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Castro Alves, o poeta dos escravos

21/10/2026 08:54 - por Tiago Vargas tiagovargas.uab@gmail.com

O poeta baiano Castro Alves fez parte da última geração romântica. O principal nome do Condoreirismo ganhou a fama de ser o Poeta dos Escravos por defender de corpo e alma o abolicionismo.

Um escritor engajado, motivado a defender os ideais de justiça e liberdade, Castro Alves faleceu aos apenas 24 anos, mas deixou uma vasta obra que merece ser estudada.

Poemas abolicionistas

Os poemas de Castro Alves que ficaram mais famosos foram aqueles que se debruçaram sobre o tema do abolicionismo. Com um tom panfletário, declamativo, o poeta os recitava em comícios e eventos.

Com um tom indignado, Castro Alves dissertava sobre temas políticos e sociais e cantava ideais liberais fazendo uma apologia à República e militando a favor da abolição da escravatura.

Em 1866, quando estava no segundo ano do curso de Direito, Castro Alves chegou a fundar, ao lado de Rui Barbosa e de amigos do curso da Faculdade de Direito, uma sociedade abolicionista.

Grande parte dessas composições engajadas foram influenciadas pela lírica do poeta francês Vitor Hugo (1802-1885).

1. O navio negreiro (trecho)

'Stamos em pleno mar... Doudo no espaço
Brinca o luar — dourada borboleta;
E as vagas após ele correm... cansam
Como turba de infantes inquieta.
'Stamos em pleno mar... Do firmamento
Os astros saltam como espumas de ouro...
O mar em troca acende as ardentias,
— Constelações do líquido tesouro...
'Stamos em pleno mar... Dois infinitos
Ali se estreitam num abraço insano,
Azuis, dourados, plácidos, sublimes...
Qual dos dois é o céu? qual o oceano?...
 
2. Ode ao dois de julho (trecho)

recitado no Teatro de S.Paulo
Não! Não eram dois povos, que abalavam
Naquele instante o solo ensangüentado...
Era o porvir—em frente do passado,
A Liberdade—em frente à Escravidão,
Era a luta das águias — e do abutre,
A revolta do pulso—contra os ferros,
O pugilato da razão — com os erros,
O duelo da treva—e do clarão!...
No entanto a luta recrescia indômita...
As bandeiras — como águias eriçadas —
Se abismavam com as asas desdobradas
Na selva escura da fumaça atroz...
Tonto de espanto, cego de metralha,
O arcanjo do triunfo vacilava...
E a glória desgrenhada acalentava
O cadáver sangrento dos heróis!...

3. Canção do africano (trecho)

Lá na úmida senzala,
Sentado na estreita sala,
Junto ao braseiro, no chão,
Entoa o escravo o seu canto,
E ao cantar correm-lhe em pranto
Saudades do seu torrão ...

De um lado, uma negra escrava
Os olhos no filho crava,
Que tem no colo a embalar...
E à meia voz lá responde
Ao canto, e o filhinho esconde,
Talvez pra não o escutar!

"Minha terra é lá bem longe,
Das bandas de onde o sol vem;
Esta terra é mais bonita,
Mas à outra eu quero bem!
Poemas de cunho social
Em grande parte dos poemas de Castro Alves encontramos um eu-lírico que questiona o mundo e se pergunta qual é o seu lugar nele. Ao avesso da geração romântica que o antecedeu (que se debruçava nos dramas do próprio indivíduo), aqui o sujeito poético olha ao redor e tenta provocar mudanças na sociedade.

O eu-lírico questiona a justiça e procura cantar a liberdade de imprensa e de modo geral. Esse tipo de poética, carregada de um discurso político, era feita com a intenção de ser declamada em salões e fazia uso de um discurso retórico.

Muito verborrágica, inflamada, a poesia fazia uso de hipérboles, antíteses e metáforas, e continha um exagero de palavras e de imagens.
Essa poesia comprometida, em sintonia com o projeto condoreirista, procurava influenciar o leitor, mobiliza-lo, fazendo com que ele tomasse atitudes concretas no mundo real.

Foi durante a faculdade que Castro Alves passou a se envolver com o ativismo escrevendo em periódicos universitários. Em 1864 esteve envolvido inclusive num comício republicano que foi rapidamente abafado pela polícia.

4. O livro e a América (trecho)

Talhado para as grandezas,
P'ra crescer, criar, subir,
O Novo Mundo nos músculos
Sente a seiva do porvir.
—Estatuário de colossos —
Cansado doutros esboços
Disse um dia Jeová:
"Vai, Colombo, abre a cortina
"Da minha eterna oficina...
"Tira a América de lá".

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