Blog Da Poesia

A poesia Beat

03/08/2022 09:00 - por Tiago Vargas

A geração beat foi fundamental para a literatura dos anos 50-60, tendo como característica principal um tipo de escrita espontânea, direta e de não-conformismo (outro traço preponderante era o fluxo de pensamentos desordenados, por vezes caóticos).

Representante da contracultura e inspirada nos princípios budistas, a poesia urbana retratada pelos poetas anarquistas/rebeldes românticos abusavam  da linguagem informal, repleta de neologismos, gírias e palavrões.

Os beats foram os primeiros a irem contra o materialismo, a intolerância e ao desrespeito aos direitos civis. Experimentações com drogas, álcool e o interesse em estilos de músicas até então marginalizados, como o jazz, moviam os poetas lunáticos, nômades e libertários em seus processos criativos. Outra peculiaridade eram as viagens constantes.

On the Road de Jack Kerouac foi o marco do movimento. Outras obras e autores relevantes foram O Uivo de Allen Ginsberg e o Almoço Nu, de William Burroughs. Charles Bukowski (este não se entitulava beat nem se auto inseria em qualquer movimento, ainda que sua poesia apresentasse atributos peculiares) e Neal Cassady também foram nomes  importantes da referida literatura.

A revolução na linguagem e nos costumes  afetou outras áreas da cultura, influenciando diretores de cinema como Wim Wenders e cantores/músicos/compositores como Jim Morrison, Lou Reed e o mais recente Nobel de literatura Bob Dylan. Posteriormente seus ecos também puderam ser vistos na estética hippie e punk. No Brasil seus maiores expoentes foram Claudio Willer e Roberto Piva.

A densidade da obra beat é tão forte que ao passar do tempo pode ser tomada com símbolo e referência; no BLOG DA POESIA desta semana, poetas cachoeirenses fazem menção em seus escritos ao movimento que foi responsável por tirar a poesia dos sisudos e modorrentos gabinetes e a botaram-a na rua, tornando-a viva. Para os vivos. Definitivamente.
 

Clássicos da literatura Beat

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Uivo
Eu vi os expoentes de minha geração destruídos pela loucura,
morrendo de fome, histéricos, nus,
arrastando-se pelas ruas do bairro negro de madrugada em busca
de uma dose violenta de qualquer coisa,
"hipsters" com cabeça de anjo ansiando pelo antigo contato
celestial com o dínamo estrelado da maquinaria da noite,
que pobres, esfarrapados e olheiras fundas, viajaram fumando
sentados na sobrenatural escuridão dos miseráveis aparta-   
mentos sem água quente, flutuando sobre os tetos das   
cidades contemplando  jazz ...
(Trecho de “O uivo’’.)
Allen Ginsberg


Alguns filmes sobre a geração beat:
Versos de um crime (2013), Na estrada (2010), Big Sur (2013), Uivo (2010), os beatniks (1980), Drugstory Cowboys (1989)

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On the road- Na estrada

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Versos de um crime

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Allen  Ginsberg

Canção 
O peso do mundo
é o amor.
Sob o fardo
da solidão,
sob o fardo
da insatisfação 
o peso
o peso que carregamos
é o amor.
Quem poderia negá-lo?
Em sonhos
nos toca
o corpo,
em pensamentos
constrói
um milagre,
na imaginação
aflige-se
até tornar-se
humano -
sai para fora do coração
ardendo de pureza -
pois o fardo da vida
é o amor,
mas nós carregamos o peso
cansados
e assim temos que descansar
nos braços do amor
finalmente
temos que descansar nos braços
do amor.
Nenhum descanso
sem amor,
nenhum sono
sem sonhos
de amor -
quer esteja eu louco ou frio,
obcecado por anjos
ou por máquinas,
o último desejo
é o amor
- não pode ser amargo
não pode ser negado
não pode ser contigo
quando negado:
o peso é demasiado
- deve dar-se
sem nada de volta
assim como o pensamento
é dado
na solidão
em toda a excelência
do seu excesso.
Os corpos quentes
brilham juntos
na escuridão,
a mão se move
para o centro
da carne,
a pele treme
na felicidade
e a alma sobe
feliz até o olho -
sim, sim,
é isso que
eu queria,
eu sempre quis,
eu sempre quis
voltar
ao corpo
em que nasci.
Allen Ginsberg

Inútil, inútil
a forte chuva
mergulha no mar.
Jack Kerouac 

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Imagem: Jack Kerouac

Em meu armário de remédios
a mosca do inverno
Morreu de velhice
Jack Kerouac

O dia todo usando
um chapéu que não estava
Na minha cabeça
Jack Kerouac

VULCÃO (fragmento)
II 

O grande círculo aproxima-se 
e aí você não entenderá mais nada 
sobrarão algumas perguntas para serem feitas 
um certo desequilíbrio 
verde verde verde 
outro tempo
aproximadamente ontem/agora 
fábulas
exorcismo 
antemanhã 
fantasma de bronze 
cantos perpétuos 
sobrenadando a madrugada 
então ninguém conseguirá entender mais nada 
uma sortida temerária 
libélulas 
traços sem destino na curva dos dentes 
Claudio Willer

