Blog do Mistério
O cemitério que não fica no chão
Existem lugares onde a morte é encarada de formas tão diferentes que parecem saídos de um livro de fantasia. Nas montanhas da ilha de Luzon, nas Filipinas, fica a pequena cidade de Sagada, conhecida mundialmente por um costume que impressiona qualquer visitante: caixões de madeira pendurados nas paredes de enormes penhascos. Não, eles não caíram ali por acidente e tampouco fazem parte de alguma instalação artística. Aquela é uma tradição centenária, preservada até hoje por parte da população local.
O costume pertence ao povo Igorot, que acredita que quanto mais alto o falecido repousar, mais próximo estará dos seus ancestrais e dos espíritos protetores. Os próprios moradores confeccionam seus caixões ainda em vida, utilizando troncos esculpidos manualmente. Quando chega o momento da despedida, familiares e amigos enfrentam uma verdadeira escalada para prender o caixão nas paredes de pedra, em locais que parecem impossíveis de alcançar. Alguns deles permanecem ali há centenas de anos, desafiando o tempo, o vento e a gravidade.
Há outro detalhe curioso que costuma surpreender os visitantes. Antes de ser colocado no caixão, o corpo não era deitado, como acontece na maior parte do mundo. Ele era cuidadosamente acomodado na posição fetal, com pernas e braços dobrados, simbolizando o retorno ao estado em que todos chegaram ao mundo. Para conseguir isso, o corpo precisava ser preparado logo após a morte, respeitando um ritual que passava de geração em geração e repercutia a ideia de que a vida e a morte fazem parte de um mesmo ciclo.
Nem todos podem receber essa homenagem. Tradicionalmente, apenas pessoas respeitadas pela comunidade, casais, idosos ou indivíduos que tiveram uma vida considerada digna alcançavam o privilégio de descansar nos penhascos. Crianças e pessoas que morreram por determinadas doenças, por exemplo, recebiam outros tipos de sepultamento. Mesmo com a chegada do cristianismo e das mudanças culturais, algumas famílias ainda mantêm viva essa tradição, enquanto outras optam pelos cemitérios convencionais.
Sagada, no entanto, guarda mais mistérios do que seus famosos caixões suspensos. A região é cercada por cavernas profundas utilizadas como antigos cemitérios, onde caixões empilhados permanecem escondidos entre as rochas há incontáveis gerações. Algumas dessas cavernas podem ser visitadas, mas os moradores pedem respeito absoluto. Fotografias em excesso, brincadeiras ou qualquer atitude desrespeitosa são vistas como uma ofensa aos antepassados, e muitos acreditam que perturbar aquele descanso pode atrair consequências nada agradáveis.
Para nós, acostumados a visitar cemitérios silenciosos, a ideia de olhar para o alto e encontrar dezenas de caixões presos a um penhasco pode parecer assustadora. Mas talvez o maior mistério de Sagada não esteja nos mortos e sim na forma como aquele povo aprendeu a conviver com eles. Enquanto muitos escondem a morte atrás de muros e lápides, os moradores daquelas montanhas fazem questão de deixá-la à vista, como um lembrete de que a passagem pela Terra é breve. E convenhamos, leitor: se algum dia você passar por aquelas trilhas e ouvir um estalo vindo da montanha... talvez seja melhor continuar caminhando sem olhar para cima.
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