Blog da Poesia

Adriano Espíndola

30/09/2026 08:44 - por Tiago Vargas tiagovargas.uab@gmail.com

Adriano Espínola é um renomado poeta, crítico literário, professor e escritor brasileiro. Nascido em Fortaleza, Ceará, em 1º de março de 1952, consolidou sua trajetória no cenário cultural nacional como um expoente da poesia contemporânea.

Sua obra poética explora as minúcias da linguagem e a relação humana com o espaço urbano, transitando entre o lirismo e a experimentação.
Entre suas obras, destaque para Táxi ou poema de amor passageiro e Praia Provisória.

O Vivo
Não queiras ser mais vivo do que és morto.
As sempre-vivas morrem diariamente
Pisadas por teus pés enquanto nasces.
Não queiras ser mais morto do que és vivo.
As mortas-vivas rompem as mortalhas
Miram-se umas nas outras e retornam
(Seus cabelos azuis, como arrastam o vento!)
Para amassar o pão da própria carne.
Ó vivo-morto que escarnecem as paredes,
Queres ouvir e falas.
Queres morrer e dormes.
Há muito que as espadas
Te atravessando lentamente lado a lado
Partiram tua voz. Sorris.
Queres morrer e morres.

Gente 
Sempre tive dificuldade de sair com Paulinho, meu irmão. Além de hiperativo, ele, do nada, soltava palavrões, como “boceta”, “caralho”, e o pior, que me dava horror: “lambe meu cu”. Fazia som de pássaros, aí eu achava engraçado. Parecia um papagaio quando queria pedir alguma coisa. Embolava-se nas cartas e bocas e nos sons, que às vezes dava um tuíte em sua cabecinha. Aos poucos, ele passou a ser introvertido, não queria o contato público, não queria sair de casa, seu lugar de proteção. Muitas vezes era forçado por nossos pais, mas isso significava que ao fim ele iria apanhar feio, por conta de suas “traquinagens” involuntárias. Na missa, quando ia aos domingos, chegou a chamar o padre de “bicha”; então, o próprio padre parou a missa e pediu respeito, motivo pelo qual meu irmão ficou preso em casa por duas semanas, sem poder jogar videogame, sua maior distração. O coitado apanhou muito dos meus pais. Eles queriam colocar o menino atrevido no caminho da retidão, como se fosse um caso de má-educação. Eu, sendo mais velha, intuía que ele não tinha culpa do que acontecia. Mesmo assim, meus pais não buscavam tratamento para o menino, que vivia cada vez mais pelos cantos, largado. Ou seja, eu não compreendia bem o que estava se passando, mas sabia que era involuntário, que não era porque ele queria, era um caso atípico; meus pais não tinham esse discernimento. Os maus-tratos continuavam principalmente quando o Paulinho ia aos encontros de família: os tios mandavam, ao meu pai que era mais novo, que lhe desse um “mói de sova’, ou seja, batesse para valer, até que ele parasse de “traquinagem”. Achavam o coitado mal-educado e maldoso, como se fizesse de propósito. O tempo foi passando e isso piorando. Paulinho era rejeitado nas festas infantis, nas reuniões de família, e sofria bullying na escola – nem mesmo os professores entendiam. Só com quinze anos ele foi diagnosticado com síndrome de tourette, em que o sujeito não se controla e fala tudo que vem à cabeça; é como uma compulsão. Mas aí o estrago já estava feito. Paulo não queria frequentar a escola, tinha medo do que pudesse acontecer. Somente a professora Sara, de língua portuguesa, entendia o seu transtorno. E por isso ele continuou a ter aulas particulares com ela. Foi Sara, uma alma bondosa, que deu o encaminhamento para o supletivo, pois Paulinho, à época, não tinha condições de frequentar a escola regular. Depois, maduro, Paulo resolveu assumir e contar a todo mundo a sua condição. Meus pais, envergonhados do passado de ignorância, resolveram apoiar. Fez faculdade e era querido por todos, como “Paulinho bocão”. Paulinho hoje é casado com Samara e tem um bebê lindo. Ele trabalha numa multinacional e ganha prêmios de excelente funcionário. É, ele leva uma vida normal, apesar do desconforto. E eu amo o meu irmão, adoro contar a sua reviravolta. Gente nasceu para vencer – ou, como diz o poeta, para brilhar.

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