Blog dos Espíritos
Tempo de plantar e tempo de colher
“Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo propósito debaixo do céu”. A afirmação do Eclesiastes atravessa os séculos como um princípio universal, ficando conhecido na sabedoria popular como: “Há tempo de plantar e tempo de colher”.
Esse ensinamento que ficou popular vem ecoando através dos séculos como uma lei moral inscrita na consciência humana. No Espiritismo, essa verdade adquire profundidade ainda maior, pois se harmoniza com a lei de causa e efeito, fundamento essencial da justiça divina revelada pelos Espíritos Superiores.
Em “O Livro dos Espíritos”, Allan Kardec nos esclarece que Deus é soberanamente justo e bom, e que nada acontece ao homem sem uma causa anterior. Ao serem questionados sobre a origem dos sofrimentos humanos, os Espíritos Superiores respondem de forma inequívoca: “O sofrimento é consequência da imperfeição do Espírito” (questão 1009). Essa afirmação não carrega condenação, mas esclarecimento.
Cada pensamento cultivado, cada sentimento nutrido e cada ação praticada constitui uma semente lançada no solo da vida. Não há privilégios nem punições arbitrárias: colhemos, invariavelmente, os frutos daquilo que semeamos, seja no presente, seja no futuro, nesta ou em outras existências, respeitando o grau evolutivo, as escolhas que fizemos e o uso do livre-arbítrio.
Nada ocorre ao acaso, nada é imposto como castigo arbitrário. O tempo de plantar corresponde às oportunidades concedidas por Deus para que o Espírito construa, por si mesmo, o próprio destino.
O plantio invisível nas escolhas diárias
O tempo de plantar é o agora. É no instante presente que o Espírito encarnado dispõe da liberdade relativa para escolher os rumos de sua experiência. Emmanuel, pela psicografia de Chico Xavier, nos lembra que “a criatura está sempre construindo o próprio destino”, ainda que muitas vezes ignore a extensão de suas escolhas.
Plantamos quando perdoamos em vez de ferir, quando perseveramos no bem apesar das dificuldades, quando educamos nossos impulsos e renovamos nossos pensamentos. Mas também plantamos quando cedemos ao egoísmo, à indiferença ou ao orgulho, adiando deliberadamente o progresso moral.
Cada pensamento é uma semente lançada no solo da consciência. Quando cultivamos ideias de fraternidade, tolerância e confiança em Deus, estamos preparando colheitas de paz interior e equilíbrio emocional.
Quando, ao contrário, alimentamos ressentimentos, orgulho e egoísmo, ainda que mascarados por justificativas externas, lançamos sementes que mais cedo ou mais tarde germinarão em forma de conflitos, inquietações ou provas reparadoras.
O passado explica, mas não aprisiona, o futuro aguarda, mas não está pronto. Kardec ensina que o homem é responsável pelo seu progresso e que “Deus lhe deixou a liberdade de escolha, para que tenha o mérito do bem” (O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. V).
Assim, cada encarnação representa um campo renovado, onde antigas tendências podem ser corrigidas e novas virtudes desenvolvidas.
Importante compreender que o plantio nem sempre é consciente. Há sementes lançadas pela repetição dos hábitos, pela negligência com o próprio aprimoramento e pela recusa em aprender com as provas.
André Luiz observa que a vida espiritual não é um tribunal de condenação, mas uma escola de consequências. Assim, mesmo quando erramos, estamos plantando experiências que mais tarde se converterão em aprendizado, se soubermos acolhê-las com humildade.
A colheita pedagógica
O tempo de colher, por sua vez, chega com precisão infalível, ainda que não coincida com nossas expectativas imediatas. Muitos se inquietam ao perceber que o bem praticado parece não gerar resultados visíveis, enquanto atitudes infelizes parecem, num primeiro momento, recompensadas. O Espiritismo, entretanto, amplia nossa visão ao revelar a pluralidade das existências.
A colheita pode ultrapassar os limites de uma única encarnação, respeitando o ritmo evolutivo de cada Espírito, conforme sua necessidade educativa.
Às vezes, o fruto amadurece rapidamente, outras vezes, exige longos períodos de maturação, atravessando várias encarnações. Isso não representa esquecimento da lei, mas respeito ao tempo interior de cada ser.
André Luiz reforça esse entendimento ao afirmar: “Não existem sofrimentos inúteis, como não existem alegrias sem causa” (Nosso Lar). Em “O Evangelho segundo o Espiritismo”, encontramos o convite à confiança: “A cada um segundo as suas obras”. Essa máxima não fala apenas de justiça futura, mas de equilíbrio.
A colheita pode vir como paz de consciência, como maturidade emocional, como oportunidades de reparação ou mesmo como provas dolorosas que despertam o Espírito para valores mais elevados.
O tempo, remédio divino
Um dos aspectos mais consoladores da Doutrina Espírita é a certeza de que ninguém colhe sem poder voltar a plantar. Mesmo quando enfrentamos consequências dolorosas de escolhas passadas, jamais estamos impedidos de iniciar uma nova semeadura. Emmanuel ensina: “Embora ninguém possa voltar atrás e fazer um novo começo, qualquer um pode começar agora e fazer um novo fim”.
A misericórdia divina se expressa justamente na continuidade das oportunidades. Cada arrependimento sincero, cada esforço no bem, cada gesto de reparação modifica o campo vibratório do Espírito, atenuando débitos e preparando colheitas mais felizes.
“O Evangelho segundo o Espiritismo” nos lembra que “o verdadeiro homem de bem é aquele que pratica a lei de justiça, amor e caridade, na sua maior pureza” (cap. XVII). Plantar o bem nunca é inútil, ainda que os resultados não sejam imediatos. Toda semente de amor germina, ainda que atravesse longos invernos espirituais antes de florescer.
Tempo de plantar e tempo de colher não são fases estanques, mas movimentos contínuos da evolução espiritual. Em muitos momentos, o Espírito colhe frutos do passado enquanto planta para o futuro, aprendendo a lidar com consequências e escolhas simultaneamente. A sabedoria está em reconhecer o valor educativo de cada experiência, sem revolta nem conformismo passivo.
O Espiritismo nos convida à responsabilidade serena: compreender que somos herdeiros de nós mesmos, construtores do próprio destino, sob a supervisão amorosa de Deus. Como afirma Kardec: “Reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral e pelos esforços que faz para domar suas más inclinações” (O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XVII).
Viver é semear conscientemente, confiando que a Lei Divina jamais falha. Cada dia é campo aberto, cada escolha é semente viva, cada dificuldade é lição. E, no tempo certo, não o nosso, mas o da sabedoria infinita, a colheita chegará, revelando que Deus nunca se atrasa, nunca se engana e nunca deixa de nos amar.
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