Blog dos Livros
Seguir em frente
Hospital espiritual, agência de empregos para almas, terapia e filas fazem parte do universo imaginado por Daniela Yuri Uchino em seu novo livro “É vida que segue! Memórias póstumas de gente como a gente.” Paulistana, doutora em Letras pela USP, a autora mistura humor, crítica social e filosofia para acompanhar personagens comuns que, após a morte, descobrem que o maior desafio não é morrer, mas aprender a seguir em frente.
A história começa quando um protagonista anônimo, à espera do ônibus após um longo dia de trabalho, é surpreendido pelo reencontro com a tia Valdívia, falecida anos antes. A cena dá início a uma jornada ambientada em um hospital espiritual, onde os recém-chegados precisam se adaptar a uma nova realidade marcada por regras, filas e até uma agência de empregos para almas. Aos poucos, o protagonista percebe que a morte não representa o fim de tudo, mas o começo de algo que ainda precisa compreender, percepção que atravessa toda a narrativa.
Nos contos “Já estávamos mortos e não sabíamos?,” “Só acordei aqui” e “Terapia do Além,” o livro apresenta personagens que caracterizam diferentes facetas da condição humana. Aurélia, uma mãe de família sobrecarregada que morre de ataque cardíaco; Erick, um advogado que carrega o peso de ser “pai dos próprios pais;” Mark Purple, um cabeleireiro vaidoso que descobre um filho que nunca conheceu; e Anara, uma psicóloga que, no Além, realiza o sonho de publicar um livro de autoajuda. Cada história aborda questões universais como arrependimento, culpa, solidão e a busca por propósito.
Há uma estrutura de contos interligados no livro. Os personagens se cruzam em diferentes momentos, criando uma narrativa dinâmica que permite ao leitor mergulhar em cada história de forma independente.
Ao longo dos textos, Daniela expõe as máscaras sociais e a dificuldade de ser autêntico ainda em vida. Depois de explorar o comportamento humano com humor em “Somos todos malas” e “O Natal dos malas,” seus livros anteriores, a autora amplia seu olhar para questões existenciais sem abrir mão da ironia e da leveza que caracterizam sua escrita.
A obra também dialoga com questões contemporâneas, como inteligência artificial, redes sociais e ansiedade. Em um dos contos, uma IA convida os mortos a revisitar o passado, despertando reflexões sobre a importância de aceitar as escolhas feitas em vida. Uma das personagens conclui que não se trata de mudar o passado, mas de revê-lo e aceitá-lo, lição que ressoa tanto entre os mortos quanto entre os vivos. Elementos como a Rádio Reencontro e a revista de mesmo nome estabelecem uma ponte entre o Além e a Terra, reforçando a ideia de que vida e morte permanecem em constante movimento.
O livro, enfim, convida o leitor a refletir sobre suas escolhas, sobre aquilo que fica para trás e sobre a possibilidade de recomeçar, mesmo depois do fim. A carta final da personagem Anara sintetiza esta proposta ao afirmar que a vida na Terra é uma passagem e que cada pessoa tem seu próprio tempo para seguir ao lado de outras, até que os caminhos se separem.
Trecho:
“O livro nasceu do desejo de ampliar o universo de gente como a gente construído nas obras anteriores. Escrevo para que os leitores, além do prazer da leitura, encontrem sentidos e significados nas histórias.”
(Trecho de apresentação da autora)
ATIVISTA FEMININA
Morreu no último dia dois a escritora, jornalista e ativista feminista americana Gloria Steinem, aos 92 anos. Considerada uma das figuras mais influentes do feminismo a partir da segunda metade do século XX, Gloria continuou escrevendo e lutando pela igualdade de gênero até os últimos anos de vida. Ela morreu pouco antes da publicação de “An unexpected life,” ainda sem tradução para o português, seu novo livro de memórias em que conta histórias de mulheres em sua trajetória de vida.
ENTRE OS MAIS VENDIDOS
Despontando entre os mais vendidos no país, segundo levantamento da revista PublishNews, o novo livro da escritora Carla Madeira, “Quando,” lançado pela Editora Record. No romance, Carla conta a história de uma relação entre mãe e filho abalada por um crime dele, denunciado por ela. A escritora já esteve no topo dos mais vendidos com “Tudo é rio” e já vendeu mais de 1,4 milhões de exemplares somando-se com os dois outros livros seus“Véspera” e “A natureza da mordida.”
Leituras:
“Não escolhi a literatura infantil; foi ela quem me escolheu."
-Ruth Rocha (2 de março de 1931), escritora brasileira de literatura infantil, com mais de 200 livros publicados, vendas que chegam a 40 milhões de exemplares e traduções para 25 idiomas, sendo “Marcelo, Marmelo, Martelo” sua obra mais famosa.
Destaques:
FIHOS DAS DORES

Autora: Keila Prado Costa
Primeiro romance desta autora, inspirado na sua avó, Maria das Dores, e em décadas de memórias que a família manteve vivas na oralidade. Editora e escritora, formada em Letras pela Universidade de São Paulo, Keila atua há mais de vinte anos no mercado editorial e é sócia diretora da Editora-boutique KPMO. É filha de uma família de trabalhadores rurais e operários de Guarulhos e foi a primeira mulher da família a entrar numa universidade pública.
E-book pela Amazon KDP. 223 páginas.
A BALA DOS DESARMADOS

Autor: Francisco de Morais Mendes
Este livro deu ao autor o Prêmio Academia Mineira de Letras 2026, recebendo uma premiação de R$ 40 mil. O livro toma como cenário o tempo presente, marcado pela abundância de informação e, paradoxalmente, pela dificuldade de distinguir o verdadeiro do falso. Nesse universo instável, em que nem a tecnologia nem o acesso garantem uma comunicação segura, a linguagem pode levar ao silêncio absoluto, inclusive aquele provocado por um disparo. Nascido em Belo Horizonte, Francisco é jornalista e tem diversos livros publicados. Venceu oito prêmios literários.
Editora Sinete. 230 páginas.
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(As obras mencionadas no Blog dos Livros podem ser encontradas na Revistaria e Livraria Nascente, localizada na Rua Saldanha Marinho, 1423, Cachoeira do Sul)
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