Milton Avena Rauber

25/05/22 às 08h40 - por Tiago Vargas



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Milton Avena Rauber é cachoeirense nascido em 1962 e formado em Jornalismo em 1984. Trabalhou em diários importantes como Zero Hora, Diário Catarinense, Correio do Povo e Jornal do Brasil, entre outros ... Acadêmico correspondente da ACL, Avena Rauber também é formado em Letras pela Ulbra e Especialista em Literatura Brasileira pela UFRGS. Sua poesia é peculiar. Tem pulsão. Vigorosa e extremamente inteligente. Genuinamente minuciosa. Disfarçadamente sagaz. Poesia madura. Sui generis. Marambaia, entretanto, é o seu romance de estreia no gênero literário. Inspirado em fatos reais, trata-se de uma publicação em que as histórias afluem ao curso principal e essencial da vida. Os temas são contemporâneos. Urgentes. Pequenos embates do cotidiano. Existenciais. Seu lançamento em Cachoeira do Sul será no dia 27 de maio, às 18 horas no Viveiro Cultural
O livro pode ser adquirido pelo site da Editora Buqui ou pela Amazon Livros 

Destino
as flores 
são borboletas 
cansadas
cumprindo em parte
seu plano cosmético
e o pior é que elas sabem disso. 

Interior
a janela 
do interior
se debruça
no seio da mulher gorda
nos vai e vem 
dos olhos da janela
nada se perde
se ouve tudo
tudo se transforma.

Receita
tem que deixar um bilhete debaixo da porta
e um laço de fita pendurado nela
para ser aquela
tem que ter falsete
esse suspiro e se fazer bonita
tem que botar vermelho e cor de rosa
ficar manhosa
na frente do espelho
e trazer um disco de presente
pra ser aquela tem que ser somente
sentir ciúmes,
bater pé,
fazer beicinho.
Tem que fazer patê com tempero verde
e cantar
pra ser aquela tem que falar de amor
ter cor
ser alegre, corajosa, violenta, passional
ser natural, positiva, ruidosa, ativa
e explosiva
silenciosa
ser malandra, temporária
ser de tudo por saber a hora certa
tem que ser aberta,
um pouco revolucionaria. 
pra ser aquela tem que dar jeitinho
ter jogo de cintura
e jogar confete
fazer omelete,
encher a casa de lírios,
cheiro bravo
botar canela no arroz de leite
trazer uns cravos
crisântemos 
pra ser aquela tem que fazer surpresa
botar a mesa com vela
botar banca
deixar recado
cheiro,
lençol molhado
trazer o sol nas mãos, 
ser o próprio fogo
tem que saber as senhas
abrir o jogo
dançar na chuva
andar de luva
ser uma dama
correr na grama
cair sentada
morrer de rir
tem que fazer cena
e ser artista
palhaça, princesa e malabarista
tem que ser serena, fazer pirraça
e depois fugir
e então voltar com cara de criança arteira
toda manhosa, desprotegida.
trancando a saída
fazendo barreiras
desmoronando muralhas 
vencendo distâncias
gritando aos ventos
eternizando momentos
dilacerando as entranhas
pra ser aquela não pode usar muletas
lâminas afiadas, 
guerras, dissabores, ódios e rancores
medos, pequenos alfinetes. 
mentiras não reveladas
correntes, egoísmo, linha de posse. 
pra ser aquela tem que ter a lua na face
andar de boneca na rua
plantar coentro, alface, 
plantar calma
fazer um caldo de ervilha no inverno
no verão andar bem nua
tem que achar a trilha
abrir os caminhos
tecer atalhos
e ninhos
aconchegantes e carinhos
alimentar os pombos,
mudar os móveis
mudar o mundo
ser feliz
e mergulhar nos astros,
nos signos, 
nos ritmos dos hemisférios
criar dialéticas, mistérios
fazer biorritmos e cabala
pra ser aquela não basta ter vida
tem que saber reinventá-la. 

Agonia
quando bate meio dia
no bafo deste dia quente
a gente sente uma agonia
que mesma que a vida
se pareça morta 
que nem mosca aquela mosca na cozinha
paralisada e sozinha
na tela esfumaçada na porta.

Meticulosamente
o fio da escrita se desenrola
as linhas tecendo
delicada rede
a teia fica
suspensa na página
à espera
de repente
você cai
na armadilha
presa de um
significado.
Fui perdendo
pelo caminho
devagar e amiúde
meus mais caros
e preciosos
ornamentos
Sem o brilho
ofuscante
das aparências
não posso mais esconder
(nem mesmo de mim)
a simplicidade
que me enfeita
por dentro.

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Ainda ontem
no esquecimento dos tempos
bendisse a guerra
invadi, escravizei, destruí
fortalezas, cidadelas, templos de ouro
ou mármore ou barro
desprezando seus deuses
estranhos
Sob os escombros
do que fui
(e ainda sou) lá atrás
o animal agonizante
murmura, agora,
paz

SOBRE MARAMBAIA
Marambaia, primeiro romance publicado pelo autor, é uma narrativa livremente inspirada em fatos reais do Sul do Brasil. Na cidade imaginária de Santa Bárbara da Vigília, no limite entre o Vale do Jacuí e a Serra das Encantadas, os dramas individuais dos personagens são tecidos sobre o plano público, ou histórico, quando a comunidade é alvo de um projeto de construção de uma barragem de usina hidrelétrica no pequeno rio Marambaia, que corta a área interiorana de Mangueira Grande, habitada por descendentes de velhas oligarquias rurais. Personagens intensos rasgam o cotidiano, enaltecem suas (nossas) raízes, sofrem com mitos e preconceitos, respiram memórias e incertezas quanto ao futuro, resistem às relações de poder historicamente cristalizadas, enquanto lutam, também, com seus próprios demônios.

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