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O Primata: fúria animal

29/01/2026 09:25 - por Jorge Ghiorzi jghiorzi@gmail.com

Um chimpanzé assassino transformado em ameaça familiar. Esta é a premissa que sustenta "O Primata", um terror sangrento que mistura gore explícito com humor negro inesperado. A trama acompanha Ben, um chimpanzé adotado como animal de estimação por uma família, originalmente parte de um experimento linguístico conduzido pela mãe falecida.

Quando o animal enlouquece e inicia uma série de ataques brutais, o caos se instala em uma mansão isolada no Havaí, convertendo uma reunião familiar em um banho de sangue visceral.

A partir dessa premissa absurda, o diretor Johannes Roberts faz algo astuto. Ele torna o chimpanzé "real", em vez de apenas mais um monstro exagerado de um thriller de fantasia. "O Primata" se passa quase inteiramente em uma mansão situada na orla isolada de uma floresta.

Lucy (Johnny Sequoyah), que está na faculdade, é a personagem principal, em essência a sobrevivente, que volta para casa para visitar sua irmã adolescente, Erin (Gia Hunter), e seu pai, Adam, um renomado escritor de romances policiais surdo (interpretado por Troy Kotsur, o carismático ator de "CODA: No Ritmo do Coração", filme vencedor do Oscar em 2022).

A mãe das meninas faleceu recentemente de câncer, mas o reencontro é, em sua maior parte, caloroso e feliz. O outro membro da família é Ben, o chimpanzé de estimação, trazido para casa pela mãe como parte de um experimento linguístico.

Ben, como assassino em série, representa um pequeno triunfo dos efeitos práticos. Seu sorriso de chimpanzé que se transforma em um olhar lascivo e ameaçador o torna uma figura tão assustadora quanto a maioria dos assassinos mascarados. E aí reside exatamente seu caráter de comédia macabra. O filme inteiro pode ser, em certa medida, uma paródia involuntária da sequência chimpanzé descontrolado em "Não! Não Olhe!" (2022), de Jordan Peele, um filme que deixou grande parte do horror para a imaginação.

"O Primata", ao contrário, não deixa nada para a imaginação, já que Ben morde, dilacera, arranha, arranca o rosto de alguém e, na cena mais impactante do filme, dá a um dos caras arrogantes que Lucy conheceu no avião o que ele merece.

"O Primata" é um filme engraçado como só um filme de terror sangrento, nojento e previsível, mas com um toque de inteligência, pode ser. É um filme trash de carnificina bem executado? Com certeza. No entanto, o desenvolvimento superficial dos personagens alimenta os clichês do terror adolescente, como a protagonista resiliente, o pai vulnerável e os antagonistas descartáveis que servem apenas como vítimas.

Essa superficialidade impede que o filme explore temas mais profundos, como o luto familiar ou os perigos éticos de experimentos com animais, optando por priorizar o gore e o humor negro.

Ainda assim, "O Primata" cumpre sua proposta de entretenimento descompromissado, misturando risos involuntários com cenas chocantes. Em um gênero saturado de monstros sobrenaturais, o diretor apresenta uma ameaça "realista" que diverte pela absurdidade, tornando o filme uma opção divertida para fãs de terror B que não levam nada muito a sério.

Com sua execução competente e efeitos práticos impressionantes, ele se destaca como uma paródia sangrenta que, apesar dos clichês, mantém o espectador grudado na tela até o fim.

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