A Benzedeira

13/01/22 às 10h00



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Judite aprendeu a benzer com a avó. Desde pequena andava atrás da velha pela casa, decorando cada palavra destinada à Santa Bárbara em dia de tempestade e escondia-se pelos cantos para escutar quando a avó benzia alguém. Aos dez anos já era capaz de benzer para acalmar os nervos, dores de dente e para quebrante. Quando moça benzia para cobreiro, olho gordo e inflamações. Nunca teve tempo de pensar nas razões pelas quais a repetição de palavras com fé era capaz de tirar das pessoas tantos males.

Sua avó morreu benzendo, contrariou a própria regra número um: nunca benzer após o pôr do sol. A chuva era tanta naquela noite que Judite entendia os motivos de Dona Santa. O que nunca entendeu foi a descarga elétrica que caiu exatamente no machado que a avó tinha nas mãos para cortar a tormenta. E agora, que Judite já se aproximava dos 70 anos, ainda tinha medo de benzer a chuva. De herança ficou o legado de fechar as portas, janelas e cortinas antes do entardecer. E não abria mais, não saía para benzer nem em caso de urgência, não antes que raiasse um novo dia.

A casa que ela vivia era a mesma da avó. A choupana torta, de madeiras envelhecidas e sem cor, quase escondida entre as árvores, localizada na periferia, não combinava com os carros de luxo constantemente estacionados em frente. Não eram só as benzeduras, mas também as simpatias que levavam dezenas de pessoas, em sua maioria mulheres, até o simples chalé de Judite.

Dinheiro ela não tinha. Benzer nunca foi uma atividade lucrativa, cada cliente deixava o valor que bem entendia. Judite sabia que aquela crendice se acabaria em breve, não eram muitas pessoas dispostas a aprender atualmente. Os jovens, com seus celulares que pareciam ter nascido colados nas mãos, não tinham interesse nenhum naquilo. As benzedeiras se acabariam com o tempo, Judite vislumbrava o mundo sem elas, e lamentava.

Ao redor do chalé cultivava as ervas necessárias às benzeduras: guiné, alecrim e arruda. A avó sempre dizia que benzer sem as ervas traria o problema da pessoa diretamente a quem benze. Por isso Judite não abria mão delas, nem das tesouras e brasas, benzer necessitava sabedoria.

Lembrava-se direitinho do dia que a avó começou a lhe ensinar claramente as benzeduras. A vida toda nunca lhe disse palavra alguma, deixou que ela decorasse sozinha, até o dia em que começou a divulgar todos os seus segredos. Judite não sabia na época, mas os benzedores só podiam passar a diante seu saber quando a morte se aproxima, afinal, quando você de fato ensina alguém, sua reza perde o efeito. Sentada em frente a choupana olhava as garotas da vizinhança voltando da escola, em breve havia de escolher uma para ensinar.

Curiosidade: O benzimento é a forma mais antiga de tratar doenças do corpo e da alma. Na Europa existe desde a Idade Média, no Brasil, desde o Século XVII.

“Ganhei de graça. De graça eu dou”. Drusiana Marisa Boff - benzedeira.

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