Blog da Poesia
Anne Carson, Nobel de Literatura
A poeta, ensaísta e tradutora canadense Anne Carson foi agraciada com o Prêmio Nobel de Literatura deste ano, anunciado na manhã desta última quinta-feira, 8 de outubro, em Estocolmo, na Suécia.
Carson, de 76 anos, é celebrada por obras que cruzam as fronteiras entre poesia, ficção e erudição acadêmica.
O comitê do Nobel afirmou tê-la escolhido "por sua obra ousada e inventiva que, em diálogo lúdico com a tradição clássica, criou novas formas para a literatura contemporânea."
O Nobel é concedido pelo conjunto da obra de uma vida e é considerado a distinção mais prestigiosa da literatura mundial.
Carson também traduziu literatura grega antiga e atuou como professora de estudos clássicos por mais de 30 anos.
Seus textos frequentemente combinam versos livres, fragmentos, diálogos e prosa poética. Seus poemas abordam o amor, a ausência, a perda, o silêncio e a dificuldade de compreender o outro.
No Brasil, até o momento, sua única obra publicada é “O Método Albertine”, com tradução de Vilma Arêas.
Trecho de O ensaio de Vidro...
O Ensaio do Vidro
Anne Carson
I
A narradora ouve pequenos estalos dentro do sonho. A noite parece derramar prata por suas costas. Às quatro da manhã, desperta pensando no homem que a deixou em setembro, chamado Law. Diante do espelho do banheiro, vê marcas brancas no rosto, lava-o e volta para a cama. No dia seguinte, irá visitar a mãe.
ELA
A mãe vive sozinha numa região de charnecas ao norte. A primavera chega de maneira cortante, como uma lâmina. A narradora passa o dia viajando de trem e leva livros para si e para a mãe, entre eles as obras completas de Emily Brontë.
Emily Brontë é sua autora favorita, mas também representa um medo que ela deseja enfrentar. Sempre que visita a mãe, sente que está se transformando em Emily: solitária, deslocada e ligada à paisagem agreste. Essa transformação, porém, parece desaparecer quando entra na cozinha.
A seção termina com uma pergunta sobre aquilo de que ambas precisam, formulada por meio de uma referência à escritora.
TRÊS
Três mulheres silenciosas estão à mesa da cozinha. A mãe e a narradora comem alface enquanto, do lado de fora, a charneca permanece congelada. O relógio emite um zumbido irregular. A narradora tenta ler O Morro dos Ventos Uivantes, mas observa a mãe discretamente, tomada por perguntas que não consegue fazer.
A conversa cotidiana atravessa o silêncio: impostos, melões, um cabeleireiro que encontrou Deus, ratos, chuva, notícias e câncer. O ambiente parece estar envolto numa camada de vidro, como se as pessoas estivessem separadas por uma barreira invisível.
Na paisagem, o gelo começa a se abrir, revelando água escura que se agita como raiva. Então, a mãe pergunta se a psicoterapia está ajudando e observa que a filha ainda não superou o antigo relacionamento.
A narradora recorda que a mãe nunca gostou muito de Law, embora desejasse que a filha tivesse um companheiro e seguisse em frente. Ela começa a compreender que, naquela relação, uma pessoa dava enquanto a outra recebia.
Na madrugada, ao ler a passagem de O Morro dos Ventos Uivantes em que Heathcliff implora pela presença do fantasma da mulher amada, a narradora também cai de joelhos e chora.
A mãe questiona a utilidade de reabrir as feridas do passado. A narradora responde, com dificuldade, que o luto é um processo longo, conforme explica seu terapeuta. Por fim, afirma que está resistindo e sobrevivendo. A mãe sorri, reconhecendo essa força.
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