Blog dos Livros
Negligência em poesia
Em seu terceiro livro, “Maresia corrói os dentes” (Sophia Editora, 2025), a poeta e jornalista Érica Magni mergulha nas memórias de Monte Alto, distrito de Arraial do Cabo (RJ), para tecer uma narrativa híbrida entre poesia e prosa. A obra, que nasce marcada pela urgência política e ambiental, retrata a vida em um território corroído não apenas pelo sal do mar, mas pela negligência do Estado e pela especulação imobiliária. O livro conta com prefácio de Tatiana Pequeno e posfácio assinado por Bruna Mitrano.
Érica captura vozes muitas vezes silenciadas -pescadores, vendedores ambulantes, moradores de casas devoradas pelo tempo- e as transforma em literatura. Segundo a autora, o livro fala sobre corrosão e permanência, sobre o que resiste mesmo quando tudo tenta apagar. Na obra, a maresia é mais que um fenômeno natural: é metáfora para o desgaste social, ambiental e afetiva de uma comunidade que insiste em existir.
Os versos e fragmentos de Érica capturam com precisão o ritmo da vida à beira-mar: o vai-e-vem das marés que espelha a chegada e partida de turistas; o silêncio ensurdecedor do inverno que contrasta com o burburinho efêmero do verão; o lento definhar das construções frente ao avanço do mar e o descaso.
Um dos momentos mais marcantes da obra é o relato do incêndio que destruiu a casa da autora em Arraial do Cabo. Esse episódio, tratado com uma crueza que não exclui a beleza, serve como metáfora para todo o livro: da destruição pode nascer uma nova forma de ver o mundo.
Érica Magni, nascida no Rio de Janeiro em 1986, é poeta, jornalista e criadora do podcast Rádio-Carta Mulher. Autora de “Poérica” (Editora Cousa) e “Areia na Olhota” (Editora Pedregulho), já colaborou com projetos ligados a comunidades indígenas e periféricas, como o livro “Diário de Área”, sobre a etnia Yanomani. Vive entre a Região dos Lagos e Teresópolis.
Trecho:
“Num exercício de olhar para fora olhando para dentro -e vice-versa-, “Maresia corrói os dentes” vai poetizar a morte, o medo, o abandono e outros muitos temas delicados. É uma experiência emocionante e assustadora -embora valha o risco- seguir pelas linhas que a autora traça.”
(Bruna Mitrano, no texto de posfácio)
TORTO ARADO NO CARNAVAL
A Escola de Samba Vila Isabel anunciou na última semana que seu enredo para o carnaval de 2027 será inspirado no livro “Torto arado,” do premiado escritor brasileiro Itamar Vieira Junior. Desde sua publicação em 2019, o livro converteu-se num marco da literatura brasileira contemporânea, sendo considerado um melhores livros do século XXI, em lista elaborada pela Folha de São Paulo.
AMADO EM CLUBE DE LEITURA
A Fundação Casa de Jorge Amado acaba de lançar um clube de leitura dedicado à obra de Jorge Amado (1912-2001), celebrando os 40 anos da instituição criada para preservar a memória e a obra do célebre escritor. Denominada “Amado Clube de Leitura,” a iniciativa reunirá leitores de diferentes regiões do país em encontros virtuais mensais para discussão da obra literária do autor baiano.
Leituras:
“Acho que cada escritor estabelece uma relação com a realidade segundo a sua personalidade.”
-Nélida Piñon (3 de maio de 1934/17 de dezembro de 2022), escritora brasileira, integrante da Academia Brasileira de Letras, tendo sido a primeira mulher a presidi-la, sendo uma das autoras nacionais mais conhecidas e traduzidas internacionalmente.
Destaques:
QUASE DÁ PARA CHAMAR DE DANÇA

Autora: Emily Bandeira
A obra é resultado de um processo incomum: a releitura cronológica de todos os cadernos pessoais da autora, escritos entre os 10 e os 29 anos. Ao longo das páginas, surgem avós, amores, dentes quebrados, plantas na laje, cafés em padarias e a presença constante da lua. Formada em Línguas Estrangeiras Aplicadas pela UnB, a autora trabalha como tradutora e intérprete de inglês e espanhol. Nascida em Caruaru (PE) e morando em Brasília (DF), já escreveu os livros “Sardas,” “Cardápio de amar ou coisa assim” e “Margília.”
Editora Andrômeda. 240 páginas.
SÓ VALE A PENA SE HOUVER ENCANTO

Autor: André Giusti
A obra acompanha a trajetória de Alessandro Romani, jornalista e escritor carioca radicado em Brasília, cuja vida atravessa uma sequência de perdas -desemprego, separação e morte- em meio aos bastidores da cobertura de acontecimentos recentes da política brasileira, como as manifestações de 2013 e a ascensão e queda da primeira presidente do país. Em colapso pessoal e profissional, Alessandro se recusa a aceitar a vida como uma mera sucessão de obrigações e boletos a pagar. Acaba encontrando na terapia um espaço de enfrentamento de si mesmo.
Editora Caos e Letras. 368 páginas.
(69)(2).jpg)
(As obras mencionadas no Blog dos Livros podem ser encontradas na Revistaria e Livraria Nascente, localizada na Rua Saldanha Marinho, 1423, Cachoeira do Sul)
Receba notícias do Jornal do Povo no seu WhatsApp. É grátis
Encontrou algum erro? Informe aqui
Livro reúne contos que mostram as diversas formas de violência contra as mulheres
Obra é resultado de cinco anos de escuta e pesquisa
O livro que descreve uma experiência de aborto
A narrativa acompanha a protagonista diante das diversas formas de violência impostas pela sociedade
