Blog da Poesia

Bernardo Ceccantini

24/06/2026 09:16 - por Tiago Vargas tiagovargas.uab@gmail.com

Bernardo Dias Ceccantini nasceu em Marília (SP) em 1995 e cresceu em Assis. Em 2005, mudou-se para São Paulo. 

Formado em Letras pela Universidade de São Paulo – USP é um dos grandes nomes da cena literária brasileira contemporânea. .

O escritor Bernardo Ceccantini perambula por São Paulo e pelos becos da memória da cidade e de seus habitantes em novo livro de poemas chamado Vida Sortida.

Para muitos poetas, assim como Ceccantini, o o andar dos versos é o ritmo da nossa existência. Logo nos primeiros poemas, quem dita os caminhos é a realidade do cotidiano numa grande cidade — no caso, São Paulo, como fica evidente nos títulos “Momentos na Barão de Limeira”, “Anhangabaú” e “Quinta-feira em Pinheiros”. Nesses textos, o poeta descreve seus pensamentos de andarilho, os encontros pelas calçadas e também reflexões sobre temas aparentemente banais, como os primeiros namorados, que surgem em toda sua glória nos versos de “Ela ainda existe?”.

Afinal, a obra não está limitada aos espaços públicos, como ruas, praças e bares, mas se alastra a praticamente todos os lugares que percorremos ao longo de nossos dias: quartos, casas, carros, viagens de férias, refeitórios… com a diferença que aqui o narrador presta uma raríssima atenção neles. Uma atenção profundamente subjetiva, que empresta significados íntimos ao entorno enquanto reflete sobre o amor, os prazeres, a depressão e a revolta, dentre uma série de questionamentos aparentemente aleatórios, mas que guardam uma profundidade só sua.

Estreante na poesia com “Na Quina das Paredes” obra semifinalista do Prêmio Oceanos, Ceccantini acena aqui a grandes artistas como Manuel Bandeira, o cineasta Michelangelo Antonioni e o poeta e dramaturgo norte-americano Frank O’Hara (1926-1966). Mas os grandes protagonistas na obra são os passantes, pessoas que dividem fugazes momentos de proximidade e acabam se misturando aos vínculos pessoais e familiares, todos habitantes de algum lugar da memória do poeta. É assim que o autor compartilha conosco, numa escrita que conjuga o bom-humor e a melancolia, um pouco da sua São Paulo, uma cidade capaz de pequenos momentos de graça e de loucura.

Ela ainda existe?

Como são engraçados os primeiros namorados.
Fazem tanto barulho quando se despem
em pequenos pulos numa perna só.
Quantas janelas não enfrentam
os primeiros namorados
numa manhã de sábado
em que todo o prédio da frente já acordou.
Mas quem ousa despertá-los?
Quem, em perfeita consciência,
ousa chamá-los às tarefas do dia?
O cesto de roupa suja,
o prato engordurado,
a dúvida do almoço?
Mesmo os seres mais infelizes
já foram primeiros namorados de alguém.
O quarto é o único mundo possível,
o único mundo presente
dos primeiros namorados.
Escuro, flamejante,
escuro de novo.
Da mesa ao interruptor na parede,
da cama à cama,
só mais uma vez.
Mesmo os seres mais infelizes/
já foram primeiros namorados de alguém

Meio quarteirão

Entre telas e canecas,
o poeta caminha na semana estranha.
O peito aberto,
nenhuma inspiração,
a rua muda
na conversa chata dos taxistas.
Vai, poeta,
escarafunchar a infância,
inventar jabuticabeiras, aparições.
Vai bater na família,
que nem te incomoda mais.
Na manhã de moletom,
o poeta é, se muito, fitness,
com seus blocos semânticos pra lá e pra cá.
Seu quarto amontoa-se
de palavras amplas:
“rosa”, “dor”, “ontem”, “mar”.
Todas mancas, infestadas de cupins.
Adeus, poeta,
que hoje está só e técnico,
como um engenheiro triste,
como o mais gentil
dos dentistas.
Vai, poeta,/
escarafunchar a infância,/
inventar jabuticabeiras, aparições./
Vai bater na família,/
que nem te incomoda mais

Sermo humilis no refeitório

Jesus, eu vi seu filme
com minha avó, que te adorava.
Gosto muito da sua história,
sobretudo daquela parte dos peixes.
O final é mesmo uma tristeza,
essa coragem eu não tenho.
Seus pés imundos e melados de sangue,
minha vó apertando minha mão,
realmente um horror!
Jesus, eu nem sei por que comecei desse jeito.
O que eu quero te mostrar hoje,
se é que você já não está vendo,
é esse homem alegre de uniforme azul-marinho
no refeitório subterrâneo da biblioteca.
Nossos horários coincidem sempre
e acho que gostamos dessa mesa comprida
encostada na parede
onde uma tira de janela dá pro chão do jardim.
Jesus, você sabe que eu não rezo,
exceto em turbulências
ou se há alguma cantoria envolvida.
Mas acredita que ando tendo vontade?
É, com certeza estou com vontade,
mas apenas enquanto observo o homem de azul-marinho
com as mãos postas e os olhos fechados,
murmurando pra si mesmo
palavras de calma
antes de almoçar.

Veja pai se as minhas mãos na mesa não lembram as do avô
Se não rebentam em dedos grossos e grandes como os de um ferreiro
Se  não seguram firmes e por inteiro um orgulhoso cachimbo de imigrante
Venha e veja vó que elas não titubeiam rodando a roldana do isqueiro
Arrastado na mesa com o estrondo sólido do cargueiro tombado
Arrancam o fogo enquanto marcham pro carregado copo de café
Nosso tronco é inchado e trava no pulmão um fumo negro
É momento do queixo contraído como o  seguro baú mediterrâneo
Nossa barba vira quente e ruiva na vontade de trabalhar
Lanço círculos arriscados quando expiro a fumaça
Logo depois do café queimar a minha língua.

e entrego como de costume um novo poema meu
Há um peso nas suas ancas ao sentar na cama indicando que essas leituras são também parte da cobrança
– Estamos sim crescidos das vermelhas cartas de amor e do conhecimento mútuo
Sento no xadrez da poltrona e o meu pé bate a expectativa encarcerante do seu reconhecimento
Devo te pedir de provisório que se lembre do manual que nos assegurava que a poesia não é espelho não
(Ao menos quando o leitor ascende da linhagem cintilante das primeiras namoradas)
Assim o poema vai te aparecendo no peito como um atlas perdido dos nossos problemas
Você aceita que será escrita embora me desconheça os sacrifícios das tintas e das mentiras dos sons
Gostei, você me diz e é de novo
Logo depois chora a penúltima lágrima da nossa inocência

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