Blog da Poesia

A poesia metafísica de Dércio Braúna

16/09/2026 08:35 - por Tiago Vargas tiagovargas.uab@gmail.com

Dércio Braúna nasceu em Limoeiro do Norte, Ceará, em 1979. Poeta e contista contemporâneo. É mestre em História Social pela Universidade Federal do Ceará. Publicou os livros de poesias “O pensador do jardim dos ossos, A selvagem Língua do Coração das Coisas, Metal sem Húmus, além de volumes de contos e teóricos abordando as relações entre a história universal e a literatura africana. Sua escrita caracteriza-se pelo uso de diferentes formas e recursos linguísticos. Aborda em sua essência temas comuns e significativamente inquietantes da existência humana, entre os quais, morte, amor, solidão, esperança... Poesia plural.  Relevante. Densa.

Que se reinventa a cada palavra, a cada sentido ou significado. Pungente.  Melancolia acometida de arte. 

Oráculo
a poesia não está na palavra
(como uma coisa em si)
mas no olho de quem vê
o que lhe carrega o nome
[in A selvagem língua do coração das coisas]

METAFÍSICA PELOS DENTES
Arrasto a dentes
esses meus dias pelo mundo.
 
É com eles,
com sua inabalável verdade,
que considero a medida de minha fé.
 
Só conheço esse deus
(e seu canto calcário);
o resto é essa lúcida alegria
de saber que tudo é inútil
e, ainda assim, seguir gritando
“esta necessidade
de humanidade
entre nós
que como lâmina
nos fere
e urra
estrondosamente.”

METAFÍSICA ENQUANTO A MORTE SE ATRASA

Os poetas estão dóceis.
Os mortos,
                   jazem, em placas, pelas esquinas,
                  dando nome aos chãos
                                       do passar de cada dia;
os vivos,
amontoados entre a poeira e as traças,
mal respiram ― ainda.

Que destino:
travar-se com a língua,
                (o que é dizer com um corpo,
                                          latente coisa)
munir-se até os dentes com farpas;
lacerar a couraça em seus gumes,
espatifar a lira,
forjar outra matéria (ainda língua) depois de tudo,
                  e findar
                  dependurado ao alto
                  no triste afazer de nomear o onde
                  os homens
                  não se vêem, não se olham,
                  não se tocam
                  senão por trinta dinheiros!

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