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Foto: Claudio Willer

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A ALMA DO HOMEM
Já é noite...
Todos dormem
Todos sonham
E o homem sem alma anda
Ele bebe e se embriaga...
... Ele chora...
... E vai embora.
Já é noite...
Todos amam
Todos se apaixonam
E o homem sem alma fuma
Ele pensa e se cala...
... Ele chora...
... E vai embora.
Já é noite...
Jorge Ritter

Hai cai na cena beat
Somos dois beatniks:
Aura e alma de armazém
Com gestos de butique.
Mauro Ulrich

Kerouac
No papel em branco da tua vista
Na taça de vinho derramado
No gancho do teu nariz tresloucado
Na visão estreita de alguns pares
A estrada é uma janela aberta
Entre Kansas e o Chuí
Pisando o pó da civilização
Não preciso de putrificação
A celebração jamais vai ter fim
O fim e o meio se confundem
A volta é longa e profunda
E os teus versos estão por aí
A estrada é uma veia aberta
Entre New Orleans e aqui
Pisando com sapatos rotos
E esfarrapados
Na chuva abençoada por ti.
Teton Beat

APOCALIPSE
Quando chegar a hora
O céu se rasgará
E de todos os cantos
Do planeta será  visto.
A cena chegará
E anunciará o fim...
O mar tragará a terra
Engolindo os gritos
E o sol rodopiando
Mergulhará no infinito.
As trevas abraçarão o globo e
A lua, noiva solitária.
Vagará sem rumo
Atrás de nova estrela.
Os ventos alimentarão
O fogo num bailado sem ritmo
Que irá se consumindo...
Então um anjo coxo
Saído de não sei onde
Estenderá uma faixa:
THE END.
Félix  Korberg

Ousadia de Bukowski
Os ponteiros grunhindo no silêncio
O fogão limpo 
Há uma ousadia de Bukowski em mim
Um pássaro azul grande e com medo aqui dentro
As asas cortadas sangrando 
Uma gota de sangue fresca no chão
Há solidão nisso
Cigarros na gaveta e umas bebidas na geladeira
Uma cama estendida e um corpo mecanizado
Entediado pelas duas da manhã
A alma no cio das dores
E uma mente trabalhando cansada
Algo me perturba conjugar o verbo
Escravizar-me pela rotina é preciso
E assim eu sigo maltratando este pobrezinho que quer voar
Ser livre e eu também 
E ficamos nos fazendo companhia.
Talita Cristino

O arco-íris
é o colar do feiticeiro
que apaga o dia
com a mão direita
& inaugura a noite
com a mão esquerda
Roberto Piva

D’eus
Quem tem preguiça de procurar deus vai a igreja...
Cada um tem a sua própria aproximação de natureza divina
É um sentimento e não um ser, e nunca uma conduta linear
Deus é o impulso da natureza
A árvore que se ramifica muito acima da terra à procura do sol
Sofre do mesmo pulsar que o ser humano com a sua ambição insaciável
Ambição deturpada muitas vezes, mas ainda assim dádiva
É a sede de aprender, de observar, é a capacidade de criar
Nós somos a mão ativa desse impulso criador
Observando com a alma nua, somos capazes de conectarmos com o todo e desfrutar de nós mesmos e de tudo que vive e que inspira
Nós somos moldadores da argila do mundo, somos o resultado final de um instinto inquieto, manifestado em todas as formas de vida
Basta silenciar as ilusões 
Conhecer a si mesmo é conhecer Deus
Iuri V.F. Lima

Cores
Todas as aparências
Parecem pequenas
Todas as transparências
Refletem cores
Todos os sorrisos
Atravessam o tédio
Todos os lábios
Beijam minha boca
Todas as esteadas
Nos levam a nada
Todas as luzes
Iluminam meu destino
Todas as paixões
Transgridem a razão
Todo universo
Cabe em meu coração faceiro 
E ritmado como nos compassos
Das canções de Bob Dylan,
“Todos os meus caminhos foram livremente 
Desenhados na palma da minha mão’’.
Jorge Ritter

Sonhos
Tênues linhas
Que nos ligam
Ao útero celestial
Quando bons
Refletem um
Límpido manancial
De sabedoria.
Félix Korberg

Síndrome de Wolverine
Uma nova ordem perpétua na minha mente
Uma fonte uma leveza uma adjacência 
Seria uma fuga para o precipício 
Seria um futuro imprevisível 
Uma nova síndrome revelada em cobaias
A fúria de uma vida iconoclasta
Um ser verdadeiro intransponível 
Uma punição para os idiotas
Mistura sensações em meu corpo armado
Admito usar alguma coisa
Um artifício uma fuga para o precipício 
Uma síndrome  de ódio reticente
Comprimidos novos para emoções animadas
Miligramas medidas para síndrome aliviadas
Estagnação compacta verbo censurado
Uma punição para os vertebrados.
Teton Beat

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23/11/2022 09:23

Sérgio Lezama

16/11/2022 13:31

Mário de Sá Carneiro

02/11/2022 08:42

Antero de Quental

26/10/2022 09:07

Mário Faustino

19/10/2022 10:49

Dércio Braúna

12/10/2022 09:31

Florbela Espanca

05/10/2022 09:27

Maria Teresa Horta

28/09/2022 08:51

Federico García Lorca

21/09/2022 13:33

Conceição Evaristo

14/09/2022 11:29

Poesia Concreta

07/09/2022 08:45

Ana Elisa Ribeiro