Blog dos Livros

Negligência em poesia

22/05/2026 08:35 - por Mildo Fenner mildofenner@hotmail.com

Em seu terceiro livro, “Maresia corrói os dentes” (Sophia Editora, 2025), a poeta e jornalista Érica Magni mergulha nas memórias de Monte Alto,  distrito de Arraial  do Cabo (RJ), para tecer  uma narrativa híbrida entre poesia e prosa.  A obra,  que nasce marcada pela urgência política e ambiental, retrata a vida em um território  corroído  não apenas pelo sal do mar, mas pela negligência do Estado e pela especulação  imobiliária. O livro conta com prefácio de Tatiana Pequeno e posfácio assinado por Bruna Mitrano.

Érica  captura vozes  muitas vezes silenciadas -pescadores, vendedores ambulantes, moradores de casas devoradas pelo tempo- e  as transforma em literatura. Segundo a autora,  o livro fala sobre corrosão e permanência, sobre  o que resiste mesmo  quando tudo tenta apagar. Na obra, a maresia é mais que um fenômeno natural: é metáfora para o desgaste social, ambiental e  afetiva de uma comunidade que insiste em existir. 

Os versos e fragmentos de Érica capturam  com precisão o ritmo  da vida à beira-mar: o vai-e-vem das marés que espelha a  chegada e partida de turistas; o silêncio ensurdecedor do inverno que contrasta com o burburinho efêmero do verão; o lento definhar das construções  frente ao avanço do mar e o descaso. 

Um dos momentos mais marcantes da obra é o relato  do incêndio que destruiu a casa da autora em Arraial do Cabo. Esse episódio, tratado com uma crueza que não exclui a beleza, serve como metáfora para todo o livro: da destruição pode nascer  uma nova forma de  ver o mundo.

Érica Magni, nascida no Rio de Janeiro em  1986, é poeta, jornalista e criadora do podcast Rádio-Carta Mulher. Autora de “Poérica” (Editora Cousa) e “Areia na Olhota” (Editora Pedregulho), já colaborou com projetos ligados a comunidades indígenas e  periféricas,  como o livro “Diário de Área”, sobre a etnia Yanomani. Vive entre a Região dos Lagos e Teresópolis.  

Trecho:

“Num exercício de olhar para fora olhando para dentro -e vice-versa-, “Maresia corrói  os dentes” vai poetizar a morte, o medo, o abandono e outros muitos temas delicados. É uma experiência  emocionante  e assustadora -embora valha o  risco- seguir  pelas linhas que  a  autora traça.”

(Bruna Mitrano, no texto de posfácio)

TORTO ARADO NO CARNAVAL

A Escola de Samba Vila Isabel anunciou na última semana que seu enredo para o carnaval de 2027 será inspirado  no livro “Torto arado,” do premiado escritor brasileiro Itamar Vieira Junior. Desde sua publicação em 2019, o livro converteu-se num marco da literatura brasileira contemporânea, sendo considerado um melhores livros  do século XXI, em lista elaborada pela Folha de São Paulo. 

AMADO EM CLUBE DE LEITURA   

A Fundação Casa de Jorge Amado acaba de lançar um clube de leitura  dedicado à obra de Jorge Amado (1912-2001), celebrando os 40 anos da instituição criada para preservar a memória e  a obra do célebre escritor.  Denominada “Amado Clube de Leitura,” a iniciativa reunirá leitores de diferentes regiões do país em encontros virtuais mensais  para discussão da obra literária do autor baiano.                    

Leituras:

“Acho    que   cada   escritor  estabelece uma relação com a realidade segundo a  sua personalidade.”

-Nélida Piñon (3 de maio de 1934/17 de dezembro de 2022), escritora brasileira, integrante da Academia Brasileira de Letras, tendo sido a primeira mulher a presidi-la, sendo uma das autoras nacionais mais conhecidas e traduzidas internacionalmente. 

Destaques:

QUASE DÁ  PARA CHAMAR DE DANÇA 


Autora: Emily Bandeira

A obra é resultado de um processo incomum: a releitura cronológica  de todos os cadernos pessoais da autora, escritos entre os 10 e  os 29 anos. Ao longo das páginas, surgem avós, amores, dentes quebrados, plantas na laje, cafés em padarias e a presença constante da lua.  Formada em Línguas Estrangeiras Aplicadas pela UnB, a autora trabalha como  tradutora  e intérprete  de inglês e espanhol. Nascida em Caruaru (PE) e morando em Brasília (DF), já escreveu os livros “Sardas,”  “Cardápio  de amar ou coisa assim”  e “Margília.”

Editora Andrômeda. 240 páginas.         

SÓ VALE A PENA SE HOUVER ENCANTO


Autor: André Giusti

A obra acompanha a trajetória de Alessandro Romani, jornalista e  escritor carioca radicado em Brasília, cuja vida atravessa uma sequência de perdas -desemprego, separação e morte-  em meio aos bastidores  da cobertura de acontecimentos recentes da política brasileira, como as manifestações de 2013 e a ascensão e queda da primeira presidente do país. Em colapso pessoal e profissional,  Alessandro se recusa a  aceitar  a vida como uma mera sucessão de obrigações e boletos a pagar. Acaba encontrando na terapia um espaço de enfrentamento  de si mesmo.

Editora Caos e  Letras. 368  páginas.       

(As obras mencionadas  no Blog dos Livros podem ser encontradas na Revistaria e Livraria Nascente, localizada na Rua Saldanha Marinho, 1423, Cachoeira do Sul) 

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