Acésar Veiga

23/02/22 às 08h30



Acésar Veiga nasceu em Porto Alegre em 1955. É professor de Química pós graduado. Tem livros na área de mobilidade urbana. Publicou textos em diversos jornais e revistas. Gente do meu bairro é seu primeiro livro de crônicas. Trata-se de uma compilação de escritos em que a cidade de Porto Alegre aparece focada no bairro Tristeza. Espécie de micromundo. Um registro histórico e peculiar da urbe. Crônicas reais descritas de modo subjetivo, reflexões atentas, sagazes e instigantes pela ótica lúcida e perspicaz de Veiga. Mais do que um tradicional livro do gênero, Gente do meu Bairro é um registro histórico, testemunho sui generis de uma época e de um lugar. Com humor e aguçada ironia o autor transforma seus personagens em pessoas que gostaríamos de conhecer. Em Gente do meu bairro tudo está nítido, explicito. Arquitetado em uma linguagem despojada que costura o cinema da saudade. Ficção, memórias e biografia em comunhão. 

PIPOCA
Zaqueirão estilo limpador de área, que afastava a pelota para a direção de menor perigo quando esse era eminente, muita impulsão para o cabeceio viril – estou falando futebolisticamente - e rebatedor maravilhoso.

Sempre que possível como foguete abandonava o solo – devido a plasticidade que a acrobacia exige - e lá seus pés alcançavam altura admirável prontos para executar a famigerada “bicicleta”. 

OBS: “bicicleta”, é um movimento realizado no futebol. É o momento em que o jogador inclina o seu corpo para trás no ar, ao mesmo tempo em que se apoia com uma das pernas e coloca a outra acima da região da cabeça com o objetivo de acertar a bola em um lançamento aéreo, sem que o atleta encoste as costas no chão. Sua complexidade e seu uso incomum em partidas de futebol fazem com que a “bicicleta” seja uma das mais célebres habilidades avançadas do esporte – raros fazem com mestria.

POETA OPERÁRIO
Um componente da família Rodrigues era o verdadeiro poeta operário. Ele poderia ser só isso, e muito mais se assim desejasse, mas uma coisa é inegável; nasceu para conquistar mulheres! Um servente de obra daqueles de mão cheia – literalmente -, e um especialista sedento que a qualquer momento desejava botar a mão na argamassa feminina.

Certa vez no Armazém do Adail para a moça que o atendeu - não se contendo -, com ar maroto e em bom tom balbuciou:

- Você é a areia do meu cimento!

OBS: Teve que sair correndo ao descobrir que o alvo, nada mais era que a filha do dono do estabelecimento, que sorrateiramente se aproximava com um martelo novinho em folha. 

No Bar dos irmãos Cadila já era conhecido. Sempre que a atendente trazia o lanche, lá se ouvia o poema:

- Suspende as fritas... O filé já chegou! 


MEANDROS DO MEU PASSADO
Conquistei bravura e disse não ao Chopp. Raro privilégio, mas também difícil decisão, principalmente quando o tema envolve ex-colegas do Colégio Padre Réus. Santo Deus - penso as vezes -, para onde foram estes 45 e tantos anos? Será que estão em viagem exploratória pelos meandros do meu passado? 

Querendo desenfreadamente acabar com aquele longo jejum pós-formatura, resolvemos nos reencontrar em um barzinho tradicional do nosso inesquecível bairro. Isto pelo motivo de que era crucial ter pano de fundo para o evento. E assim, no horário marcado, lá estávamos. 

Notei que alguns olharam estranhamente quando entrei - confesso que acolhi aquele sentimento. Similar ao de um alienígena que desembarca do seu disco voador em planetas distantes. Mas tudo bem, todos mudamos um pouco daqueles tempos para cá. 

À medida que outros chegavam mesas e cadeiras foram arrumadas para acomodar a “tropa” já idosa. Risos, abraços, comentários amenos e aquela surra gostosa de matar saudades. Bem, chega do óbvio, e aproveito para dizer uma frase que é de minha predileção, e que cabe neste desenrolar da história. Beber, é o processo pelo qual comemos líquidos. 

