Blog da Poesia

Salomão Sousa e a poesia do restolho

02/09/2026 09:04 - por Tiago Vargas tiagovargas.uab@gmail.com

Salomão Sousa nasceu em Silvânia, Goiás, em 1952.

A moenda dos dias, O susto de viver, Falo, Criação de lodo, Caderno de desapontamentos, Estoque de relâmpagos e o mais recente Selva Escura dos Cristais Perdidos são apenas algumas de suas publicações. 

Fica difícil estabelecer até que ponto a linguagem de Salomão Sousa é procurada, construída deliberadamente, ou fruto das zonas nebulosas do inconsciente. Se ela mais se impõe ou se ele a submete ao seu jugo, ao seu bel-prazer, na tentativa de dizer o indizível ou ao menos tentear as fímbrias daquilo que a linguagem não alcança. 

Ora, mas para dizer o indizível, o poeta deve encontrar uma nova maneira de dizer. 

E é justamente isso o que Salomão faz. 

Quem conhece o Salomão ensaísta há de diferenciá-lo do poeta, pois se aquele prima pelo racionalismo, o segundo investe numa linguagem menos atrelada à realidade objetiva para criar admiráveis mundos novos.

Mas não ao ponto de a linguagem se bastar a si mesma ou de ganhar vida própria, independente, abolindo os referentes externos.

A dicção poética de Salomão, longe de ser ininteligível, procura resgatar um mundo apenas intuído, pressentido pelo receptor. E, nesse diapasão, o eu lírico inclui um mundo também à parte: o dos restolhos, o dos resíduos, o dos restos que sobram e que ele os reaproveita e os recicla através de seu discurso poético.

Ou seja, tudo aquilo que sobrevive apesar das condições adversas e persiste à margem do reconhecimento – insetos, larvas, lêndeas, lodos, restos orgânicos etc. – integra um campo semântico que adere aos temas recorrentes de sua poesia: a memória, a infância, a terra natal, os questionamentos políticos e as reflexões sobre a condição humana e o seu breve frêmito de vida sobre a terra. 

Assim, o microcosmo e o macrocosmo se fundem e se articulam continuamente em sua obra.

Poesia do estranhamento. Da originalidade. Da exaltação da vida cotidiana. 

fui só errar em desterros
só ao mar me soçobrar
de rastro entre espinhos
as partes podres os sobros
hordas de amantes aos bagaços
dizimei-me nos fogos de acreditar
seriam exatas as respostas
nas tormentas inúteis as barcaças
também não retirei as grades
não limiei raios nos escuros
nem flexíveis fiz as ferragens
ossos esses remos sem braços
não deixei o centro o oco todo
não parti para apalpar as luas
e acreditar nos sonhos sem desgraças
atrelar outras mulas e muares
à caravana dos convidados
aos milagres das certas graças
desembarquei-me das incertezas?
não fui a varrida a parte irada?
mas não ser no cerne a certa traça
mas não ser a mão que traça a retirada


guardar o teu dorso a tua dor
o teu ente quente de solidão
chegará a resina da interdição
armará fuselagens a insaciedade
e terei de pedir teus braços
de valer-me da parte de ti
que às vezes soçobra e assassina
achar saídas e entradas
em mapas que não sabíamos
ainda que seja a ruptura
a secura a parte imprestável
serás a sempre-viva a minha sina
e ainda que seja a tórrida seca
continuarás sobre mim
ainda que a braça de terreno
sem os preparativos de uma mina
não haverá sempre
as freguesias de um chão
sempre beijos sempre lâmpadas
a flor da perpétua solidão
venha duvidar comigo
quando eu for o teu abismo
já não serei o que se afunda
e sem saibro se esvazia


a estrada não diz
eu não te dou valas
eu não te dou fardos
eu te levarei às portas
das definitivas leis
eu te darei os dias
que não anoitecem as albas
a estrada não diz não levo
e aí vão os loucos
os aleijões os fardos
a muchacha arde pela estrada
há sol há sonhos a insaciedade
ela vai comprar um vestido
e irá solta no vento sem anáguas
e irá sem as despedidas e as alvas
e a estrada te convida
vai com a muchacha
vai com os loucos os aleijões os fardos
riem na estrada
e os dentes são alvos
e os olhos carregam
de coragem as cargas
e já não se acaba
a estrada em que passam
a muchacha os loucos
os aleijões os fardos
o burro lerdo lerdo
pesado de estacas

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