Blog da Poesia

3 poemas de Maria Isabel Iorio

01/04/2026 11:27 - por Tiago Vargas tiagovargas.uab@gmail.com

A carioca é poeta, artista visual e roteirista. Já publicou os livros “Em que pensaria quando estivesse fugindo”  , “Aos outros só atiro o meu corpo”,  “Dia sim dia não fazer chantagem” e Não pisar descalça em tapete. Participou da antologia “As 29 poetas hoje”, organizada por Heloisa Buarque de Hollanda.  

Maria Isabel Iorio entende a poesia dentro de um campo expandido e com muita ousadia cria obras que contêm escritos, fotografias, desenhos e colagens. Artista moderna, inteligente e multifacetada. Utiliza da linguagem sui generis como seu mote inspirador. 

fundamental não deitar não ficar de pé
estou dentro
de você seu
cu não esperava
a minha língua e reconhece
ela mais rápido
que você
que lavava a louça da pizza e devia
estar pensando em outras
besteiras quando te abracei por trás
agora você já sabe
que sou eu, claro,
e está me dando
o cu sem dizer o meu nome
nem eu estou
com nome
minha língua está inteira
ocupada
aqui não é o brasil mas
a nossa cozinha
aqui não estamos
emitindo nenhum som
ou documento
para a lucidez
não corremos
nenhum risco
de ter um filho
ufa não estamos
esperando nem reproduzindo
nada
e agora,
agora é a minha
vez

se eu não puder voltar
Eu era pequena fui a um parque d’água, um parque onde constroem circuitos / de água com cloro, variações de piscina, onde oferecem estes serviços ao / público, bom, lá estava eu, entrei em uma correnteza, um rio artificial que / cruzava toda a área do parque, arrastando quem entrasse, eu e minha mãe, outras / crianças, muitas delas, eu lembro certa altura me perdi de minha mãe, olhei para os lados / não estava, e eu seguia involuntariamente, não conseguia voltar, tamanha / força de sentido único, lembro da agonia desse dia, da dúvida se desistia ou tentava / me lançar de volta à terra, seja lá onde eu estivesse àquela altura,

cheguei a pressentir: o problema da correnteza não é te impedir de voltar, ou te impedir de decidir o caminho – o problema da correnteza é te dar a impressão de que não se quer mais ficar parado. A perda falsa deste sentimento. Esse dia, eu sei, me ensinou a perder a origem com mais honestidade.

É visível: se me olho no espelho, ainda hoje, há sempre um ponto de interrogação cravado / nos meus olhos, e a imagem me perturba: não por não saber a resposta, mas / por não saber a pergunta.

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