Blog dos Espíritos
A fé que move montanhas
A fé e a razão
A fé sempre ocupou lugar central na experiência humana, seja como impulso íntimo de esperança, seja como força transformadora capaz de sustentar o espírito nos momentos de maior provação. No Espiritismo, entretanto, a fé não se limita a uma crença passiva ou a uma aceitação cega dos acontecimentos.
Ela é apresentada como uma força viva, racional e dinâmica, capaz de mover não apenas montanhas simbólicas, mas sobretudo os obstáculos morais que ainda persistem em nosso íntimo.
Jesus, ao afirmar que a fé do tamanho de um grão de mostarda seria suficiente para mover montanhas, não se referia a um poder mágico ou sobrenatural, mas à força espiritual que nasce da confiança plena em Deus e da coerência entre pensamento, sentimento e ação. Allan Kardec, ao analisar essa passagem em “O Evangelho segundo o Espiritismo”, esclarece que “a fé verdadeira é sempre calma; ela dá a paciência que sabe esperar, porque, tendo a sua base na inteligência e na compreensão das coisas, tem a certeza de chegar” (cap. XIX).
Assim, a fé espírita não se opõe à razão, ao contrário, caminha com ela.
Kardec distingue dois tipos de fé: a fé cega, que aceita sem examinar, e a fé raciocinada, que nasce do entendimento. Esta última é a que realmente move montanhas, pois se apoia no conhecimento das leis divinas e na compreensão do propósito da vida.
Quando o espírito entende que nada ocorre fora da justiça e da misericórdia de Deus, ele passa a enfrentar as dificuldades com serenidade, transformando provas em oportunidades de crescimento.
A lei de causa e efeito
A Doutrina Espírita ensina que nada ocorre ao acaso. Em “O Livro dos Espíritos”, Kardec nos apresenta a lei de causa e efeito como fundamento da justiça divina. As provações que enfrentamos são instrumentos educativos, destinados ao nosso progresso moral.
A fé que move montanhas, portanto, não é aquela que busca eliminar todas as dificuldades da vida, mas a que nos sustenta para enfrentá-las com coragem, resignação e aprendizado.
Nesse sentido, a fé espírita é inseparável da responsabilidade pessoal. Crer não é esperar que tudo se resolva por intervenção externa, mas agir com confiança, perseverança e amor, fazendo a própria parte. Emmanuel, através da psicografia de Chico Xavier, ensina que “fé não é apenas crer, é criar o bem com as próprias mãos, confiando em Deus”.
Essa visão amplia o conceito de fé, retirando-o do campo da passividade e colocando-o como motor da ação moral.
Em “O Evangelho segundo o Espiritismo”, ainda no capítulo XIX, lemos que “a fé é humana ou divina, conforme o homem aplique as suas faculdades à satisfação das necessidades terrenas ou às suas aspirações celestes”. Essa distinção é essencial. A fé divina é aquela que se eleva acima dos interesses imediatos, enxergando a vida corporal como etapa transitória da existência imortal.
Ela fortalece o Espírito nas horas de dor, sem revolta, porque compreende que o sofrimento não é punição, mas oportunidade de crescimento.
As “montanhas” que somos chamados a mover raramente estão no mundo exterior. Elas se manifestam como o orgulho que impede o diálogo, o egoísmo que dificulta a solidariedade, o medo que paralisa e a dor que parece insuperável.A fé esclarecida permite ao espírito atravessar essas experiências sem revolta, compreendendo que cada desafio é instrumento de progresso.
Léon Denis, em “O Problema do Ser, do Destino e da Dor”, afirma que a fé consciente ilumina o sofrimento, dando-lhe sentido e finalidade, pois revela que a dor educa, fortalece e prepara o espírito para voos mais altos.
A fé que nos transforma
A fé que move montanhas também está profundamente ligada à esperança. Não uma esperança ilusória, mas aquela que se fundamenta na imortalidade da alma e na lei do progresso. Saber que a vida não se encerra no túmulo, que os reencontros são possíveis e que toda lágrima será compreendida à luz do futuro confere ao coração humano uma força extraordinária.
É essa certeza que sustenta os que sofrem, consola os que choram e encoraja os que lutam.
No campo da prece, a fé exerce papel essencial. Kardec ensina que a prece é tanto mais eficaz quanto mais sincera e confiante for. Contudo, sua eficácia maior não está em modificar a vontade divina, mas em transformar aquele que ora.
A fé, ao elevar o pensamento, harmoniza o espírito com as leis superiores, fortalecendo-o para enfrentar as circunstâncias da vida com equilíbrio e dignidade.
Por fim, a fé sincera nos convida à coerência entre crença e vivência. Não basta afirmar que se crê em Deus, na imortalidade ou na reencarnação, é necessário traduzir essa crença em atitudes diárias de compreensão, caridade e perdão.
Como ensina Tiago, “a fé sem obras é morta”. A fé viva, ao contrário, manifesta-se no esforço constante de transformação moral.
Assim, a fé viva e raciocinada é aquela que esclarece a mente, fortalece o coração e impulsiona o espírito à ação no bem. É luz que dissipa as sombras da ignorância, força que sustenta na adversidade e ponte segura entre a criatura e o Criador.
Cultivá-la é caminhar com confiança rumo ao futuro, certos de que, com Deus, nenhuma montanha é intransponível quando estamos dispostos a subir, passo a passo, com amor, paciência e perseverança.
Concluímos, portanto, que essa fé não altera as leis naturais nem rompe a ordem divina, mas transforma profundamente o ser humano que a cultiva. Ao mover as montanhas do orgulho, do egoísmo, da ignorância e do medo, a fé ilumina o caminho da evolução espiritual, conduzindo o Espírito, passo a passo, à plenitude prometida por Jesus: a paz da consciência e a comunhão com Deus
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