Imaginam o porquê digo isso?  estávamos todos com muito apetite. Fome que os líquidos fossem garganta abaixo sem qualquer tratamento prévio. E assim, quando já cansados do blá-blá-blá, ouço um grito salvador: - Viemos aqui para beber ou para conversar?


GATURAMOS NO SÉTIMO CÉU
Mas quem era ele de fato? Será quem dizia ser? E existe alguma evidência que comprove seu comportamento misterioso? 

Um homem tímido e de fala mansa que de lembrancinha tinha ainda na cabeça, uma bala calibre 38 - uma recordação terrível do bar “Ringue Doze” na rua Padre Reus. Fazia 32 anos que morava no bairro Tristeza. Gostava de questionar publicamente – acredito, para provocar polêmica - se “Jesus” era realmente o Filho único de Deus. Certa vez no barzinho Tristeza Antiga – do Paulinho Macaco – escutei esse discurso sedutor em um sábado à noite: 

- Mas que testemunhos oculares possuímos? Será que temos a comprovação de alguém que viveu com Jesus, que ouviu seus ensinamentos, presenciou seus milagres, testemunhou sua morte e que, talvez, tenha se encontrado com ele após sua alegada ressurreição?

Há algum registro de "jornalistas" da época que tenham entrevistado pessoas, fazendo perguntas difíceis e registrando escrupulosamente o que consideraram ser verdadeiro?

E, não menos importante, em que medida esses relatos passariam “são e salvo” pela investigação dos que duvidam de tudo?”

Eu sabia que era muito inteligente apesar de nunca ter encerrado o curso primário. Na verdade, até mesmo sua aparência encaixava-se no estereótipo do intelectual. Alto (1,80 m), magro, cabelos castanhos curtos, ondulados e penteados muito à vontade para a frente, barba crespa e óculos de lentes grossas, sem armação significativa.

Ele parecia o tipo que – se continuasse os estudos -, seria o primeiro da classe no colégio; digno da premiação concedida aos estudantes que mais se destacam em comportamento e nota, e que sem dúvida na formatura receberia com louvor a conclusão do último ano do Científico.

Sua mãe dizia que era uma pessoa com bastante lucidez, mas confesso que fiquei com dúvidas, principalmente quando, em uma conversa, disse algo muito inquietante sobre ele, que eu preferiria ter deixado encoberto: garantiu que ainda tinha esperanças de estar vivo quando seu querido clube amador do coração, o Otto Niemeyer – do saudoso Dr. Rubem Baldo -, conquistasse o campeonato da cidade de Porto Alegre. Para falar a verdade, isso era o quanto bastava para que “eu” não confiasse muito em seu discernimento. Como era de esperar, seu quarto transbordava de livros empilhados pelas estantes. Até debaixo dos travesseiros ele tinha livros amontoados. 

Ainda assim, observei imediatamente que nas paredes não predominavam livros empoeirados antigos, e sim trabalhos artísticos feitos por sua vó. “Vovozinha do céu”; como se dirigia a anciã.

Eram pinturas extravagantes e coloridas de matagais, ruas e paisagens que tinham sido penduradas na parede não por acidente, e sim como agrado familiar. Evidentemente ele as tratava como se fossem obras de pintores renomados realizadas com muito amor, por isso foram emoldurados com cuidado, autografados e com dizeres amorosos que toda vó usa como praxe. Não há dúvida, pensei comigo, que esse ser humano não é só cérebro, ele também tem coração.

Certa tarde ele se acomodou em um sofá já arruinado pelo tempo com uma xícara de café na mão, e eu também, para espantarmos o frio daquele inverno de julho. Deduzi que ele era tipo de pessoa que não gostava de rodeios, então decidi começar minha conversa indo diretamente ao que interessava.

- Por favor — eu disse com uma ponta de desafio na voz —, é possível ser inteligente e crítico e ainda assim acreditar que o time de futsal do Tristezense é melhor que do Bandeirantes?

