Blog do Cinema
Sexo e Destino: sob todos os espíritos
O cinema brasileiro consolidou, ao longo das últimas duas décadas, um nicho de mercado altamente rentável e de forte apelo popular baseado em adaptações de livros espíritas psicografados e biografias de grandes médiuns. Títulos emblemáticos como “Chico Xavier” (2010) e as superproduções “Nosso Lar” (2010) e a sua recente continuação, “Nosso Lar 2: Os Mensageiros” (2024), demonstraram a força desse segmento.
Essa engrenagem comercial, que também inclui produções como “Bezerra de Menezes” (2008) e “Kardec” (2019), frequentemente atrai multidões às salas de exibição e rivaliza com as grandes comédias nacionais. Essa tendência deve alcançar um novo patamar de apelo comercial com a prometida versão cinematográfica de “A Viagem”, telenovela de enorme sucesso que marcou a teledramaturgia do país. É dentro desse panorama de consolidação mercadológica que se insere a estreia de “Sexo e Destino”, dirigido por Márcio Trigo (de “Nada É Por Acaso”).
O longa-metragem é baseado na obra homônima de 1963, psicografada por Chico Xavier e Waldo Vieira e atribuída ao espírito André Luiz, considerada um clássico da literatura espírita. Sob a luz da doutrina kardecista, a produção explora temas complexos como o perdão, o desejo, o livre-arbítrio e a sobrevivência da alma após a morte corpórea. Na essência, a narrativa busca pregar uma mensagem humanista sobre arrependimento e evolução espiritual.

A trama acompanha os dramas entrelaçados das famílias Nogueira e Torres. No centro dos conflitos está Marina Nogueira (Letícia Augustin), que mantém um envolvimento amoroso simultâneo com o seu patrão, Nemésio Torres (Tato Gabus Mendes), e com o filho dele, Gilberto (Bruno Gissoni), enquanto ambos aguardam o desencarne de Beatriz Torres (Totia Meireles).
O emaranhado ético se adensa porque Gilberto também se relaciona sexualmente com Marita (Carol Macedo), irmã adotiva de Marina e apaixonada por ele. Marita foi acolhida pelos Nogueira após a morte precoce da mãe, que cuidava da casa com esmero. O ambiente familiar desmorona quando o patriarca Cláudio Nogueira (Antonio Fragoso) se entrega à bebida e à influência de espíritos malignos, destruindo o casamento com Márcia (Raquel Rizzo) e passando a assediar Marita desordenadamente, muito embora afirme amá-la.
Apesar do material literário vasto e da complexidade intrínseca das relações propostas, o roteiro se mostra pouco desenvolvido. O texto apela para uma série de clichês e para muitas explicações pouco fundamentadas na tentativa de justificar, com o mínimo de verossimilhança, as transformações de caráter de alguns personagens.

Em “Sexo e Destino”, essas mudanças profundas acontecem de forma abrupta demais. Figuras apresentadas inicialmente como detestáveis tornam-se pessoas melhores quase da noite para o dia, sem que o roteiro construa adequadamente o processo psicológico e dramático dessa redenção.
Ao abrir mão de explorar emoções genuínas por meio da encenação, o filme pesa a mão com explicações por demais literais. Os conceitos espirituais são reforçados repetidamente por meio dos diálogos, o que engessa o ritmo e prejudica qualquer construção dramática mais significativa. A fidelidade à mensagem doutrinária acaba por sobrepujar a fluidez natural do cinema, transformando o que deveria ser um drama multifacetado em uma narrativa excessivamente didática.
Receba notícias do Jornal do Povo no seu WhatsApp. É grátis
Encontrou algum erro? Informe aqui
