Blog da Poesia
7 Poemas contemporâneos
Um panorama geral sobre a produção atual
O Blog da poesia desta semana traz uma seleção de poemas lançados em livros recentes que inspiram e trazem um breve panorama da produção atual. Eis alguns deles.
Microcontos sobre a solidão de mulheres negras
Uma amiga passou seis anos sem beijar durante a
adolescência
Outra transou pela primeira vez aos 27 anos
Outra dormiu de conchinha com o cara de quem havia
acabado de levar um fora
Outra foi tratada como cachorro pela primeira mulher
que amou
Outras tantas foram pioneiras em suas vidas artísticas
e acadêmicas, mas morreram pobres e esquecidas
Outra (…)
Outra, outra, outra, outra e outra
E tantas dessas outras sou eu
E tantas dessas somos nós umas nas outras
“Desamada: Um Corpo À Espera Do Amor” (Rosa dos Tempos, 2023), de Midria
gravata para meu pai
imagina sair pra trabalhar
todo dia
com um nó na garganta?
“Todo O Resto É Muito Cedo” (Bazar do Tempo, lançamento 2024), de Luiza Mussnich
príamo
em português se diz destrua e não destroia
nem no verbo na aniquilação total
a cidade sobrevive
não conseguimos te proteger
testículos arremessados aos cães
um ancião conta drops no semáforo
sabíamos desde o começo
a) eles falam a mesma língua
b) definem o que é clássico
c) os píncaros são altos demais pra voz humana
“Também Guardamos Pedras Aqui” (Nós, 2021), de Luiza
Romão
rodagemogum vem ou não vem logo assim virá
cedo ou tarde espalhar brasa de correr
germinar refeição vir a ser forja
matagal de outra cor nunca mais cresceu
segredou ao vulcão pretovirgular
quando vir matará preço de viver
já banhei meus irmãos falta o céu quebrar
rechamei pra lembrar guerrear valeu
ogum vem ou não vem logo saberá
“Pretovírgula” (Círculo de Poemas, 2023), de Lucas Litrento
1989
infância é ganhar
uma lu patinadora
de natal e depois da ceia
quitar a dívida
no quarto de menina
uma lâmina de luz lhe cortava o rosto
e a língua na boca se movia
bruna
faz aquilo que o papai gosta.
“Ninguém Quis Ver” (Companhia das Letras, 2023), de Bruna Mitrano
Quaresma
No ano em que brinquei de ser católica
lamentei que as semanas passassem tão devagar
até o Sábado de Aleluia;
o padeiro reclamando —
ninguém mais compra pão —
a adega do mercado cheia de vinho.
Eu passava o dia faminta por algo mais que comida.
Na volta para casa a menina de que eu gostava
não abriu a boca nenhuma vez, o asfalto virando areia
a estrada se estreitando, esburacada e suja.
Dois corpos murmurando alto na noite silenciosa.
A fome aguçou o desejo
aos poucos a intenção virou cinzas na boca,
então erguemos as mãos e nos tocamos brevemente,
até que a ladainha materna
numa rua não escura o suficiente
mediu a distância entre nós.
“A Costureira Descuidada” (Círculo de Poemas, 2023), de Tjawangwa Dema
toda cicatriz é um rastro de história
perdemos: dente, roupas, melhores amigos,
filmes, aulas, tudo. e que dádiva é saber perder.
que dádiva é noticiar a presença de outro dente
nascendo ao redor da boca, ao lado da cura,
no infinito de tudo.
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