Blog dos Livros
A experiência do aborto
O tabu do aborto, tema ainda pouco explorado na literatura brasileira, é o eixo central de “Do tamanho de um grão” (Grupo Editorial Quixote, 120 páginas), romance autoficcional da escritora e jornalista mineira N. Netta. Com frases curtas, linguagem poética e estrutura fragmentada, a obra propõe reflexões sobre a autonomia do corpo feminino a partir da história de uma mulher que decide interromper uma gravidez não planejada.
O livro marca a estreia de N. Netta na ficção e traz apresentação de Isadora de Araújo Pontes, tradutora de Annie Ernaux no Brasil. Conforme diz Isadora na apresentação, o livro é uma narrativa retrospectiva sobre uma experiência extremamente íntima da narradora, que, ao mesmo tempo, evoca a experiência de milhares de outras mulheres.
Ambientada no final da década de 80, a narrativa acompanha a protagonista diante das diversas formas de violência impostas pela sociedade, como o silenciamento, a repressão e a omissão do Estado, a partir do momento em que escolhe não seguir com a gravidez. O romance também traz referências culturais da época, com menções a artistas como Cazuza, Madonna e a banda Legião Urbana.
Jornalista formada pela PUC Minas, mestra em Teoria da Literatura pela UFMG e especialista em Escrita Criativa pela PUC Minas, N. Netta levou cerca de um ano para escrever o romance. Encontrar a voz narrativa foi um dos principais desafios do processo, segundo ela, porque escrever na primeira pessoa às vezes incomodava muito, porque expunha a escritora.
Nascida em Belo Horizonte, cidade onde reside atualmente, a autora tem ampla experiência na área da comunicação e atua hoje como analista socioambiental, conciliando a profissão com a escrita literária. Atualmente trabalha em seu segundo romance, em que pretende aprofundar o contexto social, cultural e político do final dos ano 80 e início dos anos 90 no Brasil, quando, em meio à hiperinflação, ocorrem as primeiras eleições diretas para presidente após a ditadura militar.
Trecho:
“Primeiro, tentei comprar o comprimido proibido, aquele que faz descer a bola de sangue; quem já passou por um aborto químico clandestino vai me entender. Tive pavor. Mas pensei: se eu não aguentar, procuro o hospital e invento mentira de que começou a sangrar, não sei o porquê. Atravessei viadutos, passei por vielas, subi morros, caí em valas até entrar em uma farmácia aleatória numa avenida movimentada em um bairro miserável de Belo Horizonte. Achava que nestes lugares seria mais fácil conseguir o comprimido abortivo. Fiquei esgueirando pelos corredores, inventava cheirar sabonetes vagabundos, fingia ver preços, é como gastava minha aflição.”
(Página 59)
MAPA DE EVENTOS
O Ministério da Cultura está lançando o Mapa dos Eventos Literários do Brasil, com o objetivo de reunir, organizar e dar visibilidade a eventos literários de diferentes formatos realizados em todo o país, como feiras, festas, bienais, festivais e circuitos. A proposta é conectar o público a estas iniciativas e ampliar o acesso ao livro, à leitura e ao encontro entre autores, editores e comunidades em diversos territórios.
INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
Também oferecido pelo Ministério da Cultura, estão abertas as inscrições para o curso “Inteligência Artificial e Cultura,” com carga horária de 60 horas. O curso é gratuito e será realizado na modalidade a distância pela plataforma escult.cultura.gov.br.. Com aulas gravadas, o curso abordará conceitos fundamentais, aplicações práticas, desafios éticos e regulatórios, além das implicações das IA para profissionais da cultura. Interessados podem se inscrever até o dia sete de setembro.
Leituras:
“O homem é aquilo que lê.”
-Joseph Brodsky (24 de maio de 1940/28 de janeiro de 1996), poeta russo naturalizado estadunidense, expulso da União Soviética em 1972 em razão de conflito com as autoridades daquele país; recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1987.
Destaques:
A MULHER QUE OUVIA OS QUADROS

Autora: Chris Cidade Dias
Ambientada em Toledo, na Espanha, a narrativa acompanha um grupo de mulheres frequentadoras da Catedral, em torno de um segredo que se desdobra a partir de um crime. Ao longo das páginas, a trama costura tensão e sensibilidade, conduzindo o leitor por camadas de memória, silêncio e revelação. Reconhecida por sua trajetória na literatura infantil, com mais de 50 títulos publicados, mais de 500 mil exemplares vendidos e uma dezena de prêmios, Chris estreia na ficção adulta com esta obra.
Editora Casa de Astérion.112 páginas.
SEXO, AMOR E HIPÉRBOLES

Autora: Cíntia Chagas
A autora e palestrante Cíntia Chagas, com milhões de seguidores nas redes sociais, está lançando este seu primeiro livro de ficção, em que reúne 30 contos eróticos com temas considerados tabus, como desejo feminino, infidelidade e contradições nos relacionamentos. Instigada em revelar a vida real de uma sociedade cheia de hipocrisias, a autora conduz o leitor à intimidade de lares supostamente respeitáveis, mostrando, por exemplo, que a fidelidade talvez seja apenas falta de oportunidade. Formada em Letras pela UFMG, Cíntia tornou-se uma das especialistas em comunicação mais influentes do país.
Editora Maquinaria. 208 páginas.
(69)(2).jpg)
(As obras mencionadas no Blog dos Livros podem ser encontradas na Revistaria e Livraria Nascente, localizada na Rua Saldanha Marinho, 1423, Cachoeira do Sul)
Encontrou algum erro? Informe aqui
