Blog dos Livros
DE AGRESSORA À VÍTIMA
Portugal é hoje o segundo principal destino de brasileiros no exterior, com mais de 500 mil pessoas, segundo dados divulgados pelo Itamaraty em 2004, atrás apenas dos Estados Unidos. Mesmo atravessado por tensões históricas que remontam ao período colonial, o país europeu segue como projeto de vida para milhares de famílias brasileiras.
É nesse cenário real e contemporâneo que se passa “Zuca” (Editora Urutau, 184 páginas), novo romance da escritora e psicanalista carioca Fernanda Hamann. O livro, que conta com texto de orelha assinado pelo escritor Daniel Galera, revela o susto de uma brasileira branca e racista, de classe média, ao sofrer preconceito na Europa. Com edição brasileira e portuguesa, a obra recebeu o prêmio de melhor livro da Mostra Internacional de Livros da GalllerySPT, em Madri.
Cansada da violência urbana no Rio de Janeiro, a advogada Bárbara Weissman decide se mudar para Lisboa com o marido e o filho de 5 anos. Além da busca por uma vida mais tranquila, ela também quer fugir das consequências de um crime: Bárbara foi processada por racismo após agredir um candidato negro aprovado por cota em um concurso público no qual ela havia sido reprovada, chegando a passar uma noite na cadeia. Incapaz de reconhecer o próprio racismo, transforma frustração em ressentimento, elemento que influencia a decisão de deixar o país.
Ao chegar em Portugal, no entanto, a mesma mulher que havia sido acusada de racismo passa a enfrentar episódios de xenofobia. Em Lisboa, descobre que sua condição de brasileira a coloca sob o olhar desconfiado de parte da sociedade local. A narrativa acompanha essa inversão, na qual a personagem passa da posição de agressora à de alvo de preconceito e discriminação.
Aos 47 anos, Fernanda Hamann tem pós-doutrado em Teoria Literária pela USP. Nascida e criada no Rio de Janeiro, já viveu em São Paulo e em cidades europeias como Madri, na Espanha, e Cour-Cheverny, na França. Tem mais de dez livros publicados, entre romances, contos, ensaios e biografias, e é colunista do jornal português Público. Seu primeiro romance, “Cativos,” foi traduzido para o francês e lançado no Salão do Livro de Genebra, em 2026.
Atualmente trabalha em um ensaio inspirado na psicanálise sobre o narcisismo, partindo do conceito de Freud e ampliando-o para o nacionalismo. Segundo ela, “o nacionalismo é o narcisismo de uma nação.”
Trecho:
“És brasileira? Respondi que sim. Ela emendou outra pergunta: Vieste à nossa terra pra roubar os maridos às portuguesas? E a velha nem me deu tempo de responder que não, de jeito nenhum, já sou casada, e com um brasileiro. A doida chalada agarrou o meu passaporte e avisou: Pois olha bem o que eu faço ao teu documento. Ela tentou rasgar o livrinho ao meio, e só não conseguiu porque reagi a tempo. Eu me debrucei inteira sobre o balcão, com a barriga e com tudo, estiquei os braços em cima da maluca e apanhei de volta o meu documento, todo amassado.”
(Página 68)
COPA DO MUNDO
Depois de anos movimentado pelos livros de colorir, o mercado editorial brasileiro está sentindo um novo fenômeno em 2026: o álbum da copa. Publicado pela Editora Panini, o álbum está puxando as vendas e movimentando livrarias, bancas e outros pontos de venda, já aparecendo nas listas dos mais vendidos. Outro fazendo sucesso é “Enaldinho na Copa,” coleção de mini-livros sobre o assunto escritos pelo influenciador.
LULA EM LISTA
Também está aparecendo nas listas de mais vendidos, “Lula, volume 2,” da Editora Companhia das Letras, de autoria de Fernando Morais. Na obra, o jornalista conta a história de Lula entre as Diretas Já, no início dos anos 1980, até ele assumir a Presidência da República, em 2003. Com informações inéditas, Morais perpassa o esgotamento da ditatura militar, as Diretas Já, o embate com Collor, culminando com a vitória nas eleições em 2002.
Leituras:
“O biógrafo não tem o direito de inventar, imaginar ou supor fatos. Porque a graça da biografia está em descobrir.”
-Ruy Castro (26 de fevereiro de 1948), premiado jornalista, biógrafo e escritor brasileiro, ocupante da cadeira 13 da Academia Brasileira de Letras.
Destaques:
RACISMO, CONSTANTE COMO O TEMPO

Autor: Carlos Márcio
Violoncelista da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, Carlos Márcio estreia na literatura com um livro que cruza poesia, crônica e ensaio para desmontar a ideia de que o tempo cura as feridas da escravidão. Vencedor do Prêmio Resistência 2025, da Editora Arte da Palavra, o livro percorre mais de quatrocentos anos de história para provar sua tese central: o racismo não é um resquício do passado, mas uma estrutura que se renova e se adapta, persistente e insidiosa. Natural de Sabará (MG), graduado em violoncelo e mestre em Performance Musical pela UIFMG, o autor transita com naturalidade entre a música erudita e a literatura, costurando sua trajetória pessoal à memória coletiva da população negra.
Editora Arte da Palavra. 102 páginas.
ASSISTIDA

Autora: Sabrina Alvernaz
A narrativa acompanha mais de um ano de exames, uma cirurgia, punções e o intenso protocolo hormonal da fertilização in vitro. Em vez de exaltar a maternidade como ápice da realização feminina, a obra se posiciona na contramão desta narrativa ao falar sobre o risco da incerteza da gravidez. A autora é doutora em Literatura pela UFSC, graduada em Letras pela UERJ e mestre em Estudos da Linguagem pela PUC-Rio. Já publicou “Sangue, cauim e cerveja,” em 2015.
Editora da Autora. 168 páginas
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(As obras mencionadas no Blog dos Livros podem ser encontradas na Revistaria e Livraria Nascente, localizada na Rua Saldanha Marinho, 1423, Cachoeira do Sul)
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Livro reúne contos que mostram as diversas formas de violência contra as mulheres
Obra é resultado de cinco anos de escuta e pesquisa
O livro que descreve uma experiência de aborto
A narrativa acompanha a protagonista diante das diversas formas de violência impostas pela sociedade
