A panela de ouro

24/03/22 às 08h50



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Essa é uma história daquelas que os avós deixam de legado para os netos, pelo menos deixavam.

Dizia-se que um sujeito chamado Paulo morava com a família no interior do Rio Grande do Sul. Quando menino, o avô contava histórias de fantasmas, era a diversão de Paulo, sentar-se no galpão de chão batido e ouvir aqueles causos. Um em especial, lhe chamava atenção. O avô tinha no galpão objetos de escravidão que foram utilizados para tortura na fazenda: gargalheiras, algemas, correntes. Quando Paulo herdou a fazenda, doou os objetos para um museu, mas ali restaram as lembranças e história de dor. Paulo jurava que o vento minuano trazia gritos de sofrimento, e as noites faziam os fantasmas saírem dos cantos escuros e caminharem livremente pela fazenda.

Ele pensou muito se iria mesmo morar ali, mas o amor que tinha por aquele chão era maior do que qualquer medo de fantasma. Uma noite reuniu os filhos ao redor do fo-go de chão e decidiu compartilhar a história favorita que seu avô lhe contava:

O meu tataravô era apenas um menino e via a figura de um negro vagando por es-ses pagos. Ele dizia que o fantasma lhe chamava com frequência para brincar ao pé de uma árvore. Ao anoitecer, ouvia as correntes arrastando ao redor da casa e quando abria a porta, enxergava um brilho estranho no breu do campo, em direção ao pé de figueira. Ele dizia que seu pai tinha enterrado ouro em algum lugar e o fantasma mostrava onde.

Paulo nunca contou a ninguém que desde menino enxergava o brilho no campo, que já se acordou com o som das correntes arrastando e que volta e meia sentia o cheiro forte de palheiro, mesmo que nunca tivesse ninguém ao redor. Por isso a história do avô sempre mexia com ele, Paulo acreditava em cada palavra.

Há quase um ano morando na fazenda, a ideia de sair em busca do ouro enterra-do não lhe deixava o pensamento. Ainda mais quando a ferrugem bateu na soja e uma doença no gado trazia perdas incalculáveis. Em uma noite enluarada pegou uma pá, uma lanterna e saiu sozinho campo a fora.

Não foi preciso pensar muito para onde seguir, o brilho parecia mais forte na coxi-lha, o cheiro de palheiro o acompanhava em cada passo. Assim que chegou ao pé da grande figueira teve a impressão de ver um negro sentado, brincando de passar moedas brilhantes de uma mão para a outra. O espectro sumiu com o facho de luz da lanterna.

Era ali, ele tinha certeza. Então começou a cavar, cavou fundo na terra, levou um bom tempo. Era como abrir uma cova. Embora fosse uma noite fria, já estava suado quando a pá finalmente encostou em algo metálico. Ele arredou com as mãos a terra e encontrou uma panela de ferro, percebeu que estava cheia de moedas, apesar da sujeira pôde ver que eram douradas. Ouro.

— Menino enfim chegou até aqui!

Paulo virou o facho da lanterna para a raiz da figueira, onde o homem descansava com seu palheiro aceso, parecendo que estava mesmo ali.

— Achou, menino. É ouro. Pode levar, mas o teu parente enterrou aí porque é maldito. Se tu levas, vai te custar um filho.

Paulo nada disse, não ia conversar com uma assombração. Virou o facho da lan-terna para dentro do buraco que cavou, foi quando viu os fragmentos dos ossos ao lado da panela. Era o escravo, possivelmente enterrado junto com o ouro pelo próprio dono, para nunca contar a ninguém onde a riqueza estava. Ele pensou em fotografar, em con-tar para todo mundo. Mas lembrou dos olhos claros de suas crianças e não queria nem pensar na dor de perdê-las. Rapidamente, voltou a colocar a terra por cima de seu acha-do. Algumas coisas deveriam permanecer exatamente como estavam.

O homem logo sumiu, mas Paulo soube que ele nunca iria a lugar algum. Dizem que o brilho, o cheiro e o barulho das correntes permanecem na fazenda, até hoje.

Curiosidade: Em vários estados do Brasil há lendas de ouro enterrado, guarnecido por almas de escravos.

“Pois frequentemente quando algo precioso se perde, ao voltarmos a encontrá-lo, pode não ser mais o mesmo”. Cassandra Clare.

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