Blog da Poesia
Vitor Miranda e o ódio ao poema
Vitor Miranda é poeta e escritor paulistano com vivências pelo Paraná e Minas Gerais. Atualmente se divide entre São Paulo e Valinhos.
“Os ratos vão para o céu?” é seu sétimo título lançado, entre poemas e contos, além do romance experimental “A moça caminha alada sobre as pedras de Paraty”.
É poeta e letrista da Banda da Portaria, projeto que nasceu para musicar os poemas de seu livro “Poemas de amor deixados na portaria” e ganhou vida própria.
É parceiro em letras e canções de artistas como Alice Ruiz, Rubi, Touché, João Sobral, Luz Marina, Zeca Alencar e os porteiros João Mantovani, Binho Siqueira e Arthur Lobo.
Também faz parte, como letrista, do Margaridáridas, projeto de sua parceria com o músico paranaense Eduardo Touché.
Criou em 2019 o videocast de poesia Prosa com Poeta, no qual entrevistou diversos artistas como Alice Ruiz, Maria Vilani, Bob Baqq e Daniel Perroni Ratto, entre outros.
“ÓDIO AO POEMA” é seu oitavo livro publicado.
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Vitor Miranda volta à poesia trazendo o Poema como personagem que limpa o banheiro da Madonna e é uma criança assassinada pela polícia, no livro que Heron Coelho chamou de “Poema Sujo dessa geração”.
Poema, prosa, ensaio: Vitor reafirma seu estilo híbrido, particular, experimental — o mesmo que usou em “A moça caminha alada sobre as pedras de Paraty”, de 2019, quando, numa conversa, a poeta mestra Alice Ruiz disse ao autor: “não sei se é bom, mas é diferente de tudo que tem por aí”.
“ÓDIO AO POEMA” é um livro sobre amor, como bem disse o poeta filósofo mineiro Lucas Guimaraens no profundo ensaio que acompanha o poema quase épico. Lucas vai até o início da trajetória de Vitor, em seus movimentos e amizades, em sua evolução estilística e na sua escuta atenta para as pessoas, para elucidar mais uma ironia do autor nessa luta contra tudo que assassina a poesia da vida.
“éramos todos poemas antes do ódio”
Completamente inovador.
Na obra, o poema vira um personagem que sofre e vive as dores do mundo real, misturando poesia, prosa e crítica social.
Talvez a resposta seja amar o poema, amar a literatura.
Três poemas de Vitor Reis
A terra prometida
enterraram o prepúcio no jardim
e o que restou no orifício anal das palestinas
amanhã
quem irá recolher os corpos das crianças
não serão americanos nem europeus
nem serão suas mães
as crianças eram orfãs
ainda ontem suplicavam ao inimigo
água comida
piedade
hoje cedo abriram o mar vermelho em seus peitos juvenis
descobriram que a terra prometida não existe.
A casa de minha avó
a casa de minha avó é um presépio
sem presentes
sem reis magos
sem José
sem Maria
e sem o menino Jesus
a casa de minha avó é um precipício
onde dependurado à cruz
vejo o abismo
a casa de minha avó é um presente
sem futuro
com um passado maior
do que minha existência pode abrigar
a casa de minha avó é um presságio
e hoje já não significa nada
Cosmos virtuais
o vazio que existia antes de você chegar
não é mais o mesmo após você partir
mas continua a sensação do corpo oco
pela falta de algo que havia aqui fora
fazia tempo que não sentia frio por dentro
já não lembro mais a hora de dormir
e quando acordo o tempo não passou
apesar da pele amontoada sobre a cama
rusgas que rasgam as palavras que digito
o maldito é menos indizível que a beleza
das palavras que mal temos dito a nós dois
a gente sempre odeia quem está por perto
difícil aproximar-se da virtualidade do ser
inerte aos cosmos virtuais dos elétrons
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