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Anaconda: o terror que ri de si mesmo

08/01/2026 10:31 - por Jorge Ghiorzi jghiorzi@gmail.com

Longe de qualquer compromisso com o suspense ou o terror, “Anaconda” deixa claro desde cedo que sua verdadeira intenção não é assustar, mas escrachar. A tentativa inicial de se apresentar como um filme de horror fracassa rapidamente. Não há atmosfera, tensão ou sequer uma criatura realmente apavorante. Em vez disso, o longa se assume como uma paródia do próprio gênero que pretende revisitar.

Em lugar de um reboot protocolar, o diretor Tom Gormican opta por uma sátira da indústria cinematográfica. A trama acompanha um grupo de cineastas amadores que viaja ao Brasil para relançar a franquia da cobra assassina, apenas para acabar enfrentando, ironicamente, uma anaconda gigante em computação gráfica.

A equipe é liderada por Griff, vivido por Paul Rudd, um ator em decadência que trocou o sonho hollywoodiano por participações irrelevantes em séries ruins, e Doug, interpretado por Jack Black em modo totalmente sem freio, um videomaker de casamentos cujos clientes pouco se importam com suas ideias autorais.

Munidos de pouco mais que uma câmera, um sonho e decisões questionáveis, eles partem para uma filmagem de três semanas na Amazônia brasileira, contando com a ajuda duvidosa de Santiago, papel de Selton Mello, um excêntrico tratador de serpentes, e de Ana, personagem de Daniela Melchior, uma misteriosa capitã de barco. A participação de Selton Mello chama atenção não apenas pelo carisma, mas por marcar sua primeira incursão internacional após o êxito mundial de Ainda Estou Aqui. Ainda que o roteiro não lhe ofereça grandes camadas dramáticas, o ator imprime personalidade ao personagem e se destaca em meio ao caos proposital do filme.

A comédia, no entanto, é irregular. O filme aposta pesado no humor pastelão, com tarântulas vivas, esquilos mortos e javalis guinchando, e nem sempre acerta o timing. Algumas piadas se alongam além do necessário, como a sequência em que Kenny, apavorado, tenta urinar em Doug para salvá-lo de uma picada de aranha, sem sucesso.

Há também uma curiosa reverência ao “Anaconda” original, lançado em 1997, estrelado por Jennifer Lopez, Ice Cube e Jon Voigt. Concebido como terror, mas lembrado como comédia involuntária, o filme original é tratado aqui quase com carinho excessivo, o que acaba suavizando o impacto satírico.

Este novo “Anaconda” pode ser visto como um exercício de piada única, mas é impossível não reconhecer a ousadia, a audácia e a cara de pau de seus criadores, incluindo o executivo que aprovou o projeto. Nem sempre funciona, mas nas poucas vezes que acerta, ao menos deixa claro que nunca teve medo de parecer ridículo.

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