Nei Duclós

Nei Duclós nasceu em Uruguaiana em outubro de 1948. Trata-se de um historiador, jornalista, poeta e escritor. Trabalhou nos mais importantes e renomados meios de comunicação do país.  Na literatura é autor de 17 livros, entre impressos e E-BOOKS, nos gêneros mais distintos, entre os quais, crônica, conto, ensaio, memória e poesia. Duclós começou a expor seus textos em 1969 quando, junto com outros autores colavam poemas escritos em cartazes em árvores nas praças de Porto Alegre. Em 1976 publicou seu primeiro livro, intitulado de’’ Outubro’’. “No meio da rua’’, sua publicação seguinte teve prefácio assinado por Mário Quintana, “O refúgio do Príncipe – Histórias sopradas pelo vento’’ e “No mar veremos’’, são outras obras significativas do autor. Como característica seus versos refletem uma ironia à la Walt Wiltman. Esboçam um cenário escuro, repleto de cinismo e sarcasmo, ruídos do universo político e social.  Perfeita justaposição de imagem e palavra. Poeta peremptório, insurgente. Atemporal.

LETRA
Talvez
escrevendo
alguma coisa amanheça
Talvez
o poema
desperte o pássaro
Talvez
a palavra
te incendeie
Talvez
a sílaba
grite
Talvez
a letra
crua
Talvez
soletrando
amor a noite se despeça
Nei Duclós

Carta ao companheiro exilado
Aqui, o sol obstinado
ainda banha a folhagem
a chuva nos visita
e deixa o arco-íris quando parte
As cores da saudade
abriram a palma
de nossa mão pálida
e a vontade de buscar-te
soltou-se como um raio
Descobrimos que era muito tarde
Agora, que a madrugada se acaba
e o sol nos dá na cara
não sabemos o que fazer
com esta ressaca
Batem nas portas e revistam roupas e pacotes
Estamos na praia do naufrágio
Do mar vieram boiando coisas mortas
entre elas
nossos sonhos e emboscadas 
Nei Duclós

Cais
O passageiro não perde a vez de partir
e parte
pois é tarde
Este cais apodreceu as cordas
que soltam a sua carne
Os bares silenciam
a memória é uma cadeira que ringe
como um cofre de vime
(o que passou não é sonho
é desafio)
De pé, a mão na vista
ele toca o horizonte com a saliva
Sua boca guarda um aviso
(o tempo é um susto, uma víbora)
Nei Duclós

naufrágio 
vai tu
exilado de chumbo
dentre os acorrentados
refúgio de sonhos
ilha sinistra
dos desesperançados
miragem distante
horizonte errante
na brasa que queima no fundo
desse mar destroçado
Paulo Jorge

CORRENTEZA
As águas de março
são águas passadas,
perdidas como as matas
onde cantavam os sabiás
O riacho foge para o rio,
O rio para o mar,
E o mar?
Morre lentamente
Com água na boca.
Marion Cruz

Não importa
Não importa os tempos idos
Não importa os sofrimentos 
Importante foi você, o barulho da chuva, o filme na tv...
Não importa os dias tristes
Não importa a falta de grana
Importante foram os amigos, o emprego escolhido, a alegria das crianças
Não importa as caras feias, as pessoas difíceis.
Importante foram os banhos de cachoeira, o churrasco no fim de semana, a cerveja, o refrigerante.
Não importa nosso adeus
O importante foi o beijo na boca, nossa música preferida, nossa foto no porta retrato.
Não importa as perdas
O importante foram as risadas que deixamos como pegadas.
Não importa o mal, o ódio
O importante é o amor, responsável pelos eternos casamentos nos fins de semana.
Não importa a partida
O importante é que foi nos permitido chegar.
Diva Helena Melo de Souza

Não Morras Tu
Quando alguém que amamos desce à sepultura, não desce sozinho, encerra consigo conversas, confissões, cumplicidades, paisagens compostas por nossas vidas em movimento. E isso não é apenas um fato, mas uma história reticente, uma sequência de impossibilidades e incertezas futuras. E, mesmo reconhecendo o quanto somos sensíveis à morte, o desejo de enganar o tempo nascerá, renascerá para que possamos permanecer muito além de um leito no qual seu corpo repousará.
Tereza Duzai


OFERTA D'ÁGUA 
Eu venho de uma terra
que exporta água 
sem economia,
num comboio 
líquido contínuo. 
Digo isso para contar 
quem nem só de vento
são os meus moinhos.
Robson Alves Soares

Ousadia de Bukowski
Os ponteiros grunhindo no silêncio
O fogão limpo 
Há uma ousadia de Bukowski em mim
Um pássaro azul grande e com medo aqui dentro
As asas cortadas sangrando 
Uma gota de sangue fresca no chão
Há solidão nisso
Cigarros na gaveta e umas bebidas na geladeira
Uma cama estendida e um corpo mecanizado
Entediado pelas duas da manhã
A alma no cio das dores
E uma mente trabalhando cansada
Algo me perturba conjugar o verbo
Escravizar-me pela rotina é preciso
E assim eu sigo maltratando este pobrezinho que quer voar
Ser livre e eu também 
E ficamos nos fazendo companhia.
Talita Cristino

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