Blog dos Espíritos

O temor da morte

22/01/2024 09:08 - por Rosane Sacilotto

Conceituando a morte

Allan Kardec, na obra "O que é o Espiritismo", apresenta o conceito à luz da Doutrina Espírita: "A morte é apenas a destruição do envoltório material, que a alma abandona, como faz a borboleta com a crisálida, conservando, porém, seu corpo fluídico ou perispírito".

Para elucidar ainda mais tal conceito, Emmanuel, pela psicografia de Chico Xavier, acrescenta: "Desencarnar é como mudar de plano, como alguém que se transferisse de uma cidade para outra, aí no mundo, sem que o fato lhe altere as enfermidades ou as virtudes com a simples modificação dos aspectos exteriores". 

A verdadeira vida

A vida espiritual é, realmente, a verdadeira vida, é a vida normal do Espírito. A sua existência terrestre é transitória e passageira, espécie de morte, se comparada ao esplendor e atividade da vida espiritual e verdadeira pátria. O corpo não passa de vestimenta grosseira que reveste temporariamente o Espírito, verdadeiro grilhão que o prende à gleba terrena, do qual ele se sente feliz quando se liberta.

Embora sejamos imortais, é preciso que a lei se cumpra, porquanto nosso corpo biológico tem um tempo de vida, sendo composto de matéria mais densa, naturalmente, vence sua validade, o que nos leva a experimentar o fenômeno da morte do corpo físico, mas não do Espírito imortal, pois este é indestrutível.

Em “O Céu e o Inferno”, uma das obras da Codificação Espírita, Allan Kardec trata do tema temor da morte, perguntando-se por que o homem a teme. Embora uma intuição sussurre nos ouvidos do homem de que a vida não se encerra no túmulo, há o medo do que se considera o desconhecido, e a morte, para um bom número de pessoas, é uma mera desconhecida e indesejada. Aliás, é, também, uma passagem para um tempo de dor e sofrimento, ou até mesmo o nada, que o digam os materialistas.

O temor da morte tem sua utilidade, pois faz com que o homem preserve-se de situações complicadas e não se exponha sem necessidade a perigos que poderiam abreviar sua existência. O instinto de conservação é o responsável por despertar-nos para a importância de nos mantermos em segurança e aproveitar os instantes que a vida na Terra oferece para nossa elevação. Percebe-se, então, que caso o instinto de conservação não existisse, o homem, certamente, se entregaria de modo muito fácil à destruição de seu invólucro carnal. Eis, aí, a prova da sabedoria de Deus, que nada faz de inútil.

Este medo tem sua razão de ser, portanto, na insuficiência das noções sobre a vida futura, mas denota a necessidade de viver, e o medo que a destruição do corpo seja o fim de tudo. É, assim, provocado pelo secreto desejo da sobrevivência da alma, ainda velada pela incerteza. O temor enfraquece à medida que cresce a certeza, desaparece quando a certeza é completa.

O conhecimento afasta o temor

Quanto mais o homem avança em intelecto e moral, mais aproxima-se do Criador, de modo que sua visão vai ampliando-se e o temor da morte vai perdendo pujança, pois o homem passa a compreender que o nada não existe e constata que ao deixar o corpo a sua essência continua bem viva. Ele vislumbra o futuro e sabe que o futuro dependerá de suas ações no presente, por isso trata de trabalhar com mais afinco hoje para que conquiste o equilíbrio que, proporcionará a ele condições de encarar as provas e expiações como desafios para seu crescimento, e não como problemas sem solução.

Conforme o ser humano vai atingindo a maturidade espiritual, consegue elevar-se além da vida na matéria e, assim, enxerga, na morte do corpo, não a destruição total, mas a libertação de seu Espírito. Dar o justo valor ao corpo é uma das formas de libertar-se do temor da morte.

