Assobios noturnos

17/02/22 às 08h00



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Essa história é sobre aquelas superstições que as avós acreditam piamente e tentam assustar os netos, repetindo até que eles se tornem adultos. A minha vó se criou no interior, em uma época em que energia elétrica era apenas um sonho. Quando eu era criança ela me contava muitas histórias, eu ficava sempre admirada. Quando o bicho da adolescência cruzou de longe o meu caminho, passei a questionar tudo que ela dizia, aquilo soava tão absurdo. Assim, decepcionada, ela parou de me contar.

— Quem assobia de noite dorme com as cobras.

Isso ela nunca parou de dizer. Por mais que eu risse e que tivesse mostrado livros de ciências provando que as cobras eram surdas, ela jamais deixou de dizer. E assim, seus filhos e netos sempre respeitaram seu silêncio noturno. Tanto que eu duvidei.

Acho que já devia estar com uns quinze anos, quando fomos passar uns dias na casa de um parente no interior. Depois do carteado à luz de lampiões a óleo, foi a hora de deitarmos para dormir. O interior ficou calmo após o término das nossas gaitadas, podia-se ouvir o crocitar de uma coruja longe dali e os grilos em sua orquestra ritmada tão perto.

Foi então que o velho Rui, caseiro da fazenda, começou a assobiar em frente a sua choupana e aquela melodia aguda invadiu nossos pensamentos. Eu lembro da minha vó reclamando. O Rui era o responsável por abrir as porteiras, alimentar os bichos e ordenhar as vacas ainda na aurora do dia. Naquela manhã, tudo amanheceu tão quieto. Todos deram falta do caseiro, assim batemos na velha choupana.

Ninguém atendeu. Meu avô pensou em arrombar a porta, mas ela estava aberta. Quando entramos na casa de duas peças, encontramos o Rui no quarto. Meu avô tocou seu ombro, pensando que ele tinha exagerado na cachaça da noite e a manhã seguinte lhe cobrara o preço.

Porém, quando meu avô o tocou, o corpo caiu de cima da cama, fazendo um baque quando se chocou com o chão de tábuas. Apesar de estar morto, Rui movia a boca, então notamos a coral legítima que se arrastou para fora do seu corpo. Meu vô rapidamente matou aquela cobra, mortalmente venenosa e depois mais uma igual. Não nos restara dúvida de que aquele homem dormiu com as cobras, elas fizeram ninho de seu cadáver.

Todo o meu ceticismo foi embora. Passei a acreditar em minha avó quando ela dizia que não era a primeira vez que via aquilo. Eu sabia que as cobras eram surdas, eu sabia que podia ser coincidência, mas não podia explicar como um homem experiente na lida de campo, morador de anos do interior, tinha acabado daquele jeito. 

Hoje digo aos meus dois filhos:
— Quem assobia de noite…
— … dorme com as cobras — eles respondem.

E volta e meia vou até o cemitério, pedir perdão a minha vó pela minha teimosia e vejo sua foto na moldura oval, me fitando com olhos debochados de quem sabe que chegará a minha vez de ser tão desacreditada como ela foi.
    
Curiosidade:
Além do mito das cobras os antigos costumam a dizer que assobiar de noite atrai maus espíritos, mas isso é assunto para outro post.

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