Blog da Poesia

Valter Hugo Mãe

25/03/2026 09:13 - por Tiago Vargas tiagovargas.uab@gmail.com

Valter Hugo Mãe é o nome artístico do escritor português Valter Hugo Lemos, nascido em 25 de setembro de 1971. Autor de múltiplas vocações e atividades; além de romancista de grande sucesso (agraciado com os Prêmios Portugal Telecom de Melhor Livro do ano,  Portugal Telecom de Melhor Romance com as publicações O fiho de mil homens e A desumanização, além do Prêmio  Literário José Saramago com o remorso de baltazar serapião) é poeta, artista plástico, músico, apresentador de tv, entre outras atribuições.

Sua poesia está reunida na volume Contabilidade. Seus escritos dotados de poderosas imagens poéticas trazem luz e uma beleza singular a nosso idioma. Seus quatro primeiros romances são conhecidos como a tetralagia das minúsculas, ou seja, escritos integralmente sem letras capitais, incluindo o nome do autor.

Esse conceito ou ideia alude a uma certa utopia de igualdade, equiparando as palavras na sua grafia, deixando que o leitor seja ativo na leitura, definindo o que deve ou não ser acentuado. Seu texto é caracterizado essencialmente por frases curtas, de significado extremamente estudado e preciso, porém de ritmo estranho  a quem estiver habituado a narrativas convencionais.

Trata-se de um autor que se reiventa a cada linha, numa linguagem de peculiar plasticidade e ousadia com olhar microscópico e conteúdo profundamente humano. Cada parágrafo ou página é uma aula de psicoanálise ( Hugo Mãe explora com genialidade as sombras e os fantasmas que residem no intrínseco de cada pessoa). Sua obra  como um todo é para ser lida devagar, sem pressa. E, para reler, muitas vezes.





a capitalização do amor
não escondemos que aprendemos a 
capitalizar o amor, entregando 
amplamente os nossos melhores 
momentos às raparigas mais carentes. 
o amor, sabemos bem, é o caminho directo 
para a inutilidade, e nós procuramos as 
raparigas que mais rapidamente se 
inutilizem perante as coisas clássicas 
da vida. não nos queremos atarefar com 
a vulgaridade, e gostaríamos até de 
impregnar cada gesto com características 
alienígenas, mas o tempo escapa-se e o 
dinheiro também e, se só pensamos no amor, 
não temos como fazer de outro modo 
senão vendê-lo entusiasticamente, como 
fontes de trovões bonitos jorrando nas 
praças mais movimentadas das cidades. e 
as raparigas correm para nós urgentes 
e cheias de vida, férteis de tudo quanto o 
amor se abate sobre elas, uma alegria rica 
de se ver, e nós a balançar os braços para 
chamar a atenção de mais e mais e 
já nem sabemos como parar, como forças 
incontroladas, à semelhança de mecanismos 
ferozes da natureza, e só sairemos daqui 
quando desfalecermos de amor até 
pelas raparigas mais feias.

valter hugo mãe


 
Valter Hugo Mãe


se o vento é a ignição
das árvores venha o
temporal, elas ateadas sobre
as nossas cabeças, desmembradas
da terra como voadores desajeitados, meu pai
já conheço o vão da tua fome, peço-te,
faz de mim uma colher
divina

inês subtil

talvez seja o momento de te dizer
que sou da mais vil beleza, feito de
amar entre os homens apenas as coisas
mais efêmeras

talvez seja o momento de te dizer
que me cresceram os teus seios mais
jovens, numa indisfarçável necessidade de
que me pertençam entre as coisas
que te cedo

talvez seja o momento de te dizer
que o teu corpo mulher é um exagero do
meu deus, generoso mais do que nunca na
liberdade da minha fome

não estou certo de que seja o momento de
pedir mais ainda, quanto te roubo a alma e
aos poucos a entorno pelo caminho até ao
outrora vazio do meu coração

como não sei se será certo padecer de alguma
felicidade imprudentemente, naquele
miudinho perigoso de estar quase a
morrer de amor por ti

também eu me sinto capaz de desmaiar com
um orgasmo. mas só agora, aos trinta e
sete anos, só contigo

gordo e careca

para rosa maria weber e alberto bresciani

onde vais, valter hugo mãe, tão sem ter
com quem, tão precipitado no vazio do
caminho à procura de quê

porque não ficas em casa, resignadamente só,
a ver como a vida se gasta sem culpa nem glória

é um rapaz estranho, valter hugo mãe, aí metido
num amor nenhum que te magoa e esperas ter
lugar no mundo, com tanto que o mundo tem de
distraído

devias morrer no dia dezoito de março de
mil novecentos e noventa e seis, como dizes que
vai acontecer, para que se acabe essa
imprecisa sentença que é a vida

volta a fechar a porta, não há nada para ti lá fora
e está frio, tens reumatismo, dói-te a cabeça, estás
gordo e careca, não faz sentido sequer que
tentes chegar às luzes esbatidas da marginal, ainda
que seja só ao lado menos percorrido pelos banhistas

volta a fechar a porta e talvez durmas, está um
agradável silêncio no prédio, tenho a certeza de que
reparaste nisso
 
poema da filha sem vôo

para a patty waters

a filha daquele homem era avestruz. passava o dia cabeça
palmos acima, olhos esbugalhados no quintal, as penas
lustradas pelos banhos no lago e barriga tão inchada de
orgulho. por defeito, a preciosa filha só tinha não querer
casar e, a cada rapaz que o homem lhe apresentasse, ela
enfiava a cabeça na areia. acontecia de a família desesperar
escondida casa adentro em silêncio, e de outras aves se
aproximarem sorrateiras para roubarem a comida com que
a mãe enchia a gamela deixada à soleira da porta

o poeta como nu

para o pedro guimarães e para a laura machado

um dia apareceu um poeta sem pétalas. nunca tal se vira.
sem pétalas, dizia-se, estava igual a nu, coberto de nada
que o diferisse, como se ser poeta não trouxesse marcas
à flor da pele. algumas pessoas riram-se nervosamente,
e só por isso o estranho poeta se foi embora sem outra
notícia

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