Blog dos Livros

DE AGRESSORA À VÍTIMA

15/05/2026 09:43 - por Mildo Fenner mildofenner@hotmail.com

Portugal é hoje o segundo principal destino de brasileiros no exterior, com mais de 500 mil pessoas, segundo dados divulgados  pelo Itamaraty em 2004,  atrás apenas dos Estados Unidos.  Mesmo atravessado por tensões históricas que remontam ao período colonial, o país europeu segue como projeto de vida para milhares de famílias brasileiras.

É nesse cenário real e contemporâneo que se passa “Zuca” (Editora Urutau, 184 páginas),  novo romance da escritora e  psicanalista carioca Fernanda Hamann. O livro, que conta com texto de orelha  assinado pelo escritor  Daniel Galera,  revela o susto de uma brasileira branca e racista, de classe média, ao sofrer preconceito na Europa. Com edição brasileira  e portuguesa,  a obra recebeu o prêmio de melhor livro da Mostra Internacional de Livros da GalllerySPT,  em Madri.

Cansada da violência urbana no Rio de Janeiro, a advogada Bárbara Weissman decide se mudar para Lisboa com o marido e o filho de 5 anos. Além da busca por uma vida mais tranquila, ela também quer fugir das consequências  de um crime: Bárbara foi processada  por racismo após agredir um candidato negro aprovado  por cota em um concurso público no qual ela havia sido reprovada, chegando a passar uma noite na cadeia. Incapaz de reconhecer o próprio racismo, transforma frustração em ressentimento, elemento que influencia a  decisão de deixar o país. 

Ao chegar em Portugal, no entanto, a mesma mulher que havia sido acusada de racismo passa a  enfrentar  episódios de xenofobia. Em Lisboa, descobre que sua condição de brasileira a coloca sob o olhar desconfiado de parte da sociedade local. A narrativa  acompanha essa inversão, na qual a personagem passa da posição de agressora à de alvo  de preconceito e discriminação.

Aos 47 anos, Fernanda Hamann tem pós-doutrado em Teoria Literária  pela USP.  Nascida e criada no Rio de Janeiro, já viveu em São Paulo e em cidades europeias como Madri, na Espanha, e Cour-Cheverny, na França. Tem mais de dez livros publicados, entre romances, contos, ensaios e biografias, e é colunista  do jornal  português Público. Seu primeiro romance, “Cativos,” foi traduzido para o francês e lançado no  Salão do Livro de  Genebra, em 2026. 

Atualmente trabalha em um ensaio  inspirado na psicanálise sobre o narcisismo, partindo do conceito de Freud e ampliando-o para o nacionalismo. Segundo ela, “o nacionalismo é o narcisismo de uma nação.” 

Trecho:

“És brasileira? Respondi que sim. Ela emendou outra pergunta: Vieste à nossa terra  pra roubar  os maridos às portuguesas? E a velha nem me deu tempo de responder que não, de jeito nenhum, já sou casada,  e com um brasileiro. A doida chalada agarrou o meu passaporte e  avisou: Pois olha bem o que eu faço  ao teu documento. Ela tentou rasgar o livrinho ao meio, e só não conseguiu porque reagi a tempo. Eu me debrucei inteira sobre o balcão, com a  barriga  e com tudo, estiquei  os braços em cima da maluca e apanhei de volta o meu documento, todo amassado.”

(Página 68)

COPA DO MUNDO

Depois de anos movimentado pelos livros de colorir, o mercado editorial brasileiro está sentindo um novo fenômeno em 2026:  o álbum da copa.  Publicado pela Editora Panini, o álbum está puxando as vendas e movimentando livrarias, bancas e outros pontos de venda, já aparecendo nas listas dos mais vendidos. Outro fazendo sucesso é “Enaldinho na Copa,” coleção de mini-livros  sobre o assunto  escritos pelo influenciador.  

LULA EM LISTA   

Também está aparecendo nas listas de mais vendidos, “Lula, volume 2,” da Editora Companhia das Letras, de autoria de Fernando Morais. Na obra, o jornalista conta a história  de Lula entre as Diretas Já, no início dos anos 1980, até ele assumir  a Presidência da República, em 2003. Com informações inéditas, Morais perpassa o esgotamento da ditatura militar, as Diretas Já, o embate com Collor, culminando com a  vitória nas eleições em 2002.

Leituras:

“O biógrafo  não tem o direito de inventar, imaginar ou supor fatos. Porque a graça da biografia está em descobrir.”

-Ruy Castro (26 de  fevereiro de 1948),  premiado jornalista, biógrafo e  escritor brasileiro, ocupante da cadeira 13  da Academia Brasileira de Letras. 

Destaques:

RACISMO, CONSTANTE COMO O TEMPO


Autor:
Carlos Márcio

Violoncelista  da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, Carlos Márcio  estreia na literatura  com um livro que cruza  poesia, crônica e ensaio para desmontar  a ideia de que o tempo cura as feridas da escravidão.  Vencedor do Prêmio Resistência  2025, da Editora  Arte da Palavra, o livro percorre  mais de quatrocentos anos  de história para provar sua tese central: o racismo não é um resquício do passado, mas uma estrutura  que se renova e  se adapta, persistente e  insidiosa. Natural de Sabará (MG),  graduado em violoncelo e mestre em Performance Musical pela UIFMG, o autor transita  com naturalidade entre a música erudita e a literatura, costurando sua trajetória pessoal à memória  coletiva  da população negra. 

Editora Arte da Palavra. 102 páginas.

ASSISTIDA


Autora: Sabrina  Alvernaz

A narrativa acompanha mais de um ano de exames, uma cirurgia, punções e o intenso protocolo hormonal da fertilização in vitro. Em vez de exaltar a maternidade como ápice da realização feminina,  a obra se posiciona na contramão desta narrativa ao falar sobre o risco da incerteza da gravidez. A autora é doutora em Literatura pela UFSC,  graduada em Letras pela UERJ e mestre em Estudos da Linguagem  pela PUC-Rio.  Já publicou  “Sangue, cauim e  cerveja,” em 2015. 

Editora da Autora. 168  páginas

(As obras mencionadas  no Blog dos Livros podem ser encontradas na Revistaria e Livraria Nascente, localizada na Rua Saldanha Marinho, 1423, Cachoeira do Sul) 

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