Ele pousou a xícara na ponta da escrivaninha e olhou firmemente para mim.

— A resposta é sim; disse convicto, recostando-se confortavelmente no sofá com ar de triunfo.

Após, acariciou a barba e fitou o teto por alguns momentos enquanto refletia sobre a pergunta. Como alguém que fazia afirmações audaciosas sobre esportes do bairro.  Aquela afirmação me chegou como flechas. Não deveriam, mas me atingiram. E cortando os fios da educação complementou:

- Olha César, aqueles caras do Bandeirantes jogam como meninos que ganharam sua primeira “bola de couro”. A mim não passam de pernas de pau. E mandou mais aquele baita gole de café para o bucho. 
Depois, olhou bem fixo nos meus olhos e finalizou:

- É com pesar meu amigo, mas tenho que dizer: aquele pessoal do time de futsal do Bandeirantes, são capazes de rolar pelo chão e bater a cabeça contra as paredes sem que, curiosamente não surjam galos; mas há uma coisa que eles são, e não posso negar: são ótimos em pegar gaturamos no sétimo céu! Levantou do sofá e foi tirar soneca.

OBS: gaturamo é uma pequena ave que canta de maneira muito agradável, bem presente na região do Morro do Osso.

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O APIÁRIO
Por ACésarVeiga

Os irmãos “Pereira” moravam próximos ao campo do Tristezense, porém tinham um “apiário” na Praia dos Cachimbos - cerca de 1 quilômetro de onde residiam e todos muito apaixonados por esses insetos voadores.

(inclusive o “tio Dino” ajudava nos cuidados necessários do local)

OBS: “apiário” é o nome do espaço onde estão instaladas as colmeias para a criação.

Existem muitas espécies de abelhas, e na praia dos Cachimbos residia aquela espécie social com ferrão e que produz mel.

(era a tal de abelha africanizada, conhecida no meio científico como “Apis melífera” - muito comum nos matos do bairro)

Certa vez “tio Dino” foi brindado com 10 ferroadas - os ferrões ficaram presos à sua testa - com os venenos sendo gradativamente injetados no corpo.

Como estava sozinho os ferrões não foram retirados rapidamente.

(procedimento usualmente realizado pelo “tio Dino” que raspava o local com uma faca ou canivete)

Cabe salientar que “ele” nunca tentava tirar o ferrão com os dedos, pois nesse caso havia o risco de injetar o resto do veneno no local picado.

Sabe-se que a tolerância das pessoas à dose do veneno da abelha varia bastante. Há o caso de um dos “Pereira” que recebeu mais de 100 ferroadas e não apresentou sintomas graves – simplesmente ganhou aumento do número de evacuações e a diminuição da consistência das fezes.

Entretanto “tio Dino” era muito alérgico e poderia ter morrido com uma única ferroada, se não fosse socorrido com algum antídoto a tempo...

...e não foi.

Por sorte um pessoal que estava estourando umas “bauras” coletivas nas proximidades

correram na direção do “tio Dino” e jorraram aquela fumaça proibitiva

diretamente sobre o corpo do quase “moribundo”.

(foi salvo pelo “gongo”; ou melhor dizendo, pela “baura”)

OBS: “baura” também é conhecida como maconha, bagulho, baseado, fininho, marijuana...

“tio Dino” faleceu anos depois em agosto de 1978 – de causas naturais -, mas estranhamente em seu funeral ocorreu algo inusitada – deixando a todos surpresas -, pois apareceram dezenas de milhares de abelhas do nada.

(e todas voando em círculos na entrada do cemitério da Liberal – chegaram fazer sombra no chão)

As que “fabricam mel” permaneceram lá por dias

antes de sumirem do local...

Contam que um morador das proximidades – vizinho do “Nelson batom” -, tirou fotografia das abelhas...

...estavam pousadas em uma árvore próxima onde o saudoso “tio Dino” foi depositado.

Ahá!...

...e ninguém foi picado em momento algum.

(tenho visto coisas!)

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