL     

Até  dia 30 deste mês estão abertas as inscrições  para a décima edição do concurso literário da Academia Rio-Grandense de Letras (ARL), com nove categorias contempladas. O objetivo do concurso é destacar autores gaúchos que tenham obra consistente  e de qualidade no cenário nacional bem como promover a crítica literária sobre a literatura gaúcha. Os vencedores receberão troféus. 

Leituras:

“Todo dia é uma ocasião especial. Guarde apenas o que tem que ser guardado:  lembranças, sorrisos, poemas, cheiros, saudades, momentos.”

-Martha Medeiros (20 de agosto de 1961),  escritora, cronista e poetisa gaúcha, com mais de um milhão de exemplares vendidos.  

Destaques:

DERRISÃO


Autor: Celso Tádhei

Na trama, uma onda gigantesca de gelo se ergue sobre a praia de Copacabana e fica paralisada, e cientistas descobrem que o riso humano é o ponto de fragilidade da estrutura,  o que leva o  governo a monitorar, restringir e, por fim, proibir a  gargalhada. Mais do que uma distopia, o romance é uma reflexão sobre o que se perde quando o humor é silenciado. O autor é roteirista, escritor e professor.  Trabalhou por 23 anos na TV Globo e  foi chefe de roteiro de diversos programas. É autor de  “A Casa da Ópera de Manoel Luiz,” seu primeiro romance,  finalista do Prêmio Jabuti 2025. 

 Editora Mondru. 159 páginas.

AÇOUGUEIRA


Autora:
Marina Monteiro

Publicado em 2024 e finalista dos prêmios Açorianos e Minuano de Literatura 2025, o livro venceu os prêmios Cruz e Souza (2º. lugar), Loba e Academia Rio-Grandense de Letras (Troféu Alcides Maya).  A obra mergulha na complexidade da violência doméstica e na condenação prévia  da mulher em uma sociedade marcada pelo machismo. O enredo acompanha  o depoimento de uma mulher que,  suspeita pelo assassinato do marido em uma cidadezinha interiorana,  narra sua trajetória perante uma autoridade -enquanto vizinhos e conhecidos tecem falas atravessadas  por preconceito e fococa. Natural de Porto Alegre (RS), Marina Monteiro atua como atriz, arte-educadora, produtora, escritora e  gestora cultural. Tem vários livros publicados. 

Editora Claraboia.  148 páginas.

(As obras mencionadas  no Blog dos Livros podem ser encontradas na Revistaria e Livraria Nascente, localizada na Rua Saldanha Marinho, 1423, Cachoeira do Sul) 

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