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Uma Segunda Chance: drama sem conflito, emoção sem memória
A mais recente adaptação de um romance de Colleen Hoover, que coescreveu o roteiro, chega às telas após o sucesso de “É Assim Que Acaba” e “Se Não Fosse Você”. Desta vez, a autora, conhecida por suas paixões avassaladoras, surpreende ao optar por um tom mais contido: o que temos é um drama sobre o poder da maternidade.
“Uma Segunda Chance” (Reminders of him) conta a história de Kenna (Maika Monroe, de “Longlegs”), que acaba de cumprir sete anos de prisão por homicídio culposo, após o trágico acidente de carro em que morreu seu namorado, Scotty (Rudy Pankow). Na prisão, ela descobre que estava grávida, mas sua filha, Diem (Zoe Kosivic), é levada e criada pelos pais de Scotty, que lhe negam qualquer direito legal sobre a menina, agora com cinco anos. O desejo de Kenna é reconstruir o vínculo com a filha, porém sofre a rejeição dos sogros. É nesse conflito central que o filme se apoia.
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O longa, no entanto, manipula o espectador emocionalmente de forma implacável, a ponto de deixá-lo exausto ao fim de suas quase duas horas de duração. Essa exaustão é agravada por uma estrutura narrativa que beira o mecânico: a cada trinta minutos, um novo ponto de virada é introduzido, aumentando exponencialmente a previsibilidade da história. No primeiro quarto, Kenna se reergue; na metade, a tensão sexual entre ela e Ledger (Alex Roe), o melhor amigo de Scotty, explode em um beijo apaixonado; aos noventa minutos, os detalhes há muito ocultos sobre o passado de Kenna são finalmente revelados. A partir daí, o filme se dedica a amarrar todas as pontas para garantir um final feliz.
É preciso relevar, nesse percurso, alguns elementos piegas. A narração em voz off de Kenna, que apresenta a história e logo desaparece sem função clara, é um deles. O mesmo ocorre com seus volumosos diários, nos quais ela escreve cartas para o falecido Scotty. Um recurso que se torna central na trama de forma um tanto forçada. Ainda assim, o desenvolvimento do romance entre Kenna e Ledger foge de clichês mais óbvios (com a exceção do primeiro encontro em um bar) e possui um ritmo orgânico. Por outro lado, os flashbacks do casal formado por Kenna e Scotty falham em transmitir a intensidade da paixão que supostamente unia os dois, fragilizando a base emocional de todo o conflito.
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A sequência final tenta construir pontes entre Kenna e os pais de Scotty às pressas, ignorando a animosidade construída ao longo de anos. Todos os personagens, em essência, são tratados como bons de coração, dispostos a aprender o ponto de vista alheio, onde tudo de ruim é perdoável. Essa busca por harmonia a qualquer custo, no entanto, compromete o drama. Em uma história sobre duas pessoas que se unem em circunstâncias trágicas em busca de felicidade, o excesso de concessões narrativas faz com que o filme oscile entre o doce, o dramático e o ocasionalmente cômico sem se firmar em nenhum desses registros com força.
Sem um conflito que resista à resolução apressada e sem a coragem de explorar as arestas de seus personagens, resta pouco de memorável. Ao optar pela harmonia em detrimento do drama genuíno, o filme acaba por não nos dar bons motivos para lhe conceder, parafraseando o próprio título, uma segunda chance.
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