Blog dos Livros

Testemunho corajoso

10/07/2026 09:03 - por Mildo Fenner mildofenner@hotmail.com

O livro “Ainda há tempo” (Editora Civilização Brasileira, 364 páginas), de Nísia Trindade de Lima, traz um testemunho corajoso sobre a articulação entre ciência e  gestão pública,  revelando como a Fiocruz enfrentou ataques, negacionismos e  desafios históricos.  Primeira mulher a ocupar  o Ministério da Saúde e a presidência da Fiocruz, Nísia narra os bastidores da pandemia do Covid-19 como quem esteve no centro das decisões científicas e políticas do país e  apresenta uma  nova visão de futuro para a saúde brasileira.

Nísia era presidente da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), a maior instituição de ciência e tecnologia da América Latina,  quando o cataclismo da saúde pública eclodiu, chegando posteriormente à posição de ministra da Saúde  entre 2023 e  2025.  Pela primeira vez,  Nísia fala de forma aberta sobre as angústias  e as lutas que abalaram  a sua vida e  a  de milhões de brasileiros ao longo de três anos -que pareceram décadas. Ela relata que enfrentou  uma postura  anticientífica e o desprezo à vida em meio a uma atmosfera  de negacionismo  fomentada pelo então presidente da República.

Nísia apresenta suas versões como socióloga, sanitarista, gestora, mulher e cidadã politicamente engajada a fim de dividir com leitores a multiplicidade de histórias e  perspectivas de um Brasil em transformação. Sabendo que novas crises socioambientais no futuro serão inevitáveis, a obra não se limita a expor os absurdos a  serem combatidos, mas também propõe uma postura assertiva e esperançosa  para enfrentar os desafios.  Além de uma recapitulação da história recente, “Ainda há tempo”  é uma chamada  ao diálogo  e à reflexão. 

Pesquisadora emérita da Fiocruz  e membro titular da Academia Brasileira de Ciências, Nísia Trindade é graduada em Ciências Sociais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, mestre em Ciência Política e doutora em Sociologia pelo Instituto  Universitário  de Pesquisas do Rio de Janeiro.

A obra conta com texto de orelha  escrito por Drauzio Varella e Margareth Dalcolmo e prefácio assinado por André  Botelho, professor de Sociologia  da UFRJ.

Trecho:

“Ainda que tenhamos expressivo  conjunto de trabalhos  dedicados ao tema, reconstituir  de forma ampla a história  da pandemia de covid-19 no Brasil  é uma tarefa ainda a  ser empreendida. Minha pretensão foi bem mais modesta: trazer a público meu testemunho como alguém que, de uma posição institucional, procurou contribuir tanto quanto pôde com medidas não farmacológicas, vacinas, testes e medicamentos, e  que, pela formação em pesquisas nas ciências sociais, desejava alargar o entendimento sobre a emergência  pandêmica.”

(Trecho de apresentação da autora)

LÍDIA JORGW VENCE CAMÕES 

A escritora portuguesa Lídia Jorge foi a vencedora da edição de 2026 do Prêmio Camões de Literatura, a mais importante premiação da língua lusófona. O resultado foi divulgado na última semana e  a autora receberá  premiação de  100 mil euros mais um diploma assinado pelos presidentes do Brasil e de Portugal. Segundo a organização, Lídia Jorge é uma das escritoras mais proeminentes  da literatura portuguesa contemporânea,  com uma obra pautada pela reflexão social e pela defesa dos direitos humanos e  das mulheres.

CONCURSO COM IA

A polêmica de textos criados por inteligência artificial  chegou aos concursos  literários. Com o conto “The Serpent in the Grove,” o escritor Jamir Nazir, nascido em Trinidad e Tobago,  venceu o prêmio geral da Fundação Commonwealth, apesar de ter sido acusado nas redes sociais de ser gerado por inteligência artificial. Críticos argumentaram que certas estruturas e frases metafóricas eram indícios de automação, o que faria o texto artificial. Depois de muita discussão, a fundação inglesa  manteve a premiação, defendendo a soberania do julgamento humano entre os trabalhos inscritos.

Leituras:

“Uma das  vantagens da literatura é a liberdade.   Você pode escrever sobre o que quiser. Se vai ser publicado ou   não, vendido    ou  não, é outra questão.”

-Nilza Rezende, escritora, professora e pesquisadora brasileira, conhecida por apresentar narrativas que exploram as complexidades das relações amorosas, angústias femininas e dinâmicas familiares.

Destaques:

BEIJADA PELA MARÉ


Autora: Thainá Fernandez

O livro combina ambientação no litoral fluminense, elementos fantásticos  e   uma reflexão  sobre capacitismo e  exclusão  no meio acadêmico.  Além de uma história de amor com a  protagonista Nina, 21 anos,  que cursa Biologia Marinha,  o livro traz  uma crítica  ao ambiente acadêmico e lógica meritrocrática que frequentemente ignora  as necessidades de estudantes com deficiência. Ambientado entre laboratórios universitários  e as paisagens de Paraty,  o romance utiliza o mar como elemento central da narrativa, funcionando simultaneamente como espaço de ameaça, transformação e  acolhimento. 

Produção da Secretaria de Estado de Cultura do Rio de Janeiro. 224  páginas.

TODO O RESTO É POESIA


Autor: Israel Pinheiro

Apresenta  poemas que misturam humor, crítica social  e  a  descoberta da Argentina. O livro transforma a  experiência amorosa em travessia geográfica, linguística e  existencial. Dividida em Ida e Volta,  a obra acompanha um vínculo entre Brasil e Argentina que se constrói  entre encontros, distâncias e retornos. Há lirismo no cotidiano, nas pequenas cenas, nos gestos e nos desencontros. Nascido em 1984, em Pernambuco, onde vive, Israel Pinheiro é formado em Letras e  foi premiado em diversos concursos literários, tendo já vários livros publicados. 

Editora Litteralux. 112  páginas.     

(As obras mencionadas  no Blog dos Livros podem ser encontradas na Revistaria e Livraria Nascente, localizada na Rua Saldanha Marinho, 1423, Cachoeira do Sul) 

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