Blog dos Espíritos

Uma reflexão espírita sobre os excessos

16/02/2026 11:44 - por Ricardo Aguiar presidencia.ume.cachoeiradosul@fergs.org.br

Corpo, mente e espírito
Em um mundo marcado pela pressa, pelo consumismo e pela busca constante de satisfação imediata, o ser humano frequentemente se vê dividido entre o culto ao corpo, a sobrecarga mental e o esquecimento da própria dimensão espiritual. Nunca se falou tanto em saúde física e mental, e, paradoxalmente, nunca se viveu tão intensamente sob o peso dos excessos: de informação, de trabalho, de desejos, de estímulos e de ambições.

A Doutrina Espírita, codificada por Allan Kardec, nos oferece uma visão profundamente equilibrada da existência humana. Nas Obras Básicas do Espiritismo, codificado por Kardec, encontramos fundamentos seguros para compreender que o ser humano é um Espírito imortal em experiência educativa na matéria. Segundo “O Livro dos Espíritos” (questão 134), “o homem é um Espírito encarnado”. O corpo é instrumento, a mente é campo de expressão e o Espírito, a realidade essencial. Cuidar dessas três partes do ser não é luxo, nem simples recomendação moral, é um dever evolutivo. Quando uma dessas esferas é negligenciada, instala-se o desequilíbrio. O excesso, portanto, é sempre sinal de desarmonia.

Refletir sobre o cuidado integral à luz do Espiritismo é compreender que a verdadeira saúde nasce do equilíbrio entre o uso consciente do corpo, a disciplina da mente e o aprimoramento moral do Espírito. O corpo é instrumento sagrado de progresso. Em “O Livro dos Espíritos” (questão 132), os Espíritos ensinam: “Deus lhes impõe a encarnação com o fim de fazê-los chegar à perfeição”. A encarnação é, portanto, oportunidade de aprendizado. 

O corpo físico é instrumento de evolução
O corpo físico é ferramenta preciosa concedida temporariamente ao Espírito para sua evolução. Desrespeitá-lo por negligência ou abusos significa comprometer o próprio processo educativo. O Espiritismo não recomenda mortificações exageradas nem desprezo pela matéria. Ao contrário, ensina o uso equilibrado dos recursos terrenos. Na questão 711 de “O Livro dos Espíritos”, ao tratar do gozo dos bens da Terra, os Espíritos afirmam que é permitido ao homem usufruir desses bens, desde que não haja abuso. 

O excesso alimentar, os vícios, o trabalho compulsivo, a busca desmedida por prazeres ou o culto exagerado à aparência revelam desequilíbrios que cedo ou tarde repercutem no campo físico e espiritual. O Espírito Emmanuel, pela psicografia de Chico Xavier, na obra “O Consolador”, afirma: “O corpo é o templo transitório da alma” Como templo, merece respeito, cuidado e moderação, não idolatria nem abandono.

A mente é oficina de construção ou de desequilíbrio
Se o corpo é instrumento, a mente é oficina de criação constante. Em “A Gênese”, Kardec esclarece que o pensamento é atributo essencial do Espírito e atua sobre os fluidos espirituais, influenciando o ambiente e a própria saúde. Pensamentos persistentes moldam estados emocionais e podem gerar harmonia ou perturbação. A ansiedade constante, o apego exagerado, a inveja, o orgulho e a ambição desmedida são formas de excesso mental que intoxicam o ser.

Em “O Livro dos Médiuns”, Kardec demonstra que a sintonia espiritual decorre da qualidade vibratória dos pensamentos. Ideias inferiores podem atrair influências espirituais igualmente desequilibradas. Assim, a higiene mental torna-se responsabilidade diária. Cuidar da mente implica vigiar pensamentos, educar emoções e cultivar hábitos saudáveis de leitura, reflexão e oração. O equilíbrio mental é ponte segura para o equilíbrio espiritual.

Espírito, a chave da existência
A Doutrina Espírita nos ensinou que a vida não se limita à experiência material. Em “O Céu e o Inferno”, Kardec apresenta comunicações espirituais que evidenciam como o estado íntimo do Espírito após a morte reflete suas escolhas e hábitos cultivados na Terra. O descuido com a dimensão espiritual, seja pela indiferença moral, seja pelo materialismo excessivo, empobrece a jornada encarnatória. O excesso material, quando não equilibrado por valores espirituais, gera vazio e insatisfação.

O Espírito André Luiz, pela psicografia de Chico Xavier, na obra “Nosso Lar”, descreve as consequências espirituais de existências marcadas por desregramentos e abusos. As narrativas evidenciam que muitos sofrimentos decorrem de escolhas desequilibradas, sobretudo no campo dos vícios e das paixões.

Disciplina para o equilíbrio necessário
O excesso não é apenas erro moral, é sinal da imperfeição que ainda possuímos e que estamos aprendendo a vencer, usando nosso livre-arbítrio com responsabilidade. não criou o mal, criou leis sábias. O sofrimento advém do uso indevido dessas leis. O equilíbrio é virtude central no processo evolutivo. Em “O Evangelho segundo o Espiritismo”, no capítulo XVII (“Sede perfeitos”), Kardec ensina que a verdadeira perfeição está no domínio das más inclinações e na prática do bem. Dominar essas más tendências não significa reprimi-las violentamente, mas educá-las. A satisfação é legítima, o abuso é prejudicial. O trabalho é digno, o excesso gera exaustão. O apego é natural, o sentimento de posse escraviza.

Deste modo, cuidar do corpo, da mente e do espírito de forma harmônica é expressão de maturidade evolutiva, de entendimento da finalidade da existência e da realidade como Espírito imortal a caminho da perfeição. O corpo deve ser preservado como instrumento de serviço, a mente, disciplinada como oficina de criação e o espírito, elevado pelo exercício constante do amor e da caridade. O Espiritismo nos convida a viver com consciência: usar sem abusar, trabalhar sem se consumir, sentir sem se escravizar, conviver sem possuir. Nesse caminho de equilíbrio, encontramos não apenas saúde, mas paz interior e verdadeiro progresso espiritual.

Disciplina para o equilíbrio necessário.

Encontrou algum erro? Informe aqui

Faça seu login para comentar!