Blog da Poesia

5 Poemas essenciais da literatura brasileira

22/04/2026 15:24 - por Tiago Vargas tiagovargas.uab@gmail.com

O blog da Poesia desta edição traz 5 poemas essenciais de nossa literatura e um brevíssimo texto sobre eles destacando sua importância e genialidade. Trata-se de obras plurais e atemporais. Poemas clássicos e indispensáveis que revelam questões humanas como amor, morte, fé, corpo, sonhos e memórias.

Motivo – Cecília Meireles

“Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.
Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.”

Este poema é quase uma ars poetica de Cecília. A autora expressa aqui sua visão essencialista da poesia como necessidade de existir. Com versos simples e harmônicos, ela revela a potência lírica da contenção e da sensibilidade.

Versos Íntimos” – Augusto dos Anjos

“Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de sua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera –
Foi tua companheira inseparável!
Acostuma-te à lama que te espera!
O homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.
Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.
Se alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!”

Com sua linguagem sombria e científica, Augusto dos Anjos criou uma poesia que mistura niilismo, transcendência e biologia. Versos Íntimos é uma espécie de testamento existencial — cruel, amargo, quase profético.

“Casamento” – Adélia Prado

“Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, que pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
Ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como “este foi difícil”
“prateou no ar dando rabanadas”
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.”

Em Casamento, Adélia projeta a poesia para dentro da casa, do corpo feminino, do cotidiano simples. Sua escrita é uma fusão entre espiritualidade, erotismo e vida doméstica. Esse poema virou referência da voz feminina na literatura brasileira.

“Mama na Teta da Mata” – Eugênia Uniflora (Jéssica Iancoski)

“quem desmata=
mata não só a mata
mata e ninguém fala
mata e o estado cala
matam a mata
matam à bala
a boca brasileira cala
a cara brasis nata
a boca branca bebe e
mama na teta da mata
a boca branca mata
e mama na teta da mata
mata e mama
na mama da mata
mama e mata
— é mamata”

Publicado no livro A Pele da Pitanga, finalista do Prêmio Jabuti 2022, este poema traz à cena a força do feminino ancestral. Com linguagem ritualística e imagética, Eugênia Uniflora evoca um Brasil que pulsa antes da colonização — onde o corpo feminino é também território sagrado. A escrita é incisiva, híbrida, marcada por oralidade, erotismo e liturgia.

“Ouvir Estrelas” – Olavo Bilac

““Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto…
E conversamos toda a noite, enquanto
A via-láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.
Direis agora: “Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?”
E eu vos direi: “Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas.”

Bilac, expoente do parnasianismo, mostra neste soneto que mesmo o racionalismo pode flertar com o sublime. O poema, metalinguístico e sonoro, questiona o papel do poeta e sua relação com o mistério e o infinito — tema caro ao simbolismo e ao pré-modernismo.]

Encontrou algum erro? Informe aqui

Faça seu login para comentar!