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Poesia palestina, Mohammed El-Kurd,

18/03/2026 09:30 - por Tiago Vargas tiagovargas.uab@gmail.com

Mohammed El-Kurd, nasceu em 15 de maio de 1998 em Jerusalém Oriental, Cisjordânia, é escritor, poeta, artista visual e estilista. Tornou-se uma das vozes palestinas mais reconhecidas internacionalmente por sua resistência contra a ocupação israelense.

Em 2021, mudou-se para Nova York para cursar o ensino superior, mas retornou a Jerusalém durante a crise daquele ano. Ao lado de sua irmã, Muna El-Kurd, liderou campanhas que ampliaram a conscientização global sobre as políticas israelenses, conquistando centenas de milhares de seguidores no Twitter e milhões no Instagram. Nesse mesmo ano, Mohammed e Muna foram incluídos na lista das “100 pessoas mais influentes do mundo” da revista TIME.

Kurd faz uso dos versos para expor as violências sofrias e o trauma da expulsão forçada de seus conterrâneos. A poesia como denúncia social.  A palavra como arma de libertação e consciência. 

EM JERUSALÉM
“Bombas ou rojões!”
Loren perguntava amiúde
com um fresco e preocupado ar americano.
E eu respondia: “Um casamento, deve ser”
ou “Ninguém se casa em dezembro”.

Após consumir Jerusalém
e ser por Jerusalém consumida:
“Bombas ou rojões?”
pergunta Loren. E um tornado risonho
nos escapa as bocas
atingido por nosso torpor
de modos fatais.

Minha mãe sempre dizia:
“Os desastres mais trágicos
são os que provocam o riso”.

MENINAS NUM CAMPO DE REFUGIADOS
Um soldado
te dá haxixe
e algemas.
Van
é o esquife da tinha espinha.
Estrada

MENINAS NUM CAMPO DE REFUGIADOS
te leva aonde levar.
Tantas prisões na jornada,
raras pombas no destino.

Tu és Damasco e
és o portão.

Nascida à beira de um alento.
À beira de um finamento,
a dor mordisca tua mãe.
Tua garganta é um minarete.
O leito hospitalar – um tapete de oração;
allahu akbar,
tua família anuncia
tua varonia
tua ruína.

O DIA É COMO MANTEIGA
Aqui se vendem crianças.

Há motivos para que os pais
raciocinem com ganância
e as mães defiram esse desfecho.
Pouco importa o preço
contanto que se vendam as crianças.
Pouco importa o que levam
no peito,
seja pesar ou perdição,
ou sóis semelhantes ao fósforo branco.

Menino vazio esta manhã.
Sua mãe o passou pelas brechas
de uma máquina de vendas.
Homens gulosos por doces enfiaram
notas de dólares na boca dele.

Ela umedece o fermento
para alimentar bicos abertos.

Aqui fome é greve, grave
alvoroço revolto.
Deus levanta de seu banco de bar
para cuidar de fiéis embriagados.
Ele agora está na TV
atrás de papos e paletós.
Anuncia uma superação,
soltando da palma das mãos
borboletas,
que entoam a derradeira canção.

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