Blog do Cinema
Cara de Um, Focinho de Outro: o chamado da natureza
Após o recente fracasso de “Elio”, a Pixar parece ter encontrado novamente o caminho de casa com este “Cara de Um, Focinho de Outro” (Hoppers). O longa é o melhor lançamento do estúdio em uma década, recuperando a fórmula que consagrou suas obras-primas, que equilibravam humor peculiar, doçura emocional e uma mensagem importante.
A trama desta animação acompanha Mabel, uma jovem que, para impedir que o prefeito Jerry destrua o bosque onde cresceu, usa uma tecnologia secreta para transferir sua mente para dentro de um castor robótico e se infiltrar no reino animal. Lá, ela cruza o caminho do Rei George, o bondoso castor que governa o lago.

O que era uma missão simples se transforma em uma aventura descontrolada quando a imponente Rainha dos Insetos percebe a ameaça humana e organiza um contra-ataque. O espectador é levado por uma narrativa maluca: perseguições frenéticas em estradas montanhosas, o suspense do clímax onde a natureza se enfurece e uma solução ecológica triunfante. A história do Rei George, um líder sobrecarregado pelo fardo de defender seus súditos, guarda semelhanças com a trajetória de Simba, de “O Rei Leão”.
Visualmente, a animação é um deleite. Os desenhos dos personagens são encantadores, a fisicalidade dos animais é fonte constante de diversão e os cenários verdejantes da floresta tornam o filme imersivo. Em meio a tantas animações sobre veados (“Bambi”), elefantes (“Dumbo”), pinguins (“Happy Feet”) leões (o já citado “O Rei Leão”), e até formigas (“FormiguinhaZ”), o simpático castor nunca havia protagonizado sua própria aventura (apenas participando como coadjuvante em muitas animações). Com este filme, a Pixar corrige essa injustiça, entregando em Rei George um protagonista cativante.
O filme também se destaca pela abordagem irreverente sobre o ciclo da vida. Os personagens da floresta aceitam alegremente que seu destino pode ser serem devorados, inserindo humor negro que funciona na narrativa. É nesse contraste que o filme encontra seu coração. A mensagem de que a salvação vem da colaboração de todos os seres é oportuna e poderosa. Embora a premissa de que "todos fazem parte de um universo complexo e merecem respeito" possa soar clichê, a forma como é construída a torna genuína.
No entanto, o longa tem lá os seus tropeços. Em seus 100 minutos, apresenta tantas tramas e subtramas que o espectador fica frustrado por não conseguir dedicar atenção a tudo. A riqueza de ideias, uma das virtudes do filme, acaba sendo seu calcanhar de Aquiles, criando a sensação de que alguns conceitos mereciam mais espaço.

Apesar disso, a sensação é de estar diante de um pequeno clássico instantâneo. “Cara de Um, Focinho de Outro” é entretenimento irreverente que diverte, emociona e faz pensar, provando que a Pixar ainda é capaz de apresentar mundos novos e personagens inesquecíveis, mesmo dando protagonismo a um simples e adorável castor
Encontrou algum erro? Informe aqui
