Blog dos Livros

Resistência Dos Desalojados

06/02/2026 10:13 - por Mildo Fenner mildofenner@hotmail.com

O romance “Terras Submersas” (Editora Mondru, 168 páginas), livro de estreia do mineiro Lincoln de Barros, expõe  a perversidade da expropriação de comunidades inteiras em nome de grandes obras públicas. Ambientada na região da Usina Hidrelétrica  de Cana Brava, entre os municípios de Minaçu e Cavalcante (GO), a narrativa escancara  a negligência  com que moradores  e  trabalhadores  das áreas alagadas  foram tratados.

Misturando ficção e relatos reais, o autor constrói  um romance contundente  que indigna ao retratar  injustiças sociais pouco visibilizadas no país. O livro aborda uma forma agressiva de expansão capitalista recorrente no Brasil, como nos exemplos recentes  das tragédias de Mariana e Brumadinho. 

A obra nasce diretamente da trajetória  profissional do autor. Lincoln foi auditor em um processo  envolvendo a própria Hidrelétrica de Cana Brava, exercendo  função semelhante  à de seus personagens centrais.   

Dividido em nove capítulos, “Terras Submersas”  tem início com a ocupação da sede de um banco, na capital federal, pelo Movimento  dos Atingidos por Barragens (MAB). O protesto resulta na realização da auditoria, o que leva os consultores  a viajar até Goiás para apurar as denúncias do movimento. No processo, eles se deparam com a dimensão  concreta da tragédia e com o descaso  de empresas e órgãos oficiais frente aos impactos sociais e emocionais  provocados pela construção da usina. 

 Os capítulos mais arrebatadores são aqueles que dão voz direta às vítimas:  homens e mulheres que perderam suas casas, suas terras e seus meios de subsistência. Com linguagem sensível e precisa, Lincoln descreve o estado emocional dessas pessoas -uma mistura constante de esperança e desesperança- e compartilha o impacto  que essas histórias lhe causaram. 

Lincoln de Barros nasceu e vive em Belo Horizonte (MG) e, aos 78 anos, estreia na ficção após uma trajetória  profissional singular. Foi balconista de farmácia, motorista de táxi, aprendiz de ator, professor e sindicalista, entre outras experiências. Formado em Filosofia, especialista em Análise de Sistemas e mestre em  Administração Pública, atuou durante quatro décadas no setor de tecnologia da informação e comunicação, na maior parte na administração pública. 

Trecho:
“Muitos são os que lucram  com o dito progresso. Maior ainda é o número de desamparados e sem chão, dos desalojados de suas terras e de suas atividades. Entre a implacável roda da máquina do mundo e o desalento angustiado dos injustiçados estão os que apartam, mediam e tentam minimizar  os efeitos perversos da tragédia.”
(Trecho do texto de orelha do livro, assinado pelo escritor João Novais)

SUGESTÕES PARA O VERÃO
Jornal O Globo selecionou nove livros cheios de sol, calor e tempestade como sugestão  para ler nas férias de verão. São eles: O estrangeiro, de Albert Camus; A filha perdida, de Elena Ferrante; A dama e o cachorrinho, de Anton Tchekhov; O sol na cabeça, de Geovani Martins;  Uma noite com Sabrina Love, de Pedro Mairal;  O colibri, de Sandro Veronesi; Esboço, de Rachel Cusk;  Tarde no planeta, de Leonardo Piana; e Crime e Castigo, de Fiodor Dostoiévski.

PRÊMIO LEYA
Até   30    de    abril  encontram-se   abertas    as 
inscrições  para o Prêmio Leya 2026. Além de prêmio em dinheiro, o vencedor terá  contrato de edição pelo prazo de dez anos.  Os originais  no gênero romance em Língua Portuguesa devem ser inscritos na plataforma da Editora Leya e devem ter um mínimo de 200 mil caracteres.

Leituras:
“Na literatura,  assim como  no   amor,   sempre  somos surpreendidos pelas escolhas dos outros.”
-André Maurois (26 de julho de 1885/9 de outubro de 1967),  romancista e  ensaísta francês,  conhecido por suas biografias em forma de romances.

Destaques:

CINCO PEDRINHAS


Autora:
Ana  Paula Mira

Ana Paula Mira  transporta o leitor para uma casa contornada  por um rio, onde a pequena Lete escuta os sons noturnos e sonha em encontrar uma sereia. No dia seguinte, entre pedras coloridas e  castelos  de areia, a menina  mergulha em um diálogo imaginário com a figura lendária enquanto sua mãe lhe ensina um jogo apreendido com a avó. A prosa poética  convida  à reflexão sobre a passagem do tempo e o desaparecimento de certas tradições. O livro possui encadernação  costurada manualmente e aplicação de detalhe transparente em papel vegetal no miolo.
Editora Arpillera. 45 páginas.

O  VESTIDO DE POÁ LAVANDA


Autora:
Márcia Mendes

A autora conduz o leitor  por uma narrativa que reflete  sobre o tempo, a partir da amizade  entre uma agulha e  uma linha. A costureira dona Trim confecciona  um vestido especial para a jovem Luena, enquanto sua filha, Zola, observa curiosa e aprende sobre a vida através das conversas e dos ensinamentos maternos. O livro é ilustrado por David Holanda, possui encadernação costurada manualmente, recorte na capa e aplicação de tecido na folha de rosto.
Editora  Arpillera. 35 páginas.

(As obras mencionadas  no Blog dos Livros podem ser encontradas na Revistaria e Livraria Nascente, localizada na Rua Saldanha Marinho, 1423, Cachoeira do Sul)

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