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O Diabo Veste Prada 2: crepúsculo de uma Era

07/05/2026 08:39 - por Jorge Ghiorzi jghiorzi@gmail.com

Vinte anos se passaram desde que o público foi apresentado aos bastidores tirânicos da revista Runway. O mundo da moda e o mercado editorial das revistas impressas já não guardam semelhança com a era pré-internet. Este cenário representa o maior desafio desta continuação tardia de um sucesso dos primeiros anos do século 21 que estava firmemente ancorado em uma realidade analógica regida por valores ainda não contaminados pelas regras implacáveis dos algoritmos.

A trama de “O Diabo Veste Prada 2” (The Devil Wears Prada 2) reencontra Miranda Priestly (Meryl Streep) em um momento de vulnerabilidade profissional. A lendária editora encara o declínio das publicações físicas e a iminente obsolescência de sua carreira frente a um conglomerado de luxo que prioriza métricas digitais em vez do faro editorial. O conflito central se estabelece quando Miranda é forçada a reencontrar Andy Sachs (Anne Hathaway) que agora é uma executiva influente em um grupo de mídia de prestígio. Diferente da relação de submissão do passado, o filme coloca as duas em um novo patamar de disputa, pois Miranda depende crucialmente do poder de decisão que Andy detém atualmente. 

O longa estabelece uma ponte necessária com personagens e situações que ficaram em suspensão profunda por duas décadas, funcionando como um tributo ao legado do longa original de 2006. Para o mundo em geral, as revistas quase não importam mais. Os editores autoritários que ditavam o que deveríamos vestir perderam espaço para influencers e TikTokers. Hoje, esses novos produtores de conteúdo exercem mais autoridade e despertam mais idolatria do que profissionais especializados de um universo que parece ter deixado de existir.

O longa assume um tom de fantasia fashion melancólica e se revela um filme honesto sobre o contexto atual. Não existe aqui a intenção de glamourizar em excesso uma percepção estética que se desvaneceu. A urgência e o pragmatismo definitivamente assumiram o lugar da elegância e do estilo clássico. Sob esta perspectiva, esta continuação consegue ser mais realista mesmo quando flerta pontualmente com um apelo nostálgico.

O primeiro filme era um comentário maldoso e bem-humorado sobre subordinados explorados e preconceitos profundos sobre o modo de vida dos meros mortais que viviam abaixo da tirania de Miranda. Já esta sequência se mostra ao mesmo tempo mais afetuosa com a moda e mais tolerante sobre os limites do que afinal vem a ser estilo. De maneira ainda mais ampla, o filme reflete sobre o que significa viver em um mundo que parece se importar menos com a busca coletiva pelos padrões de beleza ditados pela mídia e mais com a busca pessoal pela próxima emoção verdadeira.

“O Diabo Veste Prada 2” é uma sequência feita com inteligência e respeito tanto pelo seu antecessor quanto pelos fãs. David Frankel retorna ao posto de diretor para realizar uma revisão de uma obra que em muitos aspectos pode ter envelhecido mal diante das sensibilidades afloradas para determinados temas sociais. Em um momento de comportamentos vigiados e hiperexposição midiática, o filme consegue revisar o passado sem perder a essência que o tornou um marco da cultura popular.

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