Blog Da Poesia

Os poetas malditos e o simbolismo

19/06/2024 10:05 - por Tiago Vargas

Foi Alfred de Vigny quem primeiro utilizou a expressão poetas malditos, na peça Stello em 1832. O termo acabou por se popularizar quando Paul Verlaine publicou a antologia Les poètes maudits - a primeira (1884), com poemas de Arthur Rimbaud, Tristan, Corbière e Stéphane Mallarmé;

Todos esses poetas foram fundamentais para alicerçar a poesia contemporânea.

No entanto, Mallarmé e Verlaine entraram para a história como fundadores do Simbolismo, movimento artístico e literário, que nasceu como reação ao materialismo, rejeitando os preceitos e dogmas presentes nas escolas literárias anteriores, como o realismo e o romantismo.

Mallarmé
Mallarmé desempenhou um papel fundamental na evolução da literatura no século XX, especialmente nas tendências futuristas e dadaístas. Todos os seus poemas são verdadeiras tentativas de esgotar as formas poéticas tradicionais. O poema Un coup de dès jamais n'abolira le hasard rompeu com as estruturas tradicionais da poesia, escrito em caracteres variados, ao longo do espaço de uma página dupla.

As inovações deste texto exerceram uma poderosa influência sobre as vanguardas literárias do século XX, especialmente pela função expressiva que atribui à utilização dos espaços em branco e pelos tipos escolhidos para a impressão, acabando por configurar, pela primeira vez, o que se veio a chamar sintaxe gráfico-visual. 

Paul Verlaine
Fez amizade com vários poetas e passava os seus dias em longas conversas, bebendo absinto. O pai, desgostoso com este estilo de vida, deixou de lhe dar dinheiro. Em 1866, publicou o seu primeiro livro, Les Poèmes Saturniens, grandemente influenciado por Baudelaire. Casou em 1870, mas, um ano depois, apaixonou-se pelo poeta Arthur Rimbaud. 

Em 1873, após uma discussão com o amante, tentou dar-lhe um tiro e acabou por ser preso durante 18 meses. Na prisão, estudou William Shakespeare e a obra Dom Quixote de la Mancha, de Miguel de Cervantes, e escreveu Romances Sans Paroles, considerado pelos críticos uma das suas obras-primas. Escreveu também o poema Ars poétique (1874) - que só foi publicado dez anos mais tarde, tendo sido posteriormente considerado como o manifesto do Simbolismo.

A partir de 1883, entrou numa fase de grande decadência, dormindo em bairros de lata e passando largos períodos hospitalizado. Com Mallarmé e Baudelaire, formou o grupo dos chamados Decadentes, conhecido pela sua atração pelo mórbido, perverso e bizarro e pela liberdade moral. Em 1894, após a sua obra ter sido redescoberta pelos seus contemporâneos, foi considerado "O Príncipe dos Poetas franceses". Morreu na miséria, a 8 de janeiro de 1896, mas o seu funeral foi acompanhado por milhares de pessoas.

Verlaine

O VIVO, O VIRGINAL, O BELO DIA DE HOJE
O vivo, o virginal, o belo dia de hoje
Por nós há de romper com um golpe de asa louca
Este olvidado e duro lago sob o qual
Assombra o diáfano glaciar dos voos frustros?

De outrora um cisne vem lembrar-se de que é ele
Magnífico mas que sem alento se solta
Por não haver cantado a região onde vive
Quando o tédio do inverno estéril resplendeu.

Seu colo agitará essa branca agonia
Pelo espaço infligida ao pássaro que a nega,
Mas não o horror do sol que prende suas plumas.

Fantasma que o seu brilho a este lugar destina,
Se imobiliza ao frio sonho do desprezo
Que em meio ao seu exílio inútil veste o Cisne.
Mallarmé

DOM DO POEMA
Entrego-te a criação de uma noite idumeia!
Negra, de asa sangrenta e fraca, desplumada,
Pelo vidro, queimado entre perfumes e ouro,
Pelo caixilho frio, ai!, entretanto morno,
A aurora se lançou sobre a lâmpada angélica.
Palmas! E, quando revelou essa relíquia
Ao seu pai ensaiando um sorriso inimigo,
A solidão estremeceu azul e estéril.
Ó canção de ninar, com tua filha e a inocência
De teus pés frios, saúda um terrível nascer:
E, tua voz lembrando a viola e o clavecino,
Com o dedo enrugado apertarás teu seio,
Por que flua a Mulher em brancor sibilino
Ao lábio a que dá fome o ar da virgem azul?
Mallarmé

A Angústia
Nada em ti me comove, Natureza, nem
Faustos das madrugadas, nem campos fecundos,
Nem pastorais do Sul, com o seu eco tão rubro,
A solene dolência dos poentes, além.
Eu rio-me da Arte, do Homem, das canções,
Da poesia, dos templos e das espirais
Lançadas para o céu vazio plas catedrais.
Vejo com os mesmos olhos os maus e os bons.
Não creio em Deus, abjuro e renego qualquer
Pensamento, e nem posso ouvir sequer falar
Dessa velha ironia a que chamam Amor.
Já farta de existir, com medo de morrer,
Como um brigue perdido entre as ondas do mar,
A minha alma persegue um naufrágio maior.
Paul Verlaine

CANÇÃO DO OUTONO
Os soluços graves
Dos violinos suaves
Do outono
Ferem a minh'alma
Num langor de calma
E sono.

Sufocado, em ânsia,
Ai! quando à distância
Soa a hora,
Meu peito magoado
Relembra o passado
E chora.

Daqui, dali, pelo
Vento em atropelo
Seguido,
Vou de porta em porta,
Como a folha morta
Batido...
Paul Verlaine

 

 

Faça seu login para comentar!