Quando se valoriza em demasia a matéria, coloca-se sobre ela uma responsabilidade enorme e, então, quando esta matéria, obedecendo à lei da vida, tem a falência de seus órgãos, o homem, ainda voltado apenas à vida terrena, desespera-se, pois pensa que ali, na extinção da vida material, há também o fim dos laços de amor, de afeto, de si mesmo e das amizades conquistadas. O Espiritismo nos ensina que não. Os laços de amor não se extinguem com a morte do corpo físico. O sentimento tem sede no Espírito imortal e não no corpo perecível e, por isso, tal como o Espírito tem vida independente da matéria, os sentimentos também possuem essa independência.

O medo da morte, então, sofre um revés chamado conhecimento. Quanto mais o Espírito cresce em conhecimento das leis da vida, mais ele afasta de si o cálice amargo do medo da morte. Assim, a morte já não tem um caráter fúnebre, de perda da identidade, mas, sim, de transformação, de retorno ao mundo espiritual, nossa verdadeira Pátria.

O Espiritismo ensina e consola

A Doutrina Espírita muda inteiramente a maneira de enca­rar o futuro. A vida futura não é mais uma hipótese, mas uma realidade; o estado das almas após a morte não é mais um sistema, mas um resultado da observação. O véu está levantado,o mundo invisível nos aparece em toda a sua realidade prática. Não foram os homens que o descobriram pelo esforço de uma concepção engenhosa, mas foram os próprios habitantes desse mundo que nos vieram descrever sua situação. Nós aí os vemos em todos os graus da escala espiritual, em todas as fases da felicidade e da desgraça. Nós assistimos a todas as peripécias da vida do além-túmulo. Aí está para nós, espíritas, a causa da calma com que encaramos a morte, da serenidade dos últimos instantes na Terra. O que nos sustenta não é somente a esperança, é a certeza. Sabemos que a vida futura é apenas a continuação da vida presente em melhores condições e a esperamos com a mesma confiança com que esperamos o nascer do sol após uma noite de tempestade. Os motivos dessa confiança estão nos fatos de que somos testemunhas e na concordância desses fatos com a lógica, a justiça e a bondade de Deus e as aspirações íntimas do homem.

Como podemos encontrar na resposta da questão 730 de O Livro dos Espíritos: “Ao justo, nenhum temor inspira a morte, porque, com a fé, tem ele a certeza do futuro. A esperança o faz contar com uma vida melhor; e a caridade, a cuja lei obedeceu, lhe dá a segurança de que, no mundo para onde terá de ir, nenhum ser encontrará cujo olhar lhe seja de temer.” 

E para finalizar, guardemos as palavras de Léon Denis, na obra "O problema do ser, do destino e da dor", como reflexão:

“A morte é uma simples mudança de estado, a destruição de uma forma frágil que já não proporciona à vida as condições necessárias ao seu funcionamento e à sua evolução. Para além da campa, abre-se uma nova fase de existência. O Espírito, debaixo da sua forma fluídica, imponderável, prepara-se para novas reencarnações; acha no seu estado mental os frutos da existência que findou.

Por toda parte se encontra a vida. A Natureza inteira mostra-nos, no seu maravilhoso panorama, a renovação perpétua de todas as coisas. Em parte alguma há a morte, como, em geral, é considerada entre nós; em parte alguma há o aniquilamento; nenhum ente pode perecer no seu princípio de vida, na sua unidade consciente. O universo transborda de vida física e psíquica.

A morte é apenas um eclipse momentâneo na grande revolução das nossas existências; mas, basta esse instante para revelar-nos o sentido grave e profundo da vida. A própria morte pode ter também a sua nobreza, a sua grandeza. Não devemos temê-la, mas, antes, esforçarmo-nos por embelezá-la, preparando-se cada um constantemente para ela, pela pesquisa e conquista da beleza moral, a beleza do Espírito que molda o corpo e o orna com um reflexo augusto na hora das separações supremas. A maneira pela qual cada um sabe morrer é já, por si mesma, uma indicação do que para cada um de nós será a vida do espaço”.


KARDEC, Allan. "O que é o Espiritismo?"; "O Céu e o Inferno"; "O Livro dos Espíritos".
XAVIER, Francisco Cândido - Emmanuel. "O Consolador".
DENIS, Léon. "O problema do ser, do destino e da dor